IA ganha espaço nas eleições e pode influenciar decisão dos eleitores

Pessoa usando o aplicativo do ChatGPT, assistente virtual de IA
Mais de 62% dos eleitores consideram usar Inteligência Artificial para decidir o voto, enquanto o TSE regula o uso das ferramentas
O uso da Inteligência Artificial já faz parte do cotidiano dos brasileiros e, com as eleições se aproximando, mais da metade dos eleitores considera recorrer a essas ferramentas para decidir o voto. Um levantamento realizado em abril de 2026 pelo Projeto Briefing, iniciativa de comunicação da organização sem fins lucrativos Quid, mostra que 62,9% dos eleitores pensam em consultar alguma ferramenta de Inteligência Artificial para obter informações sobre candidatos nas eleições municipais.
Com o avanço acelerado da tecnologia, a Justiça Eleitoral passou a acompanhar de perto o impacto dessas ferramentas sobre o eleitorado e os riscos que elas podem representar para o processo democrático. As eleições deste ano serão marcadas por um cenário em que milhões de pessoas já utilizam sistemas de Inteligência Artificial para estudar, trabalhar, buscar informações e tomar decisões.
Além de estabelecer uma série de regras para candidatos e campanhas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou restrições específicas para plataformas de Inteligência Artificial que funcionam em formato de conversa, como ChatGPT e Google Gemini. Esses sistemas estão proibidos de indicar, ranquear ou recomendar candidatos aos usuários.
A proibição foi estabelecida por meio de uma resolução publicada pelo TSE em março deste ano, que atualizou as normas relacionadas à propaganda eleitoral. Pela regra, sistemas de Inteligência Artificial ou tecnologias equivalentes não podem indicar candidatos, mesmo quando o pedido é feito diretamente pelo usuário.
As respostas também não podem apresentar opiniões, demonstrar preferência eleitoral, recomendar voto ou favorecer qualquer candidato. O descumprimento das normas pode resultar em sanções, incluindo multas e, em situações mais graves, até a suspensão da plataforma.
A influência da Inteligência Artificial sobre as eleições, porém, vai além da produção e circulação de conteúdos sintéticos, deepfakes e montagens. As próprias plataformas passaram a ocupar um espaço cada vez maior como intermediárias no acesso à informação política.
Eleitores podem recorrer a essas ferramentas para entender propostas, comparar candidatos, resumir notícias, esclarecer dúvidas sobre o processo eleitoral e organizar informações.
Dessa forma, a Inteligência Artificial passa a participar de uma etapa cada vez mais importante da formação da opinião política, interferindo na maneira como informações são acessadas, organizadas e interpretadas.
A popularização da Inteligência Artificial generativa ampliou ainda mais esse cenário. Ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos, áudios e códigos de programação passaram a estar disponíveis para um público cada vez maior e podem ser utilizadas por meio de comandos simples, em uma dinâmica semelhante a uma conversa.
Por produzirem respostas com linguagem próxima à utilizada pelas pessoas, esses sistemas podem transmitir uma sensação de neutralidade. Na prática, porém, as respostas são influenciadas por uma série de decisões técnicas e organizacionais tomadas pelas empresas responsáveis pelos modelos.
Os sistemas são desenvolvidos a partir de grandes volumes de dados utilizados no treinamento dos modelos e funcionam de acordo com políticas próprias de segurança, regras de funcionamento e critérios sobre quais respostas podem ser apresentadas ou quais conteúdos devem ser restringidos.
Cada empresa também estabelece parâmetros diferentes para o comportamento de seus sistemas. Isso significa que duas plataformas podem receber uma pergunta semelhante e apresentar respostas diferentes, dependendo das configurações, políticas e informações disponíveis para cada modelo.
A falta de padronização aumenta a importância das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral. Com a regulamentação, as plataformas precisam seguir parâmetros comuns quando o assunto envolve eleições, independentemente das políticas adotadas internamente por cada empresa.
O risco de influência permanece
Mesmo com as restrições impostas pelo TSE e as políticas adotadas pelas próprias plataformas, a Inteligência Artificial ainda pode influenciar o eleitor. Os sistemas podem cometer erros, apresentar respostas inesperadas ou ser utilizados de maneiras diferentes daquela prevista originalmente pelas regras.
O impacto, portanto, não precisa ocorrer por meio de uma recomendação direta de voto. A influência também pode acontecer durante o processo de formação da decisão, quando o eleitor utiliza a tecnologia para selecionar informações, comparar candidatos, interpretar propostas ou avaliar aspectos relacionados à vida pública dos concorrentes.
Por isso, o uso dessas ferramentas durante o período eleitoral exige atenção e senso crítico. A consulta a diferentes fontes de informação, incluindo jornalismo profissional, documentos oficiais e materiais disponibilizados pelos próprios candidatos, continua sendo importante para que o eleitor tenha condições de comparar dados antes de tomar uma decisão.
Ferramentas recusam indicação direta de candidatos
Testes realizados com ChatGPT e Google Gemini mostram como as plataformas estão lidando com as restrições relacionadas às eleições. As consultas foram feitas tanto em contas com histórico de conversas quanto em modo visitante, sem login e sem personalização.
No primeiro teste, realizado com uma conta logada, o ChatGPT recebeu uma pergunta direta sobre em quem votar nas eleições. A ferramenta recusou a indicação de candidatos ou a recomendação de voto, mas se ofereceu para comparar os nomes de maneira neutra.
O Google Gemini apresentou comportamento semelhante. A plataforma também se recusou a indicar candidatos e manteve a posição mesmo após novas tentativas de obter nomes ou recomendações. Quando questionada sobre a possibilidade de utilizar o histórico de conversas para escolher um candidato, a ferramenta novamente recusou a solicitação.
Em outro teste, realizado sem conta nas plataformas, foi solicitado que os sistemas utilizassem informações disponíveis na internet para ajudar na escolha. O ChatGPT voltou a afirmar que não poderia indicar um candidato, mas se ofereceu para auxiliar o usuário na análise.
Quando a pergunta foi direcionada especificamente para o histórico de corrupção dos candidatos, a ferramenta novamente recusou uma indicação direta, mas apresentou critérios que poderiam ser utilizados pelo eleitor para fazer uma escolha considerada neutra.
Após a solicitação para seguir esses critérios, a resposta passou a apresentar uma relação dos candidatos e informações associadas a cada um deles, incluindo casos de penas anuladas, investigações criminais sem condenação e situações em que não foram encontradas condenações.
O Gemini, diante da mesma questão, também se recusou a apontar um nome. A ferramenta classificou a escolha de um candidato como uma decisão pessoal do eleitor e afirmou que não poderia indicar ou recomendar votos em candidatos ou partidos políticos.
Quando a pergunta foi reformulada para identificar o candidato "mais correto" ou "menos corrupto", a plataforma manteve a recusa, mas ofereceu uma alternativa: apresentar informações sobre os candidatos de acordo com os critérios considerados mais importantes pelo próprio usuário.
Os testes indicam que as ferramentas respeitam a proibição de recomendar diretamente um candidato, mas continuam capazes de oferecer informações, comparações e critérios que podem interferir na maneira como o eleitor avalia os concorrentes.
O cenário cria um novo desafio para o processo eleitoral. A Inteligência Artificial não precisa dizer em quem votar para participar da construção de uma escolha. Ao organizar informações, destacar determinados aspectos, resumir conteúdos e estabelecer caminhos de comparação, as plataformas já podem exercer influência sobre o ambiente informacional das eleições.
Com a ampliação do uso dessas tecnologias, questões relacionadas à transparência, à regulação e ao uso responsável da Inteligência Artificial ganham cada vez mais importância. O desafio para a democracia brasileira passa a ser garantir que essas ferramentas possam auxiliar o eleitor na busca por informação sem se transformar em mecanismos de direcionamento político ou de favorecimento eleitoral.