Vorcaro pediu a Moraes para impedir liquidação do Master e investigações

© Marcelo Camargo/Agência Brasil
Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram pedidos ao ministro Moraes para impedir liquidação do Banco Master e investigações da PF
Um relatório da Polícia Federal (PF) aponta a suspeita de que Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, recebeu orientações do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes durante o auge da crise da instituição financeira. Em um período de 13 dias, mensagens extraídas do celular do banqueiro revelam que ele pediu a intervenção do magistrado para impedir a liquidação do banco e o avanço das investigações. Nas conversas, Vorcaro faz apelos para "sensibilizar" autoridades e questiona como deveria proceder para "desarmar" e "reverter" a situação. Os diálogos integram um relatório produzido pela PF a partir da análise do aparelho de Vorcaro. Segundo as apurações, o banqueiro redigia os textos em um bloco de notas, tirava um print e os enviava a Moraes como capturas de tela de visualização única. O documento foi encaminhado ao ministro do STF André Mendonça no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Master.
No dia 17 de novembro de 2025, Vorcaro enviou uma mensagem a Moraes perguntando se havia "alguma novidade". "Conseguiu ter notícia ou bloquear?", dizia o texto. Não é possível saber ao que especificamente Vorcaro se referia, mas ele foi preso algumas horas depois desse diálogo no Aeroporto Internacional de Guarulhos, durante a Operação Compliance Zero. Os agentes o interceptaram quando ele se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Dubai. A PF o prendeu por suspeita de tentativa de fuga. Um dia antes, em 16 de novembro, a troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes foi intensa. O banqueiro pediu ao ministro que tentasse "sensibilizar" o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. "Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível", dizia o print, provavelmente em referência à operação da PF que seria deflagrada no dia seguinte. "Voce acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manha", completava a mensagem.
Nessa ocasião, Vorcaro demonstrava receio de ser alvo da PF e aparentava ter informações privilegiadas sobre o andamento das apurações. O banqueiro tentava ganhar tempo para vender os ativos do Master a um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira com fundos de investimentos dos Emirados Árabes, negócio que não prosperou em razão da Operação Compliance Zero. Ainda no dia 16 de novembro, Vorcaro pediu a "leitura" de Moraes sobre a situação enfrentada pelo Master. "Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual a sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei da pra segurar", dizia o texto.
Antes de pedir a intervenção do ministro sobre Andrei Rodrigues, Vorcaro solicitou ajuda para marcar um encontro com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Além das investigações da PF, o banqueiro temia que o Master fosse liquidado extrajudicialmente pelo BC, o que acabou acontecendo dois dias depois. A medida retirou o banco das mãos de Vorcaro e causou um rombo bilionário ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), entidade que protege investidores no Brasil em casos de falência ou liquidação de instituições financeiras. "E o Galipolo quem esta pressionando isso pra fazer intervenção?", dizia o print, que acrescentava: "Tentar que o galipolo me receba e eu apresente o que vamos protocolar essa semana. Vamos resolver tudo. Não podem estourar uma bomba atômica na hora da solução, não faz sentido pra ninguém. Nem pra ele, nem pro governo, pra economia e nem para o Brasil".
No mesmo dia, Vorcaro se disse "perplexo e indignado" com as informações que recebia e ressaltou a necessidade de "dar um jeito de desarmar isso". "Muita sacanagem isso. Estou perplexo e indignado. Esses caras vão destruir todo o negócio e sem volta. De repente até melhor eu encarar de frente. Temos que dar um jeito de desarmar isso. Meu Deus", dizia o texto. No dia 15 de novembro, Vorcaro questionou se não seria possível reverter a situação com Andrei Rodrigues e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Ele também perguntou sobre a posição do juiz de primeira instância do Distrito Federal Ricardo Soares Leite, que acabaria assinando o mandado de prisão contra ele. "Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo ta sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda ja tenho que estar fora?", dizia ele, completando: "Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?" Naquele momento, o juiz Leite já havia recebido a representação do Ministério Público Federal (MPF) com o pedido de prisão do banqueiro desde meados de outubro e estava prestes a assinar a ordem. Ele era o magistrado substituto da 10ª Vara do Distrito Federal e foi o responsável por autorizar a primeira fase da Compliance Zero.
No dia 14 de novembro, Vorcaro tentou ressaltar a suposta proximidade que teria com Moraes e destacou sua gratidão ao ministro. "Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nos tem uma dívida de vida contigo e com a sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser", dizia o texto. Em 7 de novembro, Vorcaro perguntou a Moraes sobre estratégias de como deveria proceder em relação a uma ação na Justiça. "O Pier acha que se entrar do nada pode acelerar algo, se justifica. Ele fez pedido macro, e acredita que vao jogar pra essa vara. O que acha? Tem ideia se esta controlado?". "Pier" seria uma referência ao advogado criminalista Pierpaolo Bottini, que atuava na defesa de Vorcaro. No dia 5 de novembro, ele enviou uma série de perguntas ao ministro, afirmando que não faria nenhum movimento sem o aval dele. "Acha que vale a pena? Nao vou fazer nenhum movimento que voce não achar produtivo. Estamos no escuro, o Paulo so disse que tava olhando pessoalmente e que nao teria sacanagem. Mas ontem ligou alerta vermelho ne".
Em seguida, retomou os questionamentos: "Isso é brasilia? Sabe o tema? Esta seguro ou tem que entrar agora urgente?", complementando: "Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade e sacanagem?" No dia 4 de novembro, o banqueiro indagou a Moraes sobre possíveis ações judiciais que seriam tomadas contra ele. "Medio a grave seria busca ou quebra sig? So vai saber qdo ele chamar ne", afirmou, provavelmente em referência a mandados de busca e quebra de sigilo. No mesmo dia, Vorcaro reclamou que, se viesse alguma "medida contra agora", "vai tudo por agua abaixo". Relatórios anteriores da Compliance Zero apontam que Vorcaro tinha acesso indevido a sistemas internos da PF, do MPF e até mesmo do FBI.
Durante todo esse período, Moraes chegou a responder algumas mensagens de Vorcaro, mas o conteúdo das respostas é desconhecido, pois o ministro também utilizava o recurso de visualização única e seu celular não foi alvo de quebra de sigilo. Nesta terça-feira, o ministro Mendonça indicou que levará ao plenário do STF o relatório da PF sobre a suposta rede de monitoramento e influência montada pelo banqueiro. Segundo Mendonça, a análise pelo colegiado ocorrerá independentemente da manifestação que vier a ser apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR). O ministro determinou ainda que a discussão seja realizada em sessão presencial, pública e transparente, com data a ser definida pelo presidente do STF, Edson Fachin. Mendonça também retirou o sigilo do processo, que reúne informações produzidas pela PF a partir da análise do celular de Vorcaro.