Norte de Minas concentra maiores índices de analfabetismo entre eleitores

Foto: TSE/Reprodução
Com 27,51% do eleitorado analfabeto, Ninheira supera BH proporcionalmente; Norte de Minas concentra os maiores índices do estado
Belo Horizonte é o município mineiro com o maior número absoluto de eleitores analfabetos: são 25.829, de acordo com levantamento da equipe de dados de O TEMPO, com base nas Estatísticas do Eleitorado do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No entanto, esse número representa apenas 1,32% do eleitorado da capital. A mais de 600 quilômetros de distância, em Ninheira, no Norte de Minas, os 2.435 eleitores analfabetos registrados — menos de um décimo do total de BH — correspondem a 27,51% do eleitorado local: mais de um em cada quatro moradores. Esse contraste revela como estão distribuídos os 637.785 mineiros cadastrados no sistema eleitoral com grau de instrução "analfabeto".
As cidades com maior concentração absoluta não são, necessariamente, aquelas onde esse grupo tem maior peso nas urnas. Em números absolutos, após Belo Horizonte aparecem Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, com 9.042 eleitores analfabetos, e Montes Claros, no Norte de Minas, com 8.093. Quando o critério muda para a proporção em relação ao eleitorado total, BH despenca para a 831ª posição entre os 853 municípios mineiros. Em todo o estado, 137 cidades têm pelo menos 10% do eleitorado registrado como analfabeto. Em 43, essa proporção chega a 15% ou mais, e dez municípios ultrapassam a marca de 20%.
Ninheira lidera proporcionalmente, com 27,51% do eleitorado analfabeto. Na sequência aparecem Bertópolis, no Vale do Mucuri, com 25,20%; Santo Antônio do Retiro, com 24,77%; e Fruta de Leite, com 24,55%, ambas no Norte de Minas. A concentração tem endereço claro: nove dos dez municípios com maiores percentuais estão no Norte de Minas, no Vale do Mucuri ou no Jequitinhonha. O padrão se mantém mesmo quando são consideradas apenas cidades com pelo menos 20 mil eleitores. Novo Cruzeiro, por exemplo, registra 4.764 eleitores analfabetos entre 25.021, o equivalente a 19,04%. Em seguida aparecem Rio Pardo de Minas (18,78%), Minas Novas (16,79%), Espinosa (16,12%) e Almenara (15,15%). No recorte regional, o Vale do Mucuri apresenta a maior proporção: 12,4% do eleitorado está registrado como analfabeto, totalizando 38.907 pessoas. No Jequitinhonha, são 66.358 eleitores, ou 11,7%.
O Norte de Minas reúne 124.114, equivalentes a 9,3% do eleitorado da região. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o cenário é inverso: são 96.869 eleitores analfabetos, 15,2% do total estadual, mas apenas 1,9% do eleitorado da região. **A história de quem vive essa realidade** É no Vale do Mucuri que vive Marcus Vinícius Rodrigues de Barros, de 30 anos. Mecânico de motos, ele não sabe ler nem escrever, apesar de ter frequentado a escola na infância. Anos depois, chegou a trabalhar na própria instituição de ensino. Hoje, mantém uma oficina de motos ao lado dela. Assim como na profissão, Marcus nunca fez curso formal de mecânica — aprendeu observando. "Eu fui olhando as pessoas, olhando os tipos da moto, a peça e criando uma mente ali que eu ia mexer com mecânica", conta. A ausência da leitura, porém, impõe barreiras concretas ao seu cotidiano.
Marcus relata que recusa alguns trabalhos quando a tarefa exige leitura ou deslocamento para locais desconhecidos. Apesar de trabalhar diariamente com motocicletas, ainda não conseguiu tirar a carteira de motorista. "Eu tenho tudo, eu vou pagar o trem, mas o papel não deixa", diz. Dos 637.785 eleitores analfabetos de Minas, 49,7% têm 70 anos ou mais. Incluindo a faixa entre 60 e 69 anos, o percentual sobe para 72%. As mulheres são maioria: 53,2% contra 46,7% de homens. Entre os mais jovens, o grupo é bem menor — apenas 0,8% têm até 24 anos. Vale lembrar que o voto é facultativo tanto para analfabetos quanto para maiores de 70 anos, o que significa que quase metade desse eleitorado reúne as duas condições. Aos 30 anos, Marcus diz que ainda quer aprender a ler e escrever. "Se eu aprender, acabou. Ninguém coloca no bolso mais", afirma. O levantamento evidencia que o analfabetismo eleitoral em Minas Gerais está longe de ser um fenômeno uniforme: enquanto grandes centros urbanos concentram números absolutos elevados, são os municípios menores do interior — especialmente no Norte, no Vale do Mucuri e no Jequitinhonha — que carregam o maior peso proporcional desse grupo nas urnas.