Cruzeiro, Atlético e América assinam manifesto contra restrição às bets

Foto: Bruno Peres/Agência Brasil
Cruzeiro, Atlético, América e outros clubes brasileiros publicam nota conjunta alertando para o "fim do futebol" caso bets sejam proibidas no Brasil
Atlético, América, Cruzeiro, São Paulo, Flamengo, Santos e outros clubes do futebol brasileiro emitiram uma nota conjunta nesta quinta-feira (18/9) em defesa das casas de apostas que operam no país. A manifestação veio em resposta à movimentação do governo federal para editar uma Medida Provisória que proibiria as bets no Brasil. "O futebol acompanha com atenção as discussões sobre o mercado de apostas no Brasil e reconhece os desafios que sua expansão traz. Os impactos sociais, especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis, exigem atenção permanente do Poder Público, das empresas e de todos os setores envolvidos", diz um trecho da nota. Segundo apuração da reportagem, a mobilização teve origem em São Paulo, por iniciativa da Federação Paulista de Futebol e de clubes do estado.
A articulação se expandiu e passou a incluir as federações do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, além de equipes desses estados — entre elas o Cruzeiro. As conversas foram ampliadas gradualmente, com a adesão de diferentes representantes do futebol brasileiro. O objetivo foi construir um posicionamento conjunto diante da possibilidade de mudança na legislação sobre apostas esportivas. Representantes de casas de apostas também participaram de uma reunião na quarta-feira (17), no Rio de Janeiro, apresentando sua perspectiva sobre o eventual impacto de uma proibição.
Os clubes, incluindo o Cruzeiro, reforçam que todas as suas principais fontes de receita são direta ou indiretamente afetadas pelo dinheiro proveniente das apostas. A única exceção seria a verba gerada com transferências de jogadores. O impacto mais imediato de uma eventual proibição recairia sobre os patrocínios. Nesta quinta-feira, 13 clubes da Série A possuem contratos de patrocínio máster com casas de apostas, com estimativa de impacto aproximado de R$ 1 bilhão nessa linha de receita. "O futebol se coloca à disposição do governo federal, do Congresso Nacional, das autoridades estaduais e municipais para colaborar em mecanismos mais eficientes de educação e conscientização. O futebol reconhece suas responsabilidades e quer participar da solução, de uma forma racional e consciente.
O torcedor não pode pagar essa conta. Se acabar com o mercado regulado, as apostas não acabam. O futebol é quem acaba", afirmam os clubes em outro trecho da nota. Há ainda outros pontos levantados pelos representantes do futebol. As receitas das empresas que adquirem direitos de transmissão são impulsionadas pela publicidade das casas de apostas, e um corte total poderia reduzir o poder de compra das emissoras, afetando também as verbas de premiação nas competições. Além disso, os clubes apontam a publicidade estática e as placas nos estádios como outra fonte de arrecadação diretamente ligada ao setor.
Os representantes do futebol, incluindo o Cruzeiro, reconhecem os problemas sociais associados às apostas, em especial entre pessoas em situação de vulnerabilidade. No entanto, a posição defendida é que esses impactos sejam enfrentados por meio de fiscalização, prevenção e políticas de proteção, sem a interrupção do mercado regulado. Também está presente o entendimento de que uma eventual proibição poderia redirecionar apostadores para plataformas irregulares, que não recolhem impostos e não estão sujeitas aos mecanismos de controle previstos na legislação brasileira.
Os clubes ressaltam ainda que os recursos do setor não se limitam às equipes de maior receita. Os investimentos alcançam também divisões de acesso, clubes do interior, categorias de base e regiões com menor capacidade de arrecadação própria. No aspecto jurídico, os contratos firmados entre clubes como o Cruzeiro e as casas de apostas preveem gatilhos de rescisão em caso de mudança legislativa que inviabilize a atividade. Contudo, esse é um dispositivo que nenhuma das partes tem interesse em acionar.