Guerra na Ucrânia atinge nova escalada com ataques a civis e ofensiva russa

Ao menos dez pessoas morreram no norte da Ucrânia após ataque russo, enquanto Kiev disparou 637 drones contra a região de Moscou
Dando continuidade à fase mais violenta contra civis na guerra, Moscou e Kiev trocaram ataques nesta terça-feira (18/8). Ao menos dez pessoas foram mortas no norte da Ucrânia, enquanto a capital russa foi alvo de um dos maiores ataques com drones de todo o conflito, com 637 aeronaves não tripuladas disparadas contra a região de Moscou.
O ataque mais mortífero ocorreu em Petchenihi, cidade na região setentrional de Kharkiv. Segundo o presidente Volodimir Zelenski, foi atingido "um local com um posto de correio e lojas, cercado apenas por prédios residenciais". O governo local registrou ao menos 17 feridos. "Nós definitivamente precisamos responder a esse ataque russo", escreveu Zelenski no X.
Na véspera, outras dez pessoas haviam sido mortas dos dois lados da fronteira, número que chegou a 19 no domingo (16). Essa onda de ataques contra civis é a mais intensa desde março de 2022, o primeiro mês da invasão das forças de Vladimir Putin. Em julho, morreram em média 21,8 civis por dia, segundo dados do Acled (Projeto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos).
Nas frentes de batalha, a Rússia voltou a avançar nesta terça, segundo seu Ministério da Defesa. O órgão anunciou a captura de mais dois vilarejos em Donetsk, no leste ucraniano: Krasnopodillia e Orikhuvatka. O primeiro fica próximo de Dobropillia, cidade que já foi alvo de ataques intensos pelos russos e representa uma linha de suprimento vital para Kramatorsk, capital provisória da província ainda em mãos de Kiev. O segundo, mais ao norte, fica a cerca de 15 km de Sloviansk, que junto com Kramatorsk representa o que restou do chamado "cinturão das fortalezas" de defesa ucranianas na região, onde a Rússia já controla 85% do território. Isso não significa que essas cidades estão prestes a cair, mas indica uma pressão renovada sobre as linhas ucranianas.
Na direção oposta, a Ucrânia lançou um dos maiores ataques da guerra contra Moscou. Dos 637 drones disparados, 180 foram interceptados voando diretamente a alvos na cidade, segundo o governo local. Até o momento, não houve relatos de feridos ou de grandes danos. Entre os alvos atingidos, novamente figurou um depósito da Wildberries, empresa que controla 45% do varejo online da Rússia.
A campanha ucraniana contra a logística e a produção de combustível refinado dos russos tem sido uma das marcas da guerra neste ano. A disrupção na distribuição de bens, usada pela classe média do país, e as filas em postos de gasolina têm arranhado a aprovação de Putin e o apoio ao conflito.
As ações têm sido atribuídas ao sucesso de Zelenski em fomentar a indústria doméstica de drones de longo alcance, além do início da produção dos mísseis de cruzeiro Flamingo, capazes de atingir alvos a até 3.000 km. Analistas apontam também para a chegada dos primeiros lotes de uma encomenda de 150 mil drones britânicos, em especial o modelo suicida movido a jato Nyan, da BAe Systems — um avião-robô de carga bélica reduzida e curto alcance, 20 kg e 250 km respectivamente, mas de difícil interceptação. Além dele, a Ucrânia também adquiriu o drone de reconhecimento Ultra, da empresa Windracers.
Nesta terça, o governo Putin fez uma advertência a Londres, afirmando que haveria resposta pela "consequência" que o emprego de tais drones contra solo russo estava causando. A declaração foi uma reação a uma reportagem do jornal Sunday Times, publicada no domingo, que relatava o primeiro uso do Nyan contra a Rússia. O governo britânico não confirmou nem negou o conteúdo do texto, e o Ministério da Defesa em Londres afirmou que seguiria fornecendo os equipamentos aos ucranianos.
Ao longo da guerra, esse tipo de ajuda sempre gerou controvérsia. No governo Joe Biden, os EUA proibiam o uso de armas ocidentais contra alvos dentro da Rússia, temendo uma escalada. Depois, a regra foi flexibilizada, mas o país voltou atrás. Já Donald Trump vetou o fornecimento de mísseis de cruzeiro Tomahawk a Kiev.