Disputa por dados de Vorcaro aumenta pressão sobre Fachin no STF

Foto: STF/Reprodução
Ministros do STF pressionam Fachin para adiar julgamento sobre Moraes e Vorcaro, enquanto disputa por dados de celular acirra crise interna
Ministros de diferentes alas do Supremo Tribunal Federal (STF) intensificaram, durante o fim de semana, a pressão sobre o presidente da Corte, Edson Fachin, para adiar o julgamento que apura indícios de relação suspeita entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master.
Fachin resistiu aos apelos dos colegas e manteve a sessão agendada para a terça-feira, 15. A disputa se traduziu em uma verdadeira "batalha" de ofícios às vésperas da sessão.
Ministros próximos a Moraes fizeram uma forte investida para ter acesso aos dados do celular de Vorcaro. Após recusas de André Mendonça a pedidos de Moraes, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin, Fachin estabeleceu no sábado (12) um prazo de 24 horas para que a Polícia Federal (PF) apresentasse informações sobre o aparelho do banqueiro, apreendido na primeira fase da Operação Compliance Zero.
Dentro do prazo estabelecido, a PF informou no domingo, 13, ao Supremo que tem condições técnicas de produzir e encaminhar aos gabinetes dos ministros uma cópia idêntica dos dados extraídos do celular de Vorcaro.
Mendonça reagiu e se queixou do que chamou de uma tentativa de "tumultuar" o julgamento. Zanin, por sua vez, determinou que a PF entregasse ao seu gabinete, até as 23h, uma cópia da mídia do celular do banqueiro.
As pressões pelo adiamento do julgamento de terça não partiram apenas de aliados de Moraes, mas também de ministros que votariam a favor da abertura de investigação contra o colega. Parte dos integrantes da Corte avalia que o caso pode inflamar ainda mais o ambiente político do país às vésperas da eleição presidencial. A alternativa cogitada seria realizar o julgamento a partir de novembro.
Diante da resistência de Fachin, ministros próximos de Moraes planejam um pedido de vista logo no início da sessão, antes de qualquer voto ser proferido. A expectativa, portanto, é que a sessão seja breve, ainda que tenha potencial para acirrar os ânimos dos magistrados.
Mesmo assim, um pedido de vista pode não ser suficiente para evitar discussões mais ásperas, já que ministros do grupo de Mendonça podem antecipar seus votos, o que pode ensejar contestações da ala oposta.
A disputa pelos dados do celular de Vorcaro
Nos últimos dias, aliados de Moraes pediram acesso à íntegra das investigações sobre o Banco Master, de relatoria de Mendonça. O relator, contudo, liberou apenas parte dos documentos, argumentando que a divulgação integral poderia prejudicar as investigações.
Em resposta, o grupo de Moraes acusou Mendonça de divulgação seletiva do material. Fachin então solicitou a Mendonça a retirada completa do sigilo do inquérito e o envio dos autos aos demais integrantes do tribunal.
Os dados do celular de Vorcaro, apreendido em novembro de 2025, tornaram-se um capítulo específico desse embate. Segundo a PF, o arquivo original permanece integralmente nas dependências da instituição, com a cadeia de custódia formalmente documentada, os lacres íntegros e mecanismos de verificação da integridade digital. A corporação afirmou que o conteúdo "jamais deixou a custódia da instituição".
A PF afirmou ainda que a cópia enviada ao gabinete de Mendonça, em março último, não corresponde ao arquivo original, e que o envio ocorreu "mediante solicitação do próprio gabinete".
Após a manifestação da Polícia Federal, Zanin requisitou uma cópia dos dados diretamente ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e comunicou Fachin sobre a requisição por ofício. O movimento gerou novo capítulo na tentativa de Fachin de organizar a condução da crise interna do Supremo.
Em vez de pedir ao presidente que requisitasse o material à PF, Zanin determinou diretamente a entrega ao seu gabinete e encaminhou a Fachin uma cópia da ordem "para conhecimento e eventuais providências".
"Sem objeto definido"
No ofício, Zanin afirmou que precisa conhecer o material para formar sua convicção antes da sessão extraordinária. Segundo ele, o julgamento ainda "não tem objeto definido" e poderá exigir a análise de elementos extraídos do aparelho de Vorcaro.
Zanin registrou que Mendonça já havia requisitado cópia da mídia e que a própria PF informou ser possível fornecer o mesmo material aos demais gabinetes do Supremo sem prejuízo da preservação da cadeia de custódia. O ministro destacou ainda que a mídia já havia sido compartilhada com os advogados de Vorcaro e com o Congresso Nacional, para instruir a CPI Mista do INSS, por determinação de Mendonça.
Até domingo, contudo, o gabinete de Zanin ainda não havia recebido cópia integral do material disponibilizado ao relator, apesar de "inúmeras provocações por ofício e por outros meios".
Ao justificar a requisição, Zanin afirmou que "não existe hierarquia entre os ministros do Supremo Tribunal Federal" e sustentou que não pode ser imposta aos julgadores restrição de acesso a informações necessárias para o exercício de suas funções.
O ministro acrescentou que "os elementos de prova pertencem ao plenário do Supremo Tribunal Federal e aos seus integrantes e não a um integrante específico" da Corte, e disse precisar conhecer o material que deu origem ao procedimento requisitado por Mendonça, "independentemente de outras implicações" que o conteúdo possa indicar.
Em novo despacho publicado também no domingo, Mendonça argumentou que "a inserção de elementos adicionais, que não constam dos autos até o presente momento, o que inclui a abertura de todas as informações contidas no celular do senhor Daniel Vorcaro, somente contribuiria para tumultuar o julgamento".
Completou afirmando que tal medida "colocaria em risco todo o seguimento e êxito das investigações, dando ensejo à suscitação de questionamentos de toda ordem, para desviar o feito especificamente apregoado para julgamento de seu caminho natural".
No mesmo despacho, Mendonça recomendou que Fachin pedisse informações à PF sobre como foi realizada a entrega do material sigiloso ao seu gabinete, citando na decisão o nome de quatro delegados responsáveis pelo envio dos documentos.
Nos últimos dias, Fachin passou a centralizar na presidência da Corte procedimentos relacionados a ministros do STF, após uma sequência de decisões individuais e conflitantes envolvendo Moraes, Mendonça e Flávio Dino.
A defesa de Vorcaro, por sua vez, pediu a Fachin que filtre o material contido no celular antes de torná-lo público, para evitar "exposição indevida" do banqueiro.