Candidatos ao governo de Minas divergem sobre exploração de terras raras

Foto: Divulgação / Meteoric Resources
Em debate promovido pela Amig-Brasil, candidatos ao Palácio Tiradentes apresentaram propostas divergentes sobre exploração mineral no estado
A mineração em Minas Gerais voltou a ser tema central da disputa pelo governo do estado nesta quarta-feira (19/08), durante debate promovido pela Associação Brasileira dos Municípios Mineradores (Amig-Brasil). Os candidatos ao Palácio Tiradentes apresentaram propostas divergentes sobre a exploração mineral no estado, marcando a segunda vez desde o início da campanha, no domingo (16/08), que o setor é debatido pelos postulantes ao Poder Executivo estadual.
Participaram do encontro os candidatos Patrus Ananias (PT), Gabriel Azevedo (MDB) e Flávio Roscoe (PL). O governador Mateus Simões (PSD) não compareceu por estar em compromisso oficial em Juiz de Fora, enquanto o ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PDT), estava em São Paulo para um transplante de córnea. O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) também esteve ausente, sem que houvesse retorno ao contato feito pela reportagem para explicar o motivo.
A mineração representa cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) de Minas Gerais. No debate da Amig-Brasil, grande parte das discussões girou em torno das chamadas terras raras, um conjunto de minerais como lutécio e ítrio, fundamentais na produção de ímãs permanentes usados na fabricação de carros elétricos. O estado detém uma das maiores reservas desses minerais no Brasil, embora a exploração no país ainda esteja em fase inicial.
Propostas em disputa
Os três candidatos presentes defenderam a exploração das riquezas minerais do estado, mas divergiram quanto à estratégia. Flávio Roscoe defendeu que o Brasil aproveite a demanda internacional pelas terras raras sem criar obstáculos à comercialização. "Política pública adequada no interesse do brasileiro é: vamos vender terra rara para todo mundo que quer comprar, e caro", afirmou.
O candidato destacou que o país detém cerca de 25% das reservas mundiais conhecidas e citou Poços de Caldas, no Sul de Minas, como uma das principais áreas de exploração. Para ele, o Brasil não deve deixar de vender o recurso enquanto desenvolve a indústria nacional para agregar valor aos minerais. "Vamos tentar desenvolver essa cadeia aqui, ponto. Mas não deixar de vender. Vamos pegar o recurso dessa venda, investir na cadeia aqui", disse.
Patrus Ananias apresentou uma estratégia diferente, priorizando a industrialização dos recursos dentro do Brasil em vez da exportação de matéria-prima. "Nós não podemos continuar sendo um país exportador de matéria-prima e depois comprar o produto industrializado", declarou o candidato durante coletiva de imprensa após o debate.
Segundo Patrus, a estratégia deve incluir investimentos em tecnologia, pesquisa e universidades. "Nós temos que desenvolver também a tecnologia, é importante a educação, as nossas universidades, para formarmos pessoas competentes, qualificadas, inclusive no campo empresarial, para bem industrializados esses produtos aqui no nosso estado." O candidato não descartou a participação de empresas privadas na atividade, desde que submetidas a regras voltadas ao interesse público.
Gabriel Azevedo adotou discurso próximo ao de Patrus, mas colocou a agregação de valor e o desenvolvimento dos municípios no centro de sua proposta. Ao falar sobre terras raras, citou o lítio produzido no Jequitinhonha como exemplo do modelo que considera adequado. "Nós estamos falando de agregação de valor [...] e, sobretudo, nós estamos falando de tirar a riqueza do chão [...] mas garantir que essa riqueza, ao sair, seja vetor de desenvolvimento socioeconômico", afirmou.
Gabriel também defendeu uma atuação conjunta entre Minas e União diante da disputa internacional por minerais estratégicos. "Nós no Brasil precisamos com urgência parar de brigar entre nós para entrar na briga internacional de maneira unida e defender a nossa soberania." Para o candidato, a mineração precisa vir acompanhada de segurança jurídica, fiscalização e infraestrutura.
Os ausentes
Todos os candidatos ao governo de Minas incluíram estratégias para o setor de mineração em seus programas de governo. Entre os que não compareceram ao debate, Mateus Simões, Cleitinho Azevedo e Alexandre Kalil defendem o beneficiamento dos minerais, com produção de ímãs para carros elétricos e chips semicondutores, e não a exportação da produção em estado bruto.
O governador Mateus Simões destacou em seu programa de governo que "o debate global sobre minerais críticos e terras raras, impulsionado pela transição energética, abre uma janela de oportunidade singular para o estado. O desafio central é evitar que Minas permaneça predominantemente exportadora de matéria-prima, o que exige avanço simultâneo em agregação de valor, infraestrutura logística, qualificação da mão de obra, segurança jurídica ao investidor, combate à informalidade e redução das disparidades regionais".
Cleitinho Azevedo trata do tema em suas propostas como a "mineração do futuro". Em seu programa, defende "(é necessário) desenvolver uma cadeia de maior valor agregado para terras raras e minerais estratégicos, fomentando inovação e pesquisa. Incentivar o aproveitamento de rejeitos, garantir uma mineração mais segura e preparar as regiões mineradoras para diversificar sua economia no futuro".
Kalil seguiu a mesma linha. "Minas possui importantes reservas e produção de diferentes minerais, mas parte das etapas de maior valor econômico das cadeias ocorre fora do Estado. Essa lógica precisa ser transformada. O governo trabalhará para atrair e destravar investimentos em beneficiamento, transformação, novos materiais, equipamentos e atividades tecnológicas associadas à produção mineral", defendeu o candidato em suas propostas.
As divergências entre os candidatos refletem o debate mais amplo sobre o papel da mineração no desenvolvimento de Minas Gerais, com propostas que vão da exportação imediata das riquezas à industrialização local como estratégia de longo prazo.