Diagnóstico falso de aborto leva a procedimento de curetagem com feto vivo em SP

Consultas e Exames Ginecológicos | Imagem ilustrativa - Foto: Reprodução
Mulher foi diagnosticada erroneamente com aborto no Hospital Estadual de Sumaré, gerido pela Unicamp, e passou por curetagem com o feto ainda vivo
Uma mulher descobriu que ainda estava grávida após receber um diagnóstico equivocado de aborto espontâneo e ser submetida a uma curetagem — procedimento de raspagem uterina realizado, neste caso, com o feto ainda vivo. O caso ocorreu no Hospital Estadual de Sumaré, na Região Metropolitana de Campinas, interior de São Paulo, unidade gerida pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e considerada uma das melhores do Sistema Único de Saúde (SUS) no país. O erro teria sido provocado pelo descumprimento de protocolos pela médica de plantão, que, segundo a paciente, diagnosticou o aborto apenas com base no exame de toque, sem recorrer a outros procedimentos habitualmente utilizados para confirmar a interrupção da gravidez. Em nota, a instituição informou que abriu uma sindicância para apurar o caso e que prestou apoio e acolhimento à paciente.
Gravidez se tornou de alto risco
A gestante relatou o ocorrido à imprensa sob condição de anonimato. Em decorrência da falha médica, sua gravidez passou a ser classificada como de alto risco, exigindo acompanhamento contínuo até o parto. Ela está sob os cuidados do Caism, o Hospital da Mulher da Unicamp. A mulher conta que procurou o Hospital Estadual de Sumaré no dia 12 de julho, quando estava com 12 semanas de gestação, após apresentar sangramento. Depois de passar pela triagem, foi atendida pela médica de plantão, que realizou um exame de toque e confirmou o aborto, alegando uma abertura incomum do útero. Na sequência, a médica determinou a realização imediata da curetagem. Nenhum ultrassom foi solicitado, pois o equipamento estaria fora de funcionamento por ser domingo. Ao término do procedimento, a paciente recebeu alta e um atestado médico de 14 dias. Durante esse período, ela viveu um luto pela perda que acreditava ter sofrido.
Sintomas da gravidez não desapareciam
Após o fim da licença médica, a mulher retornou ao trabalho, mas percebeu que a barriga não diminuía. Além disso, continuava sentindo enjoos, dores na lombar e aumento dos seios. Até então, ela interpretava esses sinais como um resquício psicológico da gravidez que julgava ter perdido. Diante da persistência dos sintomas, procurou um médico de confiança cerca de um mês depois para solicitar um anticoncepcional. O profissional exigiu a realização de um teste de gravidez antes de prescrevê-lo, e o resultado foi positivo. Um exame de sangue subsequente confirmou o mesmo resultado. A mulher então buscou o respaldo de uma amiga da área da saúde. Uma das hipóteses levantadas pela amiga, em conjunto com uma obstetra, era a de gestação molar — uma espécie de tumor benigno em desenvolvimento no útero. A recomendação foi de retorno urgente ao hospital.
Retorno ao hospital e descoberta do feto vivo
No dia 14 de agosto, a paciente voltou ao Hospital Estadual de Sumaré com o resultado positivo em mãos. A médica que a atendeu levantou duas possibilidades: gestação molar ou uma nova gravidez. A mulher foi submetida a um ultrassom e, durante o exame, ouviu, ao lado da médica, os batimentos cardíacos de um feto. A obstetra perguntou com quantas semanas gestacionais o suposto aborto havia ocorrido. Ao responder que tinha 12 semanas na época, a paciente ouviu que se tratava do mesmo feto — que agora estava com 16 semanas.
Bebê pode não resistir
A mulher ficou incrédula diante da revelação. O prognóstico, no entanto, era negativo. Em razão da curetagem realizada com o feto vivo, não havia líquido amniótico na bolsa gestacional — fluído essencial para o desenvolvimento dos pulmões e dos ossos do bebê. Por isso, há risco de a criança nascer com hipoplasia pulmonar e não sobreviver. Segundo relato da paciente, um médico afirmou que a bolsa provavelmente teria sido perfurada durante o procedimento. Duas opções foram apresentadas à paciente: seguir com a gravidez ou interrompê-la. Ela precisava decidir em curto prazo e, em 17 de agosto, optou por continuar com a gestação. Além do risco à criança, a própria paciente também corre perigo e está sujeita a desenvolver uma sepse. Em nota, o Hospital Estadual de Sumaré afirmou que lamenta o ocorrido e que abriu uma sindicância para apurar a conduta relacionada ao atendimento da paciente. A instituição informou que, caso sejam constatadas irregularidades, as medidas cabíveis serão adotadas, e reafirmou seu compromisso com a oferta de assistência qualificada.