MPF vive "constrangimento" e "perplexidade" com Gonet após relatório da PF

Procuradores relatam "constrangimento" com Paulo Gonet após menções em relatório da PF sobre Moraes e Vorcaro
Integrantes do Ministério Público Federal (MPF) relataram à CNN, nas últimas 48 horas, sentimentos de "constrangimento" e "perplexidade" em relação ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. O motivo são as menções a ele em relatório da Polícia Federal (PF) sobre a relação entre o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.
A atuação de Paulo Gonet desde a divulgação do documento também tem gerado insatisfação na categoria.
O nome de Paulo Gonet aparece no inquérito da PF em mensagens trocadas entre o advogado de Vorcaro, Ciro Passos, e o banqueiro. As conversas sugerem intimidade entre o procurador-geral e o então dono do Banco Master, com referências a passagens aéreas internacionais para o filho de Gonet, combinações para fumar charuto e tomar whisky Macallan, além do envio de uma foto de Ciro Passos ao lado de Gonet para Vorcaro.
O documento da PF aponta ainda que Vorcaro teria bancado uma viagem do filho de Paulo Gonet a Londres.
Nos grupos internos do MPF, o silêncio predomina em razão de uma medida adotada pela gestão Paulo Gonet neste ano, já revelada pela CNN, que teria levado ao silenciamento da categoria.
Fora desses grupos, porém, as palavras mais repetidas entre os membros são exatamente "constrangimento" e "perplexidade".
As críticas se concentram no grau de proximidade que Paulo Gonet teria com Vorcaro, intermediada pelo advogado do banqueiro.
Integrantes do MPF descrevem Ciro Passos como um conhecido lobista que frequenta diversos eventos ao lado de Paulo Gonet.
A avaliação predominante na categoria é de que, mesmo com o benefício da dúvida em relação a Paulo Gonet — dado que o caso Master ainda não havia estourado na época das mensagens —, a proximidade representou um erro que compromete o princípio basilar da carreira: a independência.
A resposta de Paulo Gonet ao relatório da PF
A postura de Paulo Gonet de agir rapidamente para contestar o relatório da Polícia Federal, que expôs tanto o ministro Alexandre de Moraes quanto o próprio procurador-geral, também foi alvo de críticas.
Paulo Gonet levou poucas horas para pedir o arquivamento do caso, enquanto o prazo disponível era de cinco dias.
O procurador-geral solicitou a nulidade do relatório da PF sobre o ministro.
Vale destacar que, conforme apontado pela PF, Moraes e Vorcaro tiveram encontros entre 2024 e 2025.
Paulo Gonet agiu de forma semelhante ao solicitar o arquivamento das denúncias feitas por Vorcaro em depoimento ao ministro do STF, negando de forma definitiva a delação do banqueiro.
O ministro André Mendonça já havia cobrado Paulo Gonet sobre uma mensagem de Vorcaro atribuída a Moraes.
Movimento por lista tríplice ganha força
O caso reacendeu entre procuradores influentes uma articulação, ainda em estágio inicial, para que o próximo presidente da República escolha o procurador-geral a partir de uma lista tríplice elaborada pelos próprios membros do MPF.
Esse formato, que nunca foi institucionalizado legalmente, vigorou até 2019, quando o ex-presidente Jair Bolsonaro rompeu a tradição ao escolher Augusto Aras para o cargo e depois renomeá-lo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) seguiu o mesmo caminho em 2023, ao escolher Paulo Gonet e renomeá-lo para um segundo mandato.
Tanto Aras quanto Paulo Gonet foram escolhidos a partir de acordos que passaram pelo Congresso Nacional e pelo STF.
Para os procuradores, isso compromete diretamente a função constitucional do cargo: a independência para investigar.
Paulo Gonet já é visto por parte da categoria como muito alinhado aos ministros Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, o que, segundo esses procuradores, o impede de agir com independência na atual crise.
Integrantes do MPF lembram ainda que o próprio processo de escolha de Paulo Gonet passou pelos dois ministros da Corte, uma vez que ambos foram consultados pelo presidente Lula sobre o nome do procurador-geral.
Esse histórico torna ainda mais difícil, no cenário atual, que Paulo Gonet abra eventualmente uma investigação contra Moraes.
A estratégia da categoria agora é aguardar o processo se estabilizar para, em algumas semanas, retomar a defesa de que a lista tríplice seja respeitada pelo próximo presidente.
O objetivo é aprovar uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) no Congresso Nacional que constitucionalize o mecanismo.
Paulo Gonet permanece no cargo até dezembro de 2027.
A CNN procurou Paulo Gonet por meio de sua assessoria, mas ele não se manifestou.
O procurador-geral também não divulgou publicamente qualquer nota sobre sua relação com Vorcaro e com o advogado Ciro Passos.