Milton Nascimento ganha mural gigante em BH

Obra de 1.600 m² assinada por Kaká Chazz homenageia Milton Nascimento no Centro de Belo Horizonte
A paisagem do Centro de Belo Horizonte ganhou um novo e imponente elemento artístico. Na empena de um prédio localizado na rua Álvares Cabral, nº 347, próximo à esquina com as ruas Espírito Santo e Timbiras, um mural de 1.600 m² retrata Milton Nascimento em toda a sua grandeza. A obra foi assinada pelo artista mineiro Kaká Chazz e integra a 20ª edição do projeto Fábrica de Graffiti. Os trabalhos tiveram início no dia 8 de setembro e foram concluídos na sexta-feira (25/9). O gigante painel apresenta Bituca em duas fases distintas da vida.
No alto, aparece o artista já mais velho, vestido com o manto que o acompanhou na turnê de despedida dos palcos, em 2022. Na parte inferior, surge o rosto do jovem compositor, com seu tradicional chapeuzinho, já então um nome consagrado e figura central na construção do Clube da Esquina, além de autor de discos que marcaram a música popular brasileira. O mural está repleto de referências a Minas Gerais. A paleta de cores, nos tons roxo, amarelo e laranja, foi inspirada no pôr do sol mineiro, enquanto os arabescos dourados dialogam com a tradição barroca e com a obra de Aleijadinho. O chapeuzinho do jovem Milton traz ainda o desenho da Serra de Três Pontas, feito pelo próprio Bituca, que ilustra a capa do álbum "Geraes", o qual completa 50 anos em 2026.
A relação de Kaká Chazz com a obra de Milton Nascimento começou ainda na infância. O muralista cresceu em Três Pontas cercado pela música de Bituca, que chegou à cidade do Sul de Minas aos três anos de idade e ali se tornou homem e artista. Nas comemorações escolares e nas formaturas, as crianças sempre cantavam alguma música de Milton. Foi, no entanto, já adulto, ao desenvolver a própria identidade artística e mergulhar na cultura mineira, que Kaká passou a se aprofundar de fato na obra do cantor. "Eu me emociono. Porque estou homenageando alguém que tem uma trajetória marcada por muitas lutas, mas que, mesmo assim, dedicou grande parte da sua obra a homenagear e dar visibilidade a tantos outros.
O Milton enfrentou o preconceito e o racismo, mas respondeu a tudo isso através da arte, da humanidade e da sua forma de enxergar o mundo. Ele olhou para o povo, para suas culturas e para histórias que muitas vezes foram invisibilizadas", afirma Kaká Chazz, que, ao longo do processo de criação do painel, não parou de ouvir as canções "Simples" e "Fazenda", dos discos "Minas" e "Geraes".
O muralista ressalta que um dos aspectos que mais o marcou foi perceber que muitos dos temas, referências e valores que já vinham se construindo em seu próprio percurso artístico também estavam muito presentes na obra do cantor e compositor. "Então, para mim, a obra dele é como uma faculdade", sublinha. Não é a primeira vez que Kaká Chazz presta homenagem a Bituca nos muros. Em Três Pontas, o artista já havia realizado um grafite em homenagem a Milton Nascimento, em cores semelhantes às utilizadas agora em Belo Horizonte.
A obra, finalizada em abril do ano passado, chegou ao conhecimento do compositor por meio do filho, Augusto Nascimento, que também acompanhou o processo do mural na capital mineira. À época, Bituca agradeceu a homenagem e compartilhou fotos nas redes sociais. "Que alegria! Receber uma homenagem dessas me enche o coração. Só tenho a agradecer por tanto carinho", escreveu. O Fábrica de Graffiti é um projeto mineiro que atua em áreas de impacto industrial, levando intervenções culturais e fruição artística para quem vive e circula por esses espaços. "Qual a melhor forma de comemorar a 20ª edição do projeto Fábrica de Graffiti senão pela homenagem ao maior artista que Minas Gerais já teve? Milton Nascimento atravessa gerações e nós, um projeto mineiro, ficamos honrados em realizar um mural que com certeza se tornará um cartão-postal de Belo Horizonte", celebra Paula Mesquita, produtora-executiva da Fábrica de Graffiti. O mural foi realizado com patrocínio da Fundação ArcelorMittal.