Carney celebra nova aliança do Canadá com a UE

O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — Foto: Ludovic Marin/AFP
Ignorando ameaças de Trump, Carney discursou no Parlamento Europeu e defendeu vínculos mais estreitos entre Canadá e União Europeia
O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, ignorou as ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e celebrou nesta quinta-feira (17) a ideia de uma "nova aliança" entre seu país e a União Europeia (UE). A iniciativa, apresentada como uma garantia de "autonomia estratégica", foi anunciada um dia antes pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que propôs ao Canadá tornar-se o primeiro "membro associado" do bloco. A proposta irritou Trump, que classificou o gesto como um "ato hostil" e ameaçou impor "tarifas muito sérias" ou cortar as relações comerciais com a UE. Bruxelas, por sua vez, insistiu que o acordo não é uma medida direcionada contra Washington. "Os canadenses estão unidos na convicção de que ninguém vai nos dizer que idioma devemos falar, ninguém vai ditar a nossa cultura nem com quem podemos assinar acordos internacionais", declarou Carney à imprensa no Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
A iniciativa foi apresentada no contexto de um distanciamento crescente em relação a Washington, aliado tradicional tanto de Bruxelas quanto de Ottawa. A proposta de Von der Leyen coincidiu com a visita de Carney à sede do Parlamento Europeu, onde ele discursou nesta quinta-feira diante dos eurodeputados. "Nós compartilhamos valores comuns pelos quais sempre lutamos e cuja defesa exige que permaneçamos sempre vigilantes", disse Carney durante o discurso. "A Europa e o Canadá são mais fortes juntos", acrescentou, destacando que as duas partes querem ser "um farol para as democracias, não dominar os outros".
Embora o status de membro associado não esteja definido juridicamente nos tratados da UE, Von der Leyen propôs uma cooperação mais estreita em áreas como tecnologia, defesa e energia. Ela também ofereceu ao Canadá a possibilidade de integrar um futuro "Conselho Europeu de Segurança", que pretende criar em conjunto com o Reino Unido e a Noruega. "Gostaria de trabalhar com você para abrir as portas para que o Canadá seja o primeiro membro associado da UE", disse Ursula a Carney na quarta-feira, uma mensagem recebida com aplausos no Parlamento Europeu. "O Canadá recebe favoravelmente esta ambição. E posso dizer a vocês que as pesquisas mostram que a esmagadora maioria dos canadenses apoia vínculos muito mais estreitos com a Europa", respondeu Carney nesta quinta-feira, também ovacionado pelos eurodeputados.
Trump não poupou críticas à proposta. "Acho ridículo", disparou o presidente americano ao ser questionado sobre o assunto. "Se eles fizerem isso, se eu considerar que se trata de um ato hostil, vou impor tarifas muito sérias ou interromper o comércio com a Europa", advertiu. E acrescentou: "Se o fizerem de boa-fé, tudo bem. Se o fizerem com má intenção, vamos impor tarifas muito fortes à Europa, o que é uma possibilidade". Do lado europeu, o porta-voz de Comércio da Comissão Europeia, Olof Gill, reforçou que "a proposta para reforçar nossa parceria com o Canadá não é direcionada contra ninguém".
Já o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Noël Barrot, afirmou que o país é favorável a "criar vínculos cada vez mais estreitos com o Canadá", mas ressaltou que o projeto precisa ser "debatido, examinado e analisado". De acordo com as normas da UE, os 27 Estados-membros precisam aprovar qualquer tipo de acordo de cooperação com um país terceiro, e o apoio à proposta ainda não está claro. Vale lembrar que a Alemanha já havia oferecido o status de membro associado à Ucrânia, que aspira à plena adesão ao bloco, sugerindo que o país poderia participar de reuniões e cúpulas europeias, embora sem direito a voto.
Bruxelas e Ottawa já mantêm um nível considerável de cooperação, ambas afetadas pelas tarifas e ameaças territoriais dos Estados Unidos, além da concorrência da China. Graças ao acordo de livre comércio CETA, que eliminou quase todas as tarifas, o comércio de produtos e serviços entre as duas economias aumentou mais de 80% desde 2016. Além disso, neste ano o Canadá se tornou o primeiro país não pertencente à UE a aderir a um emblemático programa de empréstimos para a defesa.