Novo rompimento em adutora deixa Oeste de BH sem água desde 21/08

cabeça de chuveiro (ducha) de metal com água em banho
Novo rompimento de adutora no bairro Milionários agrava crise hídrica na região Oeste de Belo Horizonte, que dura desde 21 de agosto
Moradores de bairros da região Oeste de Belo Horizonte seguem sem abastecimento regular de água nesta terça-feira (8/9), após um novo rompimento de adutora no bairro Milionários, na região do Barreiro, voltar a prejudicar a distribuição na área. O problema se arrasta por semanas, desde 21 de agosto, quando um primeiro rompimento no bairro Nova Granada deu início a um fornecimento intermitente que afeta dezenas de bairros da capital mineira. A sequência de falhas levanta questionamentos sobre as condições da rede operada pela Copasa e sobre as causas dos rompimentos. Para o engenheiro civil e sanitarista Alex Aguiar, ainda não é possível afirmar que os episódios estejam relacionados, mas a persistência dos casos deve ser investigada.
No bairro Havaí, o biólogo e pesquisador Gustavo Caldeira Cotta, de 26 anos, afirma que nunca havia enfrentado uma falta de água tão prolongada. Desde 21 de agosto, o abastecimento ocorre de forma irregular e, na última semana, chegou a ser totalmente interrompido. "Tem sido insustentável realizar qualquer atividade básica. Tomar banho, cozinhar, lavar roupa e lavar louça são atividades impensáveis de se realizar", relata.
Gustavo conta que ele e a família passaram a recorrer à casa de parentes e amigos. Como trabalha em uma faculdade que possui vestiário, ele também tem utilizado o local para se banhar. Para beber e preparar alimentos, a família compra água e recorre ao delivery. "Eu tenho tomado banho na faculdade, que felizmente tem vestiário, para pelo menos conseguir passar por esse período com o mínimo de dignidade. A gente tem comprado água principalmente para beber e, às vezes, fazer um pouco de comida", afirma.
Vizinho de Gustavo, o psicólogo e síndico Rafael Pinto Rodrigues de Paula, de 43 anos, afirma que chegou a perceber o retorno do abastecimento no fim da semana passada, mas a água não voltou com pressão suficiente para abastecer o imóvel. "Na sexta já começou a entrar alguma coisa de água, no sábado também, mas não o suficiente para ter água com pressão em casa. No domingo, a água acabou de novo. Ontem não tivemos água e hoje continuo sem água", relata. Rafael explica que a localização do imóvel, em uma área mais alta do bairro, dificulta ainda mais o abastecimento. "Eu estou no alto, então sou um dos últimos a receber água. Ela chega, mas rapidamente se esgota", afirma. No mesmo bairro, o aposentado Antonino Dias, de 73 anos, também relatou estar sem água. Segundo ele, o imóvel chegou a ser abastecido por um caminhão-pipa, mas o fornecimento não se manteve. "Na sexta estava sendo abastecido pelo caminhão-pipa. Eu viajei e voltei domingo às 11h e vi que tinha caído água na caixa. Na segunda de manhã não tinha água e está até hoje sem água", conta.
Além da falta de água em si, os moradores reclamam da dificuldade de obter informações precisas sobre quando o abastecimento será normalizado. Segundo Gustavo, a Copasa não tem cumprido os prazos anunciados. "Todas as previsões dadas pela Copasa não são cumpridas. Quando a gente liga para a companhia, a própria Copasa demonstra espanto quando relatamos essa falta de água desde o dia 21 de agosto. Parece que há uma falta de coordenação entre os canais de atendimento e o pessoal que faz a manutenção", disse.
Para o engenheiro civil e sanitarista Alex Aguiar, ainda não é possível afirmar que os episódios registrados nas últimas semanas tenham relação entre si, já que seria necessário conhecer as circunstâncias de cada ocorrência. "É muito difícil responder isso com certeza porque a gente não tem conhecimento desses fatos. Só quem tem é a Copasa. A empresa manifestou com muita clareza que, em um dos episódios, no Barreiro, houve um rompimento ocasionado por uma súbita falta de energia em um sistema que era operado por um conjunto elevatório", explica. Segundo o especialista, embora os sistemas de abastecimento possuam mecanismos de proteção para situações de queda repentina de energia, é preciso entender por que esses dispositivos não evitaram o problema. "Embora todos os sistemas da Copasa tenham suas proteções para que não ocorram danos quando a energia subitamente falta, uma coisa que a empresa precisa explicar para as pessoas é por que não houve atuação dos sistemas de proteção onde ocorreu essa ruptura", afirma.
A idade das tubulações, por outro lado, não significa necessariamente que um rompimento esteja prestes a ocorrer, segundo Alex. O desgaste pode comprometer o funcionamento da rede e indicar a necessidade de substituição, mas não é, isoladamente, uma explicação provável para um rompimento. "As tubulações podem alcançar sua vida útil, por exemplo, quando há uma deterioração do regime de fluxo das vazões. Começa a ocorrer muita incrustração, o que atrapalha a tubulação, e ela deixa de operar como você espera. Aí fica necessária a troca", disse. "Agora, para que uma situação de desgaste leve à ocorrência de uma ruptura ou mesmo de um vazamento, é muito pouco provável. O mais provável, em decorrência do envelhecimento e do desgaste da tubulação, é que haja impacto na sua operação normal, mas não que isso ocasione um vazamento", completa.
Segundo o engenheiro, aumentos súbitos de pressão e o desgaste físico das juntas podem estar associados a vazamentos. Quando permanecem ocultos, esses vazamentos podem comprometer o terreno que sustenta a tubulação. "Vazamento, em geral, está associado ao aumento de pressão, à elevação súbita de pressão ou a algum desgaste físico, principalmente nas juntas das tubulações. Esses vazamentos, por vezes, ficam ocultos, mas vão descalçando o terreno sobre o qual a tubulação se apoia, até que chega um ponto em que ela perde o apoio e cai pelo próprio peso. Essas são as causas mais prováveis", explica.
A sequência de problemas começou com o rompimento de uma adutora na rua Xapuri, no bairro Nova Granada, na região Oeste, em 19 de agosto. O abastecimento passou a ocorrer de forma intermitente a partir do dia 21. A situação se agravou em 31 de agosto, quando tiveram início obras emergenciais para o remanejamento da adutora. No sábado (5/9), a Copasa informou a conclusão da interligação de uma nova adutora de grande porte e iniciou o processo de reenchimento, pressurização e liberação gradual da água para os bairros afetados. No entanto, na madrugada de segunda-feira (7/9), por volta das 3h, uma nova adutora se rompeu no bairro Milionários, na região do Barreiro. O rompimento abriu uma cratera na rua Caetano Pirri, espalhou água pela via, invadiu imóveis e deixou lama pelas ruas da região. Ao todo, moradores de 64 bairros, além do próprio Milionários, foram afetados pela interrupção do abastecimento durante o feriado da Independência.
Para Alex, além da substituição de tubulações envelhecidas, a manutenção preventiva e o controle das variações de pressão são fundamentais para reduzir o risco de novos colapsos. "Um fator que pode contribuir para o colapso de uma tubulação é ela se sujeitar a uma grande variação de pressão. Em locais onde você tem desabastecimento, pode chegar a ocorrer o esvaziamento da tubulação. Quando isso ocorre muito frequentemente, pode acontecer de microfissuras da tubulação se expandirem e, aí sim, levar a tubulação ao colapso", afirma.