"Dark Horse" tem divergências entre perícias da PF e particular

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Operação Make Up aponta divergências sobre origem dos recursos e gastos no Brasil em relação à perícia privada contratada pela produtora do filme
A operação da Polícia Federal que investiga o desvio de emendas parlamentares para financiar o filme "Dark Horse" revelou pontos que conflitam diretamente com a perícia particular contratada pela produtora da obra. As divergências envolvem o volume de recursos oriundos do exterior, o valor gasto com o filme em território brasileiro e a possível origem pública de parte do dinheiro transferido à Go Up Entertainment, produtora responsável pelo projeto no Brasil. Foi a Go Up que contratou a perícia privada após o site Intercept Brasil revelar que o banqueiro Daniel Vorcaro era o principal financiador da cinebiografia de Jair Bolsonaro.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participou da negociação do financiamento. Os dados obtidos pela PF foram tornados públicos na última quinta-feira, no âmbito da Operação Make Up.
Segundo a perícia divulgada no final de agosto, o custo de produção do "Dark Horse" no Brasil foi de R$ 20 milhões, sendo a maior parte desse valor custeada por recursos transferidos do exterior. O período analisado pela perícia abrangeu de junho de 2025 a junho de 2026. Já a PF analisou dados do Coaf, órgão que monitora movimentações financeiras atípicas, referentes aos últimos 50 dias de 2025 — período que, segundo a corporação, coincide com as gravações do "Dark Horse" no Brasil. De acordo com os dados do Coaf, os gastos da Go Up no período foram de R$ 10 milhões, enquanto os valores recebidos somaram R$ 9 milhões, sendo a maior parte com origem no Brasil, e não no exterior.
O radar do Coaf não identificou movimentações atípicas fora do período das filmagens. O comunicado do Coaf detalha que a Go Up recebeu R$ 9 milhões entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025. Desse total, R$ 3,9 milhões — equivalente a 44% — foram repassados por uma casa de câmbio, sem informação sobre a origem exata do valor. Os R$ 5,1 milhões restantes foram transferidos por quatro remetentes sediados no Brasil. A perícia contratada pela Go Up afirma que "para cobrir esses custos [de produção no Brasil], verificou-se que a empresa norte-americana Go Up Entertainment LLC realizou a maior parte dos repasses para a empresa brasileira", sem detalhar o montante exato recebido do exterior. Segundo o mesmo laudo, o custo total do "Dark Horse" foi de US$ 13,4 milhões (R$ 75,2 milhões) ao longo de um ano, sendo US$ 9,6 milhões (R$ 54,2 milhões) gastos nos Estados Unidos e US$ 3,7 milhões (R$ 20,9 milhões) referentes à produção no Brasil.
A perícia nega categoricamente o uso de recursos públicos no filme. O laudo afirma que "a perícia não identificou entradas de caixa oriundas de recursos públicos, repasses governamentais ou financiamentos. Ademais, tampouco foram localizados valores recebidos a título de patrocínio, sejam eles públicos ou privados, como, por exemplo, recursos advindos de incentivos fiscais, a exemplo da Lei Rouanet." O documento conclui, com base nos documentos apresentados, que os recursos destinados ao filme tinham origem privada. A PF, por sua vez, aponta uma possível trilha financeira que liga diretamente o núcleo empresarial dos fornecedores do ICB (Instituto Conhecer Brasil), presidido pela produtora do filme Karina Gama, a dinheiro de emendas do deputado Mario Frias.
O ICB está no centro da investigação sobre suspeitas de desvio de recursos de emendas parlamentares. O instituto recebeu recursos indicados por Frias para executar projetos culturais e contratou empresas que, segundo a investigação, integram uma rede de pessoas e firmas com vínculos entre si. A empresa NTT Brasil é peça-chave para entender esse caminho. Administrada por Heric Fabiano Dias, a firma transferiu R$ 750 mil para a Go Up Entertainment, segundo o Coaf. Heric tem elos familiares e societários com duas empresas que, juntas, receberam R$ 700 mil do ICB e são as principais fornecedoras de um projeto de R$ 1 milhão bancado por emenda de Frias. A PF ressalva, porém, que "não foi constatada plena compatibilidade temporal entre os repasses do ICB para as duas fornecedoras e o posterior pagamento da NTT Brasil à Go Up".
Ainda assim, a corporação considera essas transações um indício de uma possível restituição de valores recebidos com recursos de emendas para o núcleo da organização. Em relação à transferência de R$ 645 mil do deputado Mario Frias para a Go Up, a PF registra que os rendimentos mensais do parlamentar eram de R$ 44 mil, o que "coloca em questão o lastro financeiro" dos repasses à produtora. Candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro chamou a operação da Polícia Federal de "fajuta" e voltou a afirmar que "foi tudo redondinho" no filme, classificando o caso como "investimento privado num filme privado". Vorcaro, a quem o senador admitiu ter pedido dinheiro para financiar a cinebiografia, está preso sob acusação de desviar recursos bilionários de institutos de previdência de servidores e fundos estaduais, entre outros crimes. O UOL procurou o escritório responsável pela perícia e a Go Up Entertainment, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.