Mais de 60% dos usuários avaliam transporte público no Brasil de forma negativa

Ônibus do transporte público - Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
Pesquisa com 10 mil usuários em 246 cidades aponta lotação e tempo de espera como principais queixas do transporte público no país
Mais de 60% dos usuários do transporte público coletivo no Brasil avaliam o serviço de forma negativa. O sistema recebeu nota média de 42,6 em uma escala de 0 a 100, evidenciando um cenário de insatisfação relacionado principalmente à lotação dos veículos, ao tempo de espera e à falta de pontualidade.
A avaliação reúne 10.092 respostas de passageiros de 27 estados, incluindo usuários de Belo Horizonte e de outras 245 cidades do país.
Entre as 14 dimensões analisadas, apenas três ultrapassaram 50% de aprovação. A condução dos motoristas foi o item mais bem avaliado, com 69,8%, seguida pela acessibilidade, com 51,1%, e pela limpeza interna dos veículos, com 50,6%.
Os menores índices de aprovação ficaram concentrados em aspectos diretamente relacionados à qualidade e à previsibilidade das viagens. A lotação dos veículos registrou 28,8% de aprovação, enquanto o tempo de espera nos pontos e estações ficou em 28%. A pontualidade dos itinerários alcançou 34,1%, e a conservação das paradas teve 36,8%.
Quando tiveram a possibilidade de indicar até cinco prioridades para a melhoria do sistema, 66,5% dos passageiros apontaram a pontualidade. A redução do tempo de espera por meio da ampliação da frota em circulação foi indicada por 47,5% dos entrevistados.
Perfil dos usuários e tempo de deslocamento
O transporte público faz parte da rotina da maioria dos passageiros ouvidos. Cerca de 98,4% utilizam o serviço na cidade onde moram, enquanto 58,6% dependem exclusivamente dos ônibus, sem integração com outros meios de transporte.
A frequência de utilização também é elevada. Do total, 77,8% afirmaram viajar diariamente ou entre cinco e seis dias por semana, mostrando a importância do transporte coletivo para os deslocamentos cotidianos.
A maior concentração de respostas está entre passageiros de 41 a 65 anos, com destaque para a faixa de 51 a 54 anos, que representa 32,6% da amostra. As mulheres correspondem a 52,5% dos entrevistados, enquanto os homens representam 47,5%.
A insatisfação aumenta entre aqueles que utilizam o transporte com maior frequência e enfrentam trajetos mais longos. Passageiros que utilizam o sistema diariamente e aqueles que permanecem mais de duas horas em deslocamento apresentam os maiores níveis de crítica.
Em relação ao tempo de viagem, 37,7% dos entrevistados gastam entre 30 minutos e uma hora em cada trecho. Mais de um terço dos passageiros passa mais de uma hora dentro dos veículos a cada deslocamento.
Nas cidades com mais de 2 milhões de habitantes, o tempo médio de viagem chega a 58 minutos.
O acesso inicial ao transporte, porém, é relativamente rápido para grande parte dos passageiros. Cerca de 45,7% chegam ao ponto em até cinco minutos, enquanto 80,7% percorrem a pé no máximo dez minutos até alcançar o local de embarque.
Transporte por aplicativo ganha espaço
A insatisfação com a regularidade, o tempo de espera e o conforto do transporte coletivo também se relaciona à busca por alternativas individuais de mobilidade, como os serviços de transporte por aplicativo.
Entre os atributos mais valorizados nessas plataformas estão a pontualidade e o cumprimento dos horários, apontados por 37,8% dos entrevistados. A praticidade e a agilidade aparecem em seguida, com 26,2%, enquanto a clareza das informações oferecidas foi citada por 19,1%.
A previsibilidade da viagem se torna, portanto, um dos principais fatores de diferenciação entre os meios de transporte. Longos períodos de espera, atrasos e deslocamentos demorados aumentam a insatisfação dos passageiros e favorecem a procura por alternativas individuais.
O acesso a informações em tempo real também ganhou relevância. Atualmente, 51% dos passageiros utilizam esse tipo de recurso para acompanhar o transporte público, especialmente para obter informações sobre horários e deslocamentos.
Os dados apontam para um sistema que ainda enfrenta dificuldades em aspectos básicos da experiência dos passageiros. Com 42,6 pontos de satisfação média e 61,3% de avaliações negativas, a mobilidade coletiva no país convive com problemas de superlotação, espera prolongada, atrasos e viagens demoradas, fatores que contribuem para o afastamento de usuários e para a procura por outras formas de deslocamento.