Alcolumbre e Lula superam desentendimentos pela 6x1 e reeleição

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Aprovação do fim da escala 6x1 sela reaproximação entre Lula e Alcolumbre, movida pela dependência mútua por suas reeleições
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), presidente do Senado Federal, vivem um novo momento em sua relação após meses de tensões e abalos no contato entre os dois. A reaproximação tem como pano de fundo a dependência mútua pelas suas respectivas reeleições. Enquanto Lula trabalha para tentar virar o jogo na disputa presidencial e vencer Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, Alcolumbre já faz cálculos sobre as chances de se reeleger como presidente do Senado em fevereiro de 2027. Atualmente, é por meio da reeleição petista que o chefe do Legislativo tem maiores chances de se manter no cargo. Como gesto ao presidente, Alcolumbre pautou e votou os dois turnos da proposta que coloca fim à escala de seis dias de trabalho por apenas um de folga. Na mesma semana, o senador do Amapá aprovou os dois turnos e promulgou o texto, que era a principal bandeira de Lula na campanha deste ano.
Ao dar o trunfo de aprovar sua pauta mais importante dos últimos meses, o presidente do Senado selou sua aproximação com o petista e estancou a sangria causada pela rejeição da Casa à indicação do governo para o Supremo Tribunal Federal (STF). Em abril, o mesmo Alcolumbre que deu a maior vitória ao governo nesta gestão com a aprovação do fim da escala 6x1, foi o responsável pela maior derrota do petista neste mandato. O ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, foi rejeitado pelo Senado para ser ministro do STF — uma indicação presidencial não era rejeitada pelos senadores desde 1894. Naquela época, a relação do presidente do Senado com a oposição era mais próxima, e essa aliança rendeu a imposição da derrota ao governo. Com o passar dos meses, no entanto, a relação foi se deteriorando, com nomes do PL fazendo críticas quase diárias a Alcolumbre, que se irritou com o movimento.
A tensão cresceu ainda mais depois que novos escândalos foram revelados sobre o caso de fraude do banco Master. A oposição passou a cobrar e pressionar o chefe do Legislativo a abrir um processo de impeachment contra Alexandre de Moraes, ministro do STF. Alcolumbre, no entanto, não cedeu aos pedidos. A reaproximação com Lula não se deu apenas pelo desgaste com a oposição. Irritado com o presidente do Senado, o petista relutou em baixar a guarda e aceitar um encontro entre os dois. Um dos articuladores pela reaproximação foi o líder do PT no Senado, Camilo Santana (CE), que atualmente trabalha na coordenação de campanha do petista. No meio do caminho, ainda houve uma demora maior na reaproximação porque a base de Lula também passou a criticar Alcolumbre por "demorar" a pautar o fim da escala 6x1. O tema chegou ao Senado em maio e até agosto não havia avançado.
Uma das vozes críticas foi a da deputada federal Erika Hilton (PSol-SP), que reverberava cobranças ao presidente do Congresso em atos públicos com movimentos sociais e sindicais, criando um ciclo de embates que impediam a reaproximação. No entanto, petistas experientes reforçaram a ofensiva pela aproximação até que, em agosto, os dois tiveram dois encontros. O primeiro, em 4 de agosto, se deu na casa do ministro do STF Alexandre de Moraes. Depois, em 12 de agosto, Lula recebeu Alcolumbre no Palácio do Alvorada, com a participação da líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-CE). Além da atuação de agentes políticos, o Planalto também emitiu sinais para a reaproximação. Logo após os primeiros encontros, a Petrobras descobriu indícios de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, no Amapá, estado do senador. Após a descoberta, Lula fez uma agenda no local com a presença de Alcolumbre, na primeira aparição dos dois juntos em meses. Ciente do desgaste que passou com o presidente do Legislativo, Lula minimizou a disputa de forças durante o discurso de promulgação do fim da escala 6x1.
O petista chamou os desentendimentos de "futrica" e "bobagem", apesar de reconhecer que, em certo momento, parecia que ele e Alcolumbre eram "dois inimigos". "Outro dia parecia que eu e vocês éramos dois inimigos. De vez em quando tem uma futrica colocando a inimizade entre o presidente da República, deputado, senador. Isso é uma bobagem", disse. O avanço da 6x1 se deu a contragosto da oposição, com o grupo acusando o presidente do Senado de "atropelos" na discussão dessa PEC. Com o resultado das urnas e uma bancada de 28 senadores em 2027, o PL ganhou força e entrou em briga frontal com Alcolumbre pelo comando da Casa a partir do ano que vem. O principal porta-voz do rompimento é o líder da oposição e coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho (PL-RN), um dos cotados para concorrer contra Alcolumbre, além da senadora Tereza Cristina (PP-MS).
O presidente do Senado sabe que, se Flávio vencer e ele não tiver apoio do Planalto para sua reeleição, suas chances serão menores. Marinho e Alcolumbre bateram boca publicamente no plenário após o presidente do Senado adiar a votação da PEC da Segurança, outra proposta prioritária para Lula, em que bolsonaristas pretendiam causar um constrangimento ao governo após a vitória com a 6x1. O senador Camilo Santana (PT-CE), coordenador da campanha de Lula, apresentou uma emenda para reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos somente para crimes hediondos, a fim de se contrapor à sugestão da oposição, que defende a redução para até 14 anos nesses casos. A posição, porém, não é consenso no governo, levando Alcolumbre a adiar a votação, o que o afastou ainda mais da oposição.