Falso advogado é preso após atuar em mais de 2 mil processos em MG e SP

Antônio Carlos Cabral Coelho foi indiciado pela Polícia Civil por fraude processual, estelionato e exercício irregular da profissão — Foto: Reprodução/TV Globo
Advogado com inscrição cancelada atuou em mais de 2 mil processos usando registros de terceiros na OAB de Minas Gerais e São Paulo
Preso por suspeita de exercício irregular da advocacia e falsidade ideológica, "Antônio Carlos" Cabral Coelho atuou em mais de 2 mil processos que tramitam em Minas Gerais e São Paulo. Ele foi detido pela Polícia Civil após investigação que revelou o uso de registros de terceiros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para continuar exercendo a profissão mesmo após ter sofrido penalidades administrativas.
O caso veio à tona depois que "Antônio Carlos" realizou uma sustentação oral em causa própria no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), em Belo Horizonte, em 15 de junho de 2026.
"Antônio Carlos" foi preso em 1º de setembro de 2026, com base em um mandado expedido em 28 de agosto.
A descoberta ocorreu durante uma sessão virtual do 3º Grupo de Câmaras Criminais do TJMG, na qual ele participava do julgamento de uma Revisão Criminal fazendo a própria defesa. O objetivo era reverter uma condenação anterior por apropriação indébita de R$ 5.507,66, valor que pertencia a um ex-cliente.
A participação de "Antônio Carlos" na sessão chamou a atenção de um desembargador que, ao consultar os registros da OAB após o julgamento, identificou que a inscrição do advogado em Minas Gerais estava cancelada. A apuração ainda apontou que ele utilizava a inscrição de outro profissional para continuar peticionando nos tribunais.
Conforme o TJMG, "Antônio Carlos" respondeu a 20 processos disciplinares na OAB de Minas Gerais, cujos procedimentos resultaram em multas, suspensões e, por fim, no cancelamento de sua inscrição no estado. Em São Paulo, a inscrição suplementar também estava suspensa.
Segundo as decisões judiciais, "Antônio Carlos" passou a utilizar um número de inscrição da OAB de São Paulo pertencente a outro profissional, cuja inscrição estava inativa ou havia sido baixada. A numeração era semelhante à inscrição original do investigado em São Paulo, com diferença de apenas um dígito.
A dimensão da atuação irregular impressionou a Justiça. "Antônio Carlos" aparece como advogado ou procurador em mais de 2 mil processos nos dois estados.
Diante do volume de ações, a Justiça determinou que a Presidência e a Corregedoria-Geral de Justiça do TJMG fossem comunicadas para alertar os juízos do estado sobre o caso. A medida busca verificar possíveis impactos nos processos e preservar a validade dos atos processuais e os direitos das partes envolvidas.
Além da prisão, a Justiça determinou a suspensão imediata das atividades de advocacia de "Antônio Carlos" e o bloqueio de tokens e credenciais utilizados para acessar sistemas de peticionamento eletrônico, como o Processo Judicial Eletrônico (PJe). O investigado também foi proibido de acessar ou frequentar prédios do Poder Judiciário.
A Justiça ainda autorizou o cumprimento de mandados de busca e apreensão em endereços residenciais e profissionais nas cidades de Uberaba e Uberlândia, no Triângulo Mineiro.
O caso foi comunicado ao Conselho Federal da OAB e às seccionais da entidade em Minas Gerais, São Paulo e no Distrito Federal.
A reportagem solicitou posicionamento à OAB e aguarda retorno. A defesa de "Antônio Carlos" também foi procurada, mas, até o fechamento desta edição, não havia respondido. O espaço permanece aberto para manifestação.