Lulinha é alvo de três inquéritos da PF por suspeita de tráfico de influência

© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Filho do presidente Lula é investigado por suspeita de tráfico de influência em três frentes distintas abertas pela Polícia Federal
O empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, está sendo investigado pela Polícia Federal (PF) sob suspeita de tráfico de influência. Filho do presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT), ele é alvo de três inquéritos distintos que vieram a público até o momento. No Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro André Mendonça é relator de duas das apurações, enquanto o ministro Flávio Dino acompanha a terceira.
O caso ganhou repercussão após a divulgação de mensagens da empresária Roberta Luchsinger e passou a interferir no debate político, colocando o tema do combate à corrupção no caminho da campanha eleitoral de Lula. Na última quinta-feira (20/8), a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu ao STF que o inquérito que apura o suposto tráfico de influência de Lulinha seja enviado à primeira instância da Justiça, sob o argumento de que não há autoridades com foro privilegiado envolvidas. A decisão final caberá ao ministro André Mendonça.
A primeira investigação da PF sobre Lulinha foi aberta no dia 30 de julho. A apuração busca entender se ele atuou junto à empresária Roberta para favorecer a empresa World Cannabis, ligada ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS. Antunes é apontado pela Operação Sem Desconto como principal articulador de um esquema que teria descontado cerca de R$ 6,3 bilhões do INSS entre 2019 e 2024, por meio de cobranças não autorizadas em aposentadorias e pensões. Lulinha foi citado nas investigações sob suspeita de ser sócio oculto do Careca do INSS e teve seus sigilos bancário, fiscal e telemático quebrados com autorização do STF, mas não figura entre os indiciados no caso.
O segundo inquérito foi aberto no dia seguinte ao primeiro, com suspeitas de que Lulinha teria agido junto à Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência (Dataprev), vinculada ao Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos, para beneficiar o empresário Cleber Ribas de Oliveira. Sócio da companhia 3Structure It, Oliveira teria custeado uma viagem de Fábio em troca de favores do governo e mantido relação com o Careca do INSS, segundo o relatório da PF. A Dataprev afirma não ter nenhum contrato com a empresa.
A terceira frente de investigação foi aberta no dia 4 de agosto e também analisa suspeitas de tráfico de influência, ou seja, atuação junto a órgãos públicos para favorecer empresas. O ministro Flávio Dino, além de autorizar o pedido da PF, permitiu uma apuração sobre vazamentos ilegais de dados sigilosos, requisição feita pela própria defesa de Lulinha.
Roberta Luchsinger também é alvo da Operação Sem Desconto por conta dos negócios que mantinha com o Careca do INSS. Segundo diálogos analisados pela PF, ela afirmava falar em nome do filho do presidente, utilizando a expressão "Eu sou o Fábio", e buscava obter 20% de remuneração em um projeto de cannabis medicinal que tentava vender ao governo federal. A empresária também encaminhou a Marco Aurélio Santana Ribeiro, ex-chefe de gabinete do presidente Lula, a minuta de um contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. Conhecido como Marcola, o ex-assessor confirma o recebimento do documento, mas afirma não ter repassado o material a ninguém do governo. A relação entre Ribeiro e Luchsinger ganhou destaque após a revelação de que ele recebeu R$ 249 mil da empresária, valor que inclui joias de diamantes. Marcola afirmou que os valores se referem a um empréstimo já quitado.
Em outras mensagens examinadas pela PF, a empresária teria mencionado a atuação do advogado Otto Medeiros no suposto contrato e afirmado que ele seria sócio do ministro Kassio Nunes Marques, do STF. Em nota, Kassio afirmou que é amigo de Medeiros, mas que "não é e nunca foi sócio" dele em nenhum empreendimento. Segundo a "Folha de S.Paulo", documentos indicam que Lulinha já voou em jatos privados de Otto Medeiros e que o advogado já atuou para ele no caso em que o empresário foi acusado de sonegação fiscal, na época da Operação Lava Jato.
Os advogados de Lulinha negam qualquer ligação dele com irregularidades. A defesa admite que o Careca do INSS pagou as despesas de uma viagem que o empresário fez a Portugal, mas afirma que ele aceitou o convite para conhecer a produção de medicamentos à base de canabidiol e não participou de negociações nem investiu na World Cannabis. O Ministério da Saúde, por sua vez, afirma que nunca teve contrato com a empresa. Sobre os diálogos divulgados, a defesa afirmou que não pode "até o momento atestar a veracidade de qualquer mensagem" e que "qualquer afirmação agora parece absolutamente inconveniente e inoportuna". O advogado Marco Aurélio Carvalho foi além: "O que posso dizer é que estão ocorrendo vazamentos criminosos por setores da Polícia Federal instrumentalizados por interesses políticos e eleitorais para tentar, de alguma forma, contaminar as eleições de 2026".
O presidente Lula afirmou em mais de uma ocasião que Fábio não terá privilégios e que, embora acredite na inocência do filho, ele precisará provar sua inocência no processo. "Se meu filho tiver culpa, ele pagará. Agora, ele já foi acusado de muitas coisas. Toda eleição aparece o meu filho", disse em entrevista aos podcasts "Não Inviabilize" e "As Cunhãs" na última sexta-feira (14/8). Na noite da quarta-feira (19/8), o presidente se reuniu com o advogado de Lulinha no Palácio da Alvorada. O defensor também coordena a campanha à reeleição do petista em São Paulo. As investigações sobre Lulinha seguem em andamento, com a PGR pedindo o envio dos inquéritos à primeira instância e a defesa contestando a validade das mensagens divulgadas. O desfecho do caso dependerá das decisões dos ministros do STF responsáveis pelas apurações.