El Niño pode causar pior seca da Grande BH

Foto: Agência Brasil
Nota técnica do Fórum Permanente São Francisco alerta que o Super El Niño pode provocar queda de até 60% na vazão do rio das Velhas
Uma nota técnica produzida pelo Fórum Permanente São Francisco aponta que o Super El Niño em atuação pode desencadear a pior seca da história de Minas Gerais em 2028, com risco direto para o abastecimento de água de grande parte de Belo Horizonte e sua Região Metropolitana. O documento, encaminhado à Copasa, baseia-se em 55 anos de dados climáticos e indica probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento de grande magnitude nos próximos anos. O fenômeno já atua sobre o Brasil, provocando ondas de calor intenso e chuvas extremas mal distribuídas. Os estudos indicam que, após o El Niño em atuação em 2026, o estado pode enfrentar uma seca severa com impacto direto na vazão do rio das Velhas, comprometendo o fornecimento de água para milhões de pessoas.
O trecho do rio das Velhas mais vulnerável fica entre os distritos de Bela Fama e Honório Bicalho, em Nova Lima, onde está localizada a Estação de Tratamento (ETA) de Bela Fama. Segundo a própria Copasa, essa estação é responsável pelo fornecimento de água para cerca de 70% da capital e 43% da Região Metropolitana. Nos últimos 50 anos, foram registrados quatro El Niños muito fortes, sendo o último em 2024, e em todos os episódios a vazão média do rio das Velhas sofreu quedas bruscas nos anos seguintes.
O pesquisador responsável pelo estudo, Euler Cruz, explica que a queda da vazão não é apenas uma resposta ao fenômeno natural, mas também resultado de interferências humanas no ambiente. Desde 1971, quando o volume de água do rio em Honório Bicalho passou a ser monitorado, a vazão média diminuiu 13% em 55 anos. Para o pesquisador, a mineração na região é o principal fator agravante. "As empresas rebaixam o lençol freático para aprofundar cavas e retiram água das nascentes. Na época seca, o rio perdeu em média mais de 30% de vazão. Ou seja, as secas estão cada vez mais secas devido às mineradoras e demais empreendimentos", argumenta o especialista. A nota técnica indica que, caso o El Niño seja muito forte, com a temperatura do oceano chegando a 3ºC acima da média, a queda da vazão média pode atingir 47%, reduzindo o fluxo a cerca de 15 m³/s — índice equivalente aos dois piores anos da série histórica, com vazões de 14,9 m³/s em 2017 e 15,1 m³/s em 2014.
Se o fenômeno for ainda mais intenso, com temperaturas 3,7ºC acima da média, a queda na vazão pode se aproximar de 60%, colocando a Região Metropolitana de Belo Horizonte diante de uma crise hídrica extrema. "O impacto principal vem depois que o El Niño passa: a estação seca do ano seguinte já começa mais severa, e aproximadamente um ano e meio a dois anos após o fenômeno, a seca é extremamente grave. Em seis dos sete eventos históricos, o padrão se repetiu. É muito provável que 2027 seja um ano seco e 2028 seja ainda pior", alerta Cruz.
A preocupação é compartilhada pelo Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) do Rio das Velhas. O presidente do colegiado, Valter Vilela, afirma que o CBH passou a discutir os dados da nota técnica com a Copasa e o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) assim que tomou conhecimento dos resultados. O foco principal está no alto rio das Velhas, que abrange o Quadrilátero Ferrífero, de Ouro Preto à região Norte de Belo Horizonte. Segundo Vilela, a mineração reduz a infiltração da água da chuva e, consequentemente, a recarga dos lençóis subterrâneos. "Desde a nascente, o rio tem grandes minerações no entorno. Com isso, diminuiu a infiltração de água da chuva. Os lençóis subterrâneos estão diminuindo", afirmou. Ele também cita a expansão imobiliária, especialmente a construção de condomínios, e a perfuração de poços sem critérios adequados como fatores de agravamento. "Isso também causa o rebaixamento do lençol freático. Precisamos conhecer e disciplinar melhor a perfuração de poços", disse. Para Vilela, integrar o planejamento da disponibilidade hídrica ao avanço urbano é fundamental. "O que está em jogo hoje é evitarmos decisões fragmentadas e construir soluções que garantam a preservação ambiental e o abastecimento", destacou.
Com mais de quatro décadas de experiência no campo, a família Nunes viu a seca transformar a rotina da propriedade em Caeté, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Desde uma estiagem em 2014, passaram a investir em formas de armazenar água e reduzir o consumo na produção. "O que acontecia a cada sete anos foi só encurtando", diz o agricultor Marcelo Fernandes Nunes, de 40 anos, em referência aos períodos sem chuva. O pai, Milton Nunes, cultiva na propriedade desde 2002. A horta da família capta água de um afluente do ribeirão Ribeiro Bonito, na microbacia do rio das Velhas, e serve de exemplo de como medidas adotadas no campo podem ajudar a enfrentar períodos de estiagem. Uma das principais mudanças foi a adoção do plantio direto, que reduziu em cerca de 50% a necessidade de irrigação. A família também construiu um reservatório para armazenar água da chuva e abastecer a lavoura por gravidade, além de barragens de contenção para reter sedimentos e aumentar a infiltração no solo. Para Marcelo, as medidas ajudam a atravessar os períodos de estiagem, mas precisam ser ampliadas. "Se todos fizessem um pouco, não sanaria o problema, mas amenizaria bem o período sem chuvas. A gente suportaria mais. Tem que ser um conjunto", afirma.
O pesquisador Euler Cruz reforça que não é preciso esperar a próxima seca para agir. Além do alerta da nota técnica, o Fórum Permanente São Francisco encaminhou à Copasa recomendações para reduzir os impactos de uma possível queda acentuada na vazão do rio das Velhas. Entre as medidas propostas estão a inclusão formal do cenário de redução da vazão nos planos de contingência da Região Metropolitana; a revisão urgente das outorgas e dos rebaixamentos de aquíferos na bacia; e a investigação e o controle de captações irregulares de água subterrânea. Cruz, professor associado do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da UFMG, ressalta que o planejamento precisa considerar as incertezas das previsões climáticas, já que mesmo sem grande alteração no volume total de chuva, a distribuição das precipitações pode dificultar a recuperação dos níveis dos rios e reservatórios. "É importante que o poder público faça campanhas de conscientização e outras ações para mitigar esses efeitos", afirma.
A previsão é que o El Niño seja mais forte durante o verão deste e do próximo ano. O pesquisador Wellington Lopes Assis, professor associado do Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da UFMG, explica que o fenômeno tende a proporcionar mais ondas de calor e atrasar o período chuvoso. "Se levar em consideração somente a atuação do El Niño muito forte as temperaturas ficarão muito acima da média e haverá uma irregularidade na distribuição de chuva, que tende a ser mais concentrada", detalha. Uma nota técnica publicada pelo Centro de Inteligência em Defesa Civil (Cindec) em agosto deste ano indicou que, em Minas Gerais, o principal sinal previsto é de temperaturas acima da média em praticamente todo o estado. A perspectiva é de que o El Niño permaneça atuando durante a primavera e o verão, com enfraquecimento gradual apenas no início de 2027.
Mesmo após o pico de intensidade, os modelos indicam a permanência de águas mais quentes que a média no Pacífico Equatorial por vários meses. Apesar disso, Assis pondera que outros fenômenos atmosféricos podem interferir na intensidade do El Niño, como a oscilação antártica, que quando está com índice negativo favorece a formação de ciclones e frentes frias no hemisfério sul. "Nós já esperávamos um período de estiagem bem significativo, por conta do El Niño forte que já está atuando desde o início de junho, mas isso não está ocorrendo e em agosto choveu. Os modelos continuam apontando chuva para setembro, que normalmente seria o ápice do período seco. Então, nem todo El Niño vai ser igual", pondera.
Questionada sobre o recebimento da nota técnica do Fórum Permanente São Francisco, a Copasa afirmou estar avaliando o documento. A empresa ressaltou que já possui consultoria especializada em meteorologia e climatologia para acompanhamento contínuo das condições que possam impactar seus mananciais e sistemas de abastecimento, além de monitorar permanentemente os efeitos de fenômenos como o El Niño. "A Copasa destaca que o planejamento e a execução de seus investimentos consideram critérios de segurança hídrica, resiliência e robustez operacional dos sistemas de abastecimento, incluindo a preparação para eventos climáticos extremos, de forma a garantir a continuidade e a confiabilidade do abastecimento à população atendida", afirmou. Entre os investimentos citados estão a ampliação e modernização do Sistema Rio Manso e a implementação de novas adutoras. "O Sistema Rio das Velhas, que atende metade da região metropolitana e cerca de 70% do município de Belo Horizonte, também está passando por intervenções, com a implantação do sistema de Ultrafiltração na ETA Bela Fama, que atua como uma barreira adicional de segurança no processo de tratamento, garantindo a qualidade da água fornecida", afirmou a companhia.