Moradores denunciam trincas em estrutura da Vale em Macacos; empresa responde

Fotos anexadas ao ofício mostram as trincas na estrutura - Foto: ARQUIVO PESSOAL / DIVULGAÇÃO
Trincas visíveis e falhas em estrutura de contenção reacendem o temor de desastre no distrito de Macacos, em Nova Lima
Sete anos após a barragem B3/B4, na mina Mar Azul, entrar em alerta máximo de rompimento, a população do distrito de São Sebastião das Águas Claras, conhecido como Macacos, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, volta a conviver com o temor de novos incidentes relacionados à mineração.
Trincas visíveis foram identificadas nos taludes da estrutura remanescente da barragem, descaracterizada em 2024. Também há preocupação com possíveis falhas na bacia de contenção temporária instalada pela Vale na área.
O cenário envolve ainda uma pilha de rejeitos construída acima de um sump, estrutura destinada a conter materiais finos e sedimentos carregados pela água da chuva e por outros fluxos. Parte da estrutura apresenta sinais de desmoronamento na região próxima à base.
As intervenções emergenciais realizadas para conter o problema, inicialmente previstas para durar cerca de três meses, não foram suficientes para solucionar a situação. A alternativa passou a envolver a construção de um novo muro de pedras, o que pode prolongar as obras até setembro de 2027.
A situação preocupa especialmente pela proximidade com áreas habitadas. Um eventual comprometimento das estruturas pode atingir a comunidade do Engenho, bairro de Macacos, além de áreas de Mata Atlântica consideradas ambientalmente relevantes.
O distrito já enfrentou problemas relacionados a estruturas construídas durante o processo de descomissionamento da B3/B4. Em um episódio anterior, a Estrutura de Contenção a Jusante (ECJ) apresentou problemas no sistema de drenagem durante um período de fortes chuvas. O acúmulo de água provocou alagamentos e chegou a atingir as pontes de acesso a Macacos, deixando a comunidade isolada.
Além dos impactos sobre a população e o meio ambiente local, o cenário levanta preocupação com a segurança hídrica da Região Metropolitana de Belo Horizonte. Um eventual carreamento de lama, estéril, água e sedimentos contaminados poderia provocar assoreamento e alterações físicas e químicas em cursos d'água, entre eles o ribeirão Macacos e o rio das Velhas.
A preocupação se estende ao Sistema de Captação de Bela Fama, operado pela Copasa e responsável pelo abastecimento de água potável de uma parcela expressiva da população de Belo Horizonte e da Região Metropolitana.
O caso também ganhou repercussão diante de outros episódios envolvendo estruturas semelhantes da Vale. Em janeiro deste ano, durante um período de fortes chuvas, estruturas de contenção se romperam em unidades da mineradora em Congonhas e Ouro Preto, provocando o lançamento de rejeitos em cursos d'água da região.
Diante da situação em Macacos, foram solicitadas providências aos órgãos responsáveis pela fiscalização ambiental e da atividade minerária. Entre as medidas estão uma vistoria técnica presencial nas estruturas e nas obras do sump, a apresentação pública de laudos de estabilidade e das justificativas técnicas para a extensão das intervenções.
Também foi solicitada a apuração de possíveis omissões de informações relacionadas a riscos e a suspensão de qualquer plano de sobrecarga ou alteamento de pilhas de estéril e rejeitos na área até que estudos conclusivos comprovem a estabilidade das estruturas.
A reportagem procurou a Vale, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) e a Agência Nacional de Mineração (ANM) para obter esclarecimentos sobre a situação, mas não recebeu retorno até a publicação desta matéria.
O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) também foi procurado. O espaço permanece aberto para manifestação dos órgãos envolvidos.
Confira abaixo a nota da Vale:
A Vale informa que a barragem B3/B4, em Macacos, foi descaracterizada em 2024, completamente removida, e não existem mais os riscos associados à antiga estrutura. As intervenções atualmente realizadas na área não estão relacionadas a barragens nem à construção de pilhas de rejeitos. As imagens divulgadas pela imprensa mostram uma movimentação pontual e localizada do talude em terreno natural, situação identificada previamente e para a qual já estão em curso obras. As obras em andamento têm caráter preventivo e buscam reforçar as condições de segurança e drenagem da área antes do próximo período chuvoso.
Não houve e nem haverá qualquer impacto para as comunidades da região em decorrência das condições observadas ou das obras realizadas no local. A área permanece monitorada e as intervenções são realizadas de forma planejada, seguindo os protocolos de segurança e controles da empresa. A Vale esclarece, ainda, que não existe qualquer projeto para construção de um "muro de pedra" no local.