Nepal enterra vítimas antes da identificação e recebe críticas da população

Inundação repentina e mar de lama na região de fronteira entre o Nepal e o Tibete (China) - Reprodução/X
Autoridades do Nepal sepultam temporariamente corpos de enchentes no Himalaia, gerando críticas por desrespeito a tradições hindus
As enchentes devastadoras que atingiram a região do Himalaia arrastaram tantos corpos rio abaixo que autoridades de um distrito do Nepal começaram a sepultar temporariamente as vítimas antes de identificá-las. A medida gerou críticas de moradores e familiares, que afirmam que as autoridades estão ignorando tradições funerárias hindus. No distrito de Chitwan, no centro-sul do Nepal, cerca de 250 corpos aguardavam identificação nesta semana. Ao lado deles, foram abertas às pressas valas para o sepultamento temporário. Os corpos foram carregados por centenas de quilômetros pelo rio Bhotekoshi e encontrados em Chitwan, distante do epicentro das enchentes e dos deslizamentos que atingiram a região na quarta-feira (26). As autoridades realizaram o sepultamento temporário de cerca de 100 vítimas no sábado (29), segundo funcionários locais. Equipes de perícia enfrentavam dificuldades para lidar com o volume de corpos. Uma fila de veículos transportando as vítimas chegou a uma área de mata enquanto uma escavadeira abria uma grande vala na terra vermelha.
O inspetor de polícia Anil Thapa, responsável pela operação, informou que outras 50 vítimas passavam por coleta de amostras de DNA antes de um possível sepultamento no domingo (30). Segundo Thapa, as autoridades fotografam características do rosto, registram outras informações de identificação e coletam material genético, atribuindo a cada corpo um número de referência para que possa ser localizado e entregue à família posteriormente. Muitos dos corpos permaneceram submersos por cerca de quatro dias e já estavam em decomposição quando encontrados. A estrutura limitada para exames forenses, a falta de espaço nos necrotérios, a alta umidade e o calor aceleraram ainda mais esse processo. Especialistas em saúde alertaram que manter os restos mortais expostos por muito tempo poderia aumentar o risco de doenças. No domingo (30), novos deslizamentos bloquearam a principal rodovia entre Katmandu, a capital do Nepal, e Chitwan, estrada que havia sido parcialmente reaberta um dia antes. O bloqueio dificultou o transporte de corpos e de suprimentos para as áreas afetadas. Na região atingida, casas, veículos e tratores agrícolas continuavam parcialmente soterrados pela lama.
Enquanto os sobreviventes tentavam reconstruir suas vidas, cresceram as críticas aos sepultamentos temporários. Moradores disseram que algumas vítimas ficaram dias esperando pelos últimos ritos, e familiares de desaparecidos questionaram se as autoridades tomaram a decisão cedo demais. A questão é especialmente delicada no Nepal, país de maioria hindu, onde os mortos são normalmente cremados. Ruby Chaudhary, que tem dois parentes desaparecidos, afirmou que os sepultamentos não deveriam ocorrer sem o consentimento das famílias. "Os mortos merecem ser tratados com dignidade", disse ela. "Nossa tradição é cremá-los às margens do rio, cercados pela família mais próxima."
O ex-primeiro-ministro Baburam Bhattarai também criticou a medida, afirmando que não seria adequado sepultar corpos ainda não identificados antes do fim das operações de busca e resgate e sem consultar as famílias dos desaparecidos. Em publicação nas redes sociais no sábado à noite, Bhattarai defendeu que o governo poderia ter mobilizado recursos de emergência para criar necrotérios temporários ou espaços refrigerados. As autoridades, porém, sustentam que o sepultamento é apenas uma medida temporária, adotada por questões sanitárias e pela falta de espaço para armazenar os corpos. "As pessoas estão preocupadas que isso possa ser um sepultamento permanente, mas é apenas uma medida temporária", disse Thapa, acrescentando que, caso a identidade de uma vítima seja confirmada posteriormente, a família poderá retirar o corpo e realizar os ritos funerários.
O secretário de Relações Exteriores do Nepal, Amrit Bahadur Rai, afirmou que o procedimento segue protocolos internacionais de gestão de desastres, incluindo orientações do Comitê Internacional da Cruz Vermelha. "As famílias poderão cruzar os registros posteriormente e terão autorização para exumar os restos mortais e realizar os rituais necessários", disse Rai em entrevista coletiva em Katmandu.