Vorcaro pagou por consultoria de diretores do BC

Foto: Banco Central/Reprodução
Relatórios da PF revelam que Vorcaro bancava viagens e mesadas a servidores do Banco Central em troca de orientações privilegiadas
Relatórios da Polícia Federal sobre o Caso Master, divulgados na madrugada desta sexta-feira (11) pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), revelam que o banqueiro Daniel Vorcaro mantinha uma consultoria informal com servidores do alto escalão do Banco Central. Segundo os documentos, o empresário pagava uma espécie de mesada e custeava viagens ao exterior para Paulo Sérgio Neves de Souza e Bellini Santana, ambos já afastados de seus cargos.
Os dois servidores chegaram a oferecer orientações detalhadas sobre temas sensíveis ao Banco Master e intervieram em assuntos de interesse direto de Vorcaro. Em uma mensagem de 21 de dezembro de 2023, Paulo Sérgio, então diretor de fiscalização do BC, enviou orientações com pontos a serem abordados em uma reunião de Vorcaro com o "Presi". De acordo com a PF, tratava-se de um encontro do banqueiro com o então presidente da autoridade monetária, Roberto Campos Neto.
Nessa ocasião, Paulo Sérgio teria orientado Vorcaro a demonstrar como o Will Bank, liquidado em janeiro de 2026, agregaria na oferta de serviços de pagamento e contas correntes aos quase 4 milhões de clientes do Credcesta. O Banco Master adquiriu o Will Bank em fevereiro de 2024. Segundo a PF, as orientações dos servidores do BC, seguidas ou não, culminaram na efetiva aquisição do referido banco.
No mesmo período, Vorcaro teria custeado uma viagem de Paulo Sérgio e sua família para a Disney. O ex-diretor do BC teria aceitado a oferta por um pacote de acesso prioritário aos parques da Disney e da Universal, no valor de US$ 8 mil em espécie. O dono do Master também teria pago US$ 38 mil ao agente de viagens Leonardo Giunchetti. Em outubro de 2025, Bellini Santana, então chefe de Supervisão Bancária do BC, criou um grupo de mensagens com Daniel Vorcaro e Paulo Sérgio. Segundo a PF, o grupo serviria para uma espécie de consultoria, "tanto por meio de mensagens de texto e ligações, quanto pela revisão de documentos, em benefício dos interesses de Vorcaro". A primeira mensagem de Bellini afirmava que o grupo era para "facilitar a interlocução", e em seguida ele tratou da necessidade de adequação em um documento.
A relação entre Bellini e o banqueiro, no entanto, teria começado antes, em 2023, quando o servidor enviou mensagem a Vorcaro sobre a Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em dezembro daquele ano, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, mencionou que era dia de "pagamento a Belline". O empresário respondeu perguntando se o pagamento estava saindo do banco, ao que Zettel respondeu que não saía diretamente do Master. Os pagamentos teriam superado R$ 760 mil. Vorcaro também teria bancado parte de uma viagem de Bellini Santana e sua esposa para Paris. O empresário teria orientado duas pessoas sobre a organização de um jantar no restaurante Lapérouse e um almoço no Loulou. "Uma indicação de que os eventos seriam pagos por Vorcaro é o fato de ele indicar que deveriam ser pedidos nos restaurantes bons vinhos e comida", aponta o relatório da PF. O conjunto das revelações aponta para uma relação sistemática entre Vorcaro e servidores do Banco Central, com benefícios financeiros e viagens em troca de orientações privilegiadas sobre temas regulatórios e estratégicos do Banco Master.