Gilmar e Kassio trocam acusações em mensagens: "Assumam que estão ferrados"

Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes (à esquerda) e Kassio Nunes Marques (à direita)
Troca de mensagens entre Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques expõe tensão nos bastidores do STF sobre julgamento da PF
O duelo entre ministros do Supremo Tribunal Federal que ganhou as câmeras não reflete nem de perto a intensidade das discussões travadas por mensagens de WhatsApp nos últimos dias. Gilmar Mendes deixou claro a Kassio Nunes Marques que interpretou o julgamento que decidiu pelo afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal como uma jogada combinada entre Kassio, André Mendonça e Luiz Fux.
O fato de Fux e Kassio terem votado com apenas quatro minutos de diferença reforçou essa suspeita. A sequência dos eventos chama atenção: Gilmar Mendes pediu vista às 10h01, Fux apresentou seu voto às 10h04 e Kassio às 10h06, o que, na avaliação de Gilmar, sugere um acordo prévio entre os dois últimos. A sessão da Segunda Turma formou maioria para manter o afastamento de Andrei Rodrigues, antes de ser interrompida pelo pedido de vista de Gilmar.
Não é comum que ministros votem após um colega pedir vista. A sessão surpresa, segundo o decano, também teria sido acertada reservadamente na sexta-feira.
A suspeita de Gilmar Mendes vai além: ele acusa Mendonça de ter ignorado conversas encontradas no celular de Daniel Vorcaro que atingiriam Kassio e outros ministros e, em contrapartida, ter recebido apoio para suas decisões no caso. As mensagens extraídas do celular de Vorcaro de fato citam Mendonça e relações do ex-banqueiro com familiares de ministros do STF.
Foi nesse clima que o duelo no plenário do STF migrou para o WhatsApp.
A troca de mensagens entre Gilmar e Kassio
As mensagens trocadas entre os dois ministros revelam o nível de tensão entre eles.
Gilmar Mendes abriu o confronto com uma cobrança direta:
"Assumam q estao ferrados e saiam dos processos. Abram as contas", escreveu Gilmar Mendes.
"Me respeite Gilmar. Isso não é postura", reagiu Kassio Nunes Marques.
Gilmar Mendes escalou o tom: "Nao julguem porra. Não respeito a quem nao se daH respeito. Vc tem de sair do tse também."
"Então não me tecle pois não falo com que não me respeita", respondeu Kassio.
Gilmar Mendes insistiu: "Abra as suas contas antes de julgar qualquer coisa desse caso nq turma."
Kassio respondeu que não teria problema: "Abro com o maior prazer. Há 15 anos que presto contas de tudo. Como juiz. Tramoias …."
Gilmar Mendes encerrou estendendo a cobrança aos familiares do ministro: "Verdade! De sua família…"
A menção à família não foi gratuita. Conforme revelado anteriormente, em conversas de WhatsApp com o diretor jurídico do Master, Daniel Vorcaro é informado que teriam sido pagos R$ 500 mil a Kevin Nunes Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques.
O ministro nega que seu filho tenha trabalhado para o Banco Master e que tenha tido acesso ao relato. Mensagens divulgadas nesta terça-feira citam pagamentos de R$ 500 mil ligados a Kevin Marques, enquanto a defesa afirma que ele recebeu R$ 281,6 mil da empresa Consult Inteligência Tributária por serviços jurídicos na área tributária e nega vínculo com Vorcaro ou com o Banco Master.
Após a divulgação da reportagem, Nunes Marques se declarou impedido de participar do julgamento que irá definir se a Corte deve ou não investigar Alexandre de Moraes por suas relações com Vorcaro.
O Metrópoles também revelou relações profissionais e de proximidade do filho de Luiz Fux com Daniel Vorcaro. O banqueiro procurou o advogado Rodrigo Fux pedindo ajuda em um caso: "Quero te chamar pra me ajudar num caso", escreveu Vorcaro.
O filho de Fux se colocou à disposição, marcou videoconferência para o dia seguinte e respondeu: "Será um prazer, se eu puder ajudar". Vorcaro agradeceu: "Valeu irmão". As conversas divulgadas também registram contatos entre Vorcaro e Rodrigo Fux, incluindo pedidos de ajuda profissional e tentativas de reuniões.
Um relatório de inteligência da PF também aponta diferenças na velocidade com que Mendonça analisava medidas solicitadas pela corporação. Segundo o documento, pedidos contra aliados do governo, como Jaques Wagner, teriam sido decididos com maior rapidez do que aqueles envolvendo políticos da oposição, como Claudio Castro, ligado ao grupo político de Jair Bolsonaro.
É esse conjunto de episódios que alimenta a acusação de Gilmar Mendes de que Mendonça teria conduzido o caso de maneira seletiva, poupando ministros que, posteriormente, lhe deram sustentação no julgamento da Segunda Turma.
Mendonça e Fux negaram com veemência as suspeitas.