IPCA registra maior deflação desde 2022

José Cruz/Agência Brasil
Bônus de Itaipu impulsiona queda de preços em agosto, mas analistas alertam para riscos do El Niño e do conflito no Oriente Médio
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou deflação de -0,32% em agosto, conforme dados divulgados nesta sexta-feira (11/9) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado representa a maior deflação desde agosto de 2022, quando o índice recuou 0,36%, e a primeira queda em um ano, desde agosto de 2023 (-0,11%). A deflação ocorre quando um índice de preços cai em determinado período, sendo o oposto da inflação, que representa a alta no custo de bens e serviços. Em julho, o IPCA havia registrado alta de 0,07%. O desempenho do IPCA em agosto ficou abaixo da projeção mediana dos analistas do mercado financeiro, que esperavam taxa de -0,28%, segundo levantamento da agência Bloomberg. O intervalo das estimativas variava entre -0,37% e -0,20%.
- **Alimentação e bebidas**: -0,34%, contribuindo para a queda geral do índice no período.
- **Habitação**: -1,87%, o maior recuo entre todos os grupos, impulsionado principalmente pelo bônus de Itaipu, que gerou desconto significativo na conta de luz em agosto.
- **Artigos de residência**: 0,64%, registrando alta no mês.
- **Vestuário**: 0,12%, com leve avanço.
- **Transportes**: -0,86%, apresentando queda relevante no período.
- **Saúde e cuidados pessoais**: 0,23%, com alta moderada.
- **Despesas pessoais**: 1,30%, o maior avanço entre os grupos.
- **Educação**: 0,47%, com alta no mês.
- **Comunicação**: -0,09%, registrando leve recuo.
A principal razão para a deflação de agosto foi o bônus de Itaipu, distribuído anualmente a milhões de consumidores e calculado com base no saldo da conta de comercialização de energia da usina no ano anterior. O alívio, no entanto, é temporário e tende a ser revertido já a partir de setembro. Em 12 meses, o IPCA acumulou inflação de 4,22% até agosto, abaixo dos 4,44% registrados até julho. Com o resultado, o índice permaneceu abaixo do teto de 4,5% da meta de inflação perseguida pelo Banco Central (BC). Apesar do alívio momentâneo, analistas destacam riscos no horizonte. O fenômeno climático El Niño representa uma ameaça ao agronegócio ao alterar a distribuição das chuvas, o que pode encarecer os preços de alimentos ao consumidor em caso de perdas na produção. O El Niño também pressiona custos no setor de energia. Na mediana, as projeções do mercado financeiro indicam alta de 5% para o IPCA nos 12 meses até dezembro, conforme o boletim Focus divulgado pelo BC, estimativa que está acima do teto da meta de 4,5%. Outro fator de risco é o conflito entre Estados Unidos e Irã. Na quarta-feira (9), as cotações do petróleo ultrapassaram US$ 100 pela primeira vez desde maio, com a intensificação da guerra.
A situação levou o governo Lula (PT) a anunciar um novo pacote de medidas para conter a alta dos preços dos combustíveis antes do primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro. A divulgação desta sexta-feira é a última do IPCA antes do pleito e ocorre às vésperas da nova reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para terça (15/9) e quarta (16/9). O colegiado do BC vai definir o patamar da taxa básica de juros, atualmente em 14% ao ano. O mercado financeiro espera mais um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, que passaria a 13,75%. Em agosto, o Copom avaliou que a inflação continuava pressionada pela demanda e que o cenário requer juros em nível alto o suficiente para frear a economia.