Vorcaro sabia da operação antes de ser preso, mostra relatório da PF

Relatório da PF revela que Vorcaro conhecia detalhes sigilosos da investigação e tentou fugir para os Emirados Árabes Unidos
O banqueiro Daniel Vorcaro, principal figura no escândalo do Banco Master, já tinha conhecimento da operação policial que resultou em sua prisão com dias de antecedência e teria tentado fugir do país na véspera para evitar ser detido. A informação está registrada em um relatório da Polícia Federal (PF) divulgado na noite de quinta-feira (10/9), após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça determinar a quebra do sigilo sobre o inquérito.
A Operação Compliance Zero foi oficialmente deflagrada em 18 de novembro de 2025, mas Vorcaro foi preso preventivamente no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) um dia antes, em 17 de novembro. Ele foi interceptado por agentes da PF enquanto tentava embarcar para os Emirados Árabes Unidos em seu jato particular. O inquérito aponta que é "improvável que sua viagem ao exterior, na noite imediatamente anterior à data do cumprimento dos mandados, seja mera coincidência". O documento também indica que Vorcaro soube previamente o nome do juiz responsável pela investigação, assim como o de agentes que dela participaram.
O relatório da PF detalha com precisão os eventos que antecederam a prisão de Vorcaro:
• Em 16 de outubro de 2025, dois dias antes da operação, Daniel Vorcaro registrou no aplicativo "Notas" de seu celular que havia perguntado a alguém sobre uma eventual proximidade ao juiz federal Ricardo Soares Leite, magistrado responsável por autorizar sua prisão. Como a investigação era sigilosa, a PF concluiu que não seria possível Vorcaro saber o nome do juiz sem que houvesse algum vazamento de informações.
• Na manhã do dia 17 de outubro, data em que o banqueiro foi preso pela primeira vez, Vorcaro recebeu mensagens de seu advogado, Walfrido Warde, e logo depois informou que agendaria um voo saindo do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo (SP).
• A partir daí, Vorcaro iniciou contato com o jornalista Diego Escosteguy sobre uma reportagem que seria publicada, tratando de um processo contra ele na 10ª Vara Federal de Brasília. O banqueiro pediu o link do texto antes de sua divulgação e o repassou ao advogado. Warde, por sua vez, encaminhou uma petição à Vara Federal pedindo acesso aos inquéritos, afirmando que tinham ciência do processo por conta da reportagem.
• Simultaneamente, Vorcaro mantinha contato com dois servidores do Banco Central (BC), Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, que, segundo a investigação, seriam responsáveis por informar o banqueiro sobre reuniões e documentos internos da instituição.
• Ainda no dia 17, os servidores insistiram para que Vorcaro falasse com o diretor do Banco Central, Ailton Aquino, e uma reunião foi marcada para aquela mesma data. A PF acredita que, ciente da possibilidade de prisão, Vorcaro tentou "forçar uma reunião virtual, no dia imediatamente anterior à operação policial", utilizando dos servidores Paulo e Belline, "que lhe são subalternos (em razão do pagamento de vantagens indevidas)".
• Na noite do mesmo dia 17, Vorcaro foi interceptado no Aeroporto Internacional de Guarulhos enquanto tentava embarcar para os Emirados Árabes Unidos em seu jato particular. Na manhã seguinte, em 18 de outubro, a Operação Compliance Zero foi oficialmente deflagrada. Ainda de acordo com a PF, há fortes indícios de que o banqueiro e seus associados teriam tentado proteger o núcleo dirigente da organização criminosa, "mediante conhecimento antecipado de atos processuais e articulações com interlocutores em órgãos de controle, ao lado de planejamento logístico para saída do país em janela próxima à deflagração de medidas".
O ministro do STF André Mendonça, relator do inquérito sobre o Banco Master, acatou a solicitação do presidente da Corte, ministro Edson Fachin, e determinou a derrubada do sigilo das investigações na quinta-feira (10/9). Minutos antes, Fachin havia determinado que Mendonça tornasse públicos os documentos da investigação, ressaltando que fosse mantido em segredo de justiça apenas o que pudesse prejudicar futuras diligências. Anteriormente, Mendonça já havia derrubado o sigilo de parte das investigações, incluindo um inquérito que indica que o ministro Alexandre de Moraes, também do STF, teria trocado mensagens com Vorcaro antes de sua prisão. A abertura de eventual investigação contra Moraes será condicionada à controvérsia sobre a validade do relatório preliminar da PF. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, defendeu a dupla nulidade do documento em um parecer com uma série de críticas a Mendonça.