Prematuros enfrentam falta de incubadoras e recursos médicos em Gaza

Imagem ilustrativa de um bebê - Foto: Pexels
Com hospitais lotados e falta de equipamentos, recém-nascidos prematuros de Gaza compartilham incubadoras em condições críticas
Conectados a monitores, dois recém-nascidos, às vezes três, dormem lado a lado na mesma incubadora no Hospital Naser, em Khan Yunis, no sul de Gaza. A cena ilustra a realidade devastadora enfrentada pelos bebês prematuros na região, onde os hospitais operam no limite e carecem de recursos básicos para atender à demanda crescente.
Nascer em um território marcado pelo conflito significa chegar ao mundo já diante de uma série de obstáculos. Para os bebês prematuros ou doentes de Gaza, que representam cerca de 70% dos recém-nascidos, a situação é crítica.
"A situação é catastrófica" e "continua piorando", resumiu Hatem Dhahir, chefe do departamento de neonatologia do Hospital Naser. "Não temos mais incubadoras disponíveis e muitos bebês precisam de oxigênio", disse ele à AFP.
As restrições impostas por Israel à entrada de mercadorias no território palestino contribuem diretamente para a escassez de suprimentos médicos básicos e equipamentos especializados, segundo médicos palestinos e ONGs. A justificativa apresentada é a de que os equipamentos podem ser utilizados tanto para fins civis quanto militares.
A OMS observou, em maio, que a retenção afeta equipamentos de laboratórios, dispositivos ortopédicos e até concentradores de oxigênio.
Além da falta de equipamentos, os partos prematuros aumentaram nos últimos meses, conforme explica o Dr. Dhahir. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha) calculou que 70% dos recém-nascidos eram prematuros ou apresentavam baixo peso ao nascer.
Em um relatório publicado em junho, a ONU estimou que a escassez de alimentos, a falta de medicamentos e o colapso do sistema de saúde em Gaza têm impactado diretamente as gestações. Segundo o documento, "nesse contexto, as taxas de aborto espontâneo, de natimortos, baixo peso ao nascer e malformações congênitas aumentaram".
O Hospital Naser tenta transferir os bebês que não consegue acomodar para outras unidades, mas estas também estão "sempre lotadas", além de não terem condições de atender os casos mais graves.
No final de agosto, uma menina que nasceu com inversão da aorta e da artéria pulmonar foi devolvida à família devido à falta de espaço. Segundo a tutora da criança, o relatório de alta "indica que ela precisa ser transferida, pois não há absolutamente nenhum tratamento possível" no Hospital Naser.
Diante do cenário, a Unicef forneceu, desde outubro de 2023, quase 100 incubadoras para seis hospitais, com o objetivo de manter os serviços neonatais em Gaza em funcionamento.
O oficial de comunicação do Unicef, Toby Fricker, afirmou que, por enquanto, o atendimento "só está funcionando graças à resiliência dos médicos e dos pacientes", após retornar de uma missão em Gaza.
Há também relatos de superação em meio à crise. O civil Thaer Harzallah contou que seu filho nasceu com uma doença das células vermelhas do sangue e passou um mês na unidade neonatal. Hoje, ele está curado e de volta à família.
Apesar das enormes dificuldades, os bebês sobrevivem principalmente graças à engenhosidade das equipes médicas, que seguem atuando em condições extremas para salvar vidas em Gaza.