Lula supera R$ 283 bi em "bondades" econômicas no ano eleitoral

Esplanada dos Ministérios | Foto: Marcello Casal Jr. /Agência Brasil
Pacote do governo Lula já soma R$ 283,2 bilhões em medidas econômicas, se aproximando dos R$ 325 bilhões distribuídos por Bolsonaro em 2022
O Palácio do Planalto tem vivido dias agitados desde o início do ano, com medidas de incentivo à economia sendo anunciadas com frequência. Juntas, essas ações já somam R$ 283,2 bilhões, valor que se aproxima rapidamente do pacote de bondades de quatro anos atrás, quando Jair Bolsonaro articulou uma ofensiva de R$ 325 bilhões, em valores corrigidos pela inflação. As iniciativas do governo Lula para estimular a economia ocorrem em várias frentes, da desoneração do Imposto de Renda à oferta de empréstimos com garantia de fundos estatais. As medidas com impacto econômico em 2026 foram compiladas pelo banco suíço UBS. Apesar de a legislação restringir esse tipo de iniciativa, anos eleitorais historicamente registram impulso na economia gerado por ações do governo.
Ao comparar as medidas adotadas nas duas eleições, é possível identificar estratégias bastante diferentes entre Lula e Bolsonaro. Em 2022, sob o estado de emergência decretado pelo Congresso, Bolsonaro avançou com a então chamada "PEC Kamikaze", que incluiu corte de impostos e reforço nos programas sociais, como o antigo Auxílio Brasil, além dos inéditos Auxílio Caminhoneiro e Auxílio Taxista. O resultado foi um choque no caixa do Tesouro: R$ 167,7 bilhões em isenções e desonerações (51,6%), além de R$ 123 bilhões em renda adicional para a população por meio do reforço dos programas sociais (37,9%), com valores corrigidos pelo IPCA. Em 2026, a fórmula é bem diferente. Limitado pelo novo arcabouço fiscal, o governo Lula traçou um caminho alternativo e tenta criar uma sensação de bem-estar econômico mexendo o mínimo possível no próprio caixa.
A solução foi recorrer ao sistema financeiro e a fundos estatais de garantia. Dos recursos mobilizados pela atual gestão, R$ 193,5 bilhões — equivalentes a 69% do total — dependem de um gesto simples, mas decisivo, do cidadão ou do empresário: assinar um contrato de dívida. Essa assinatura para comprar um carro ou uma geladeira nova, no entanto, pode estar esbarrando na realidade. Com o endividamento em alta e a inadimplência em nível recorde, muitos brasileiros que gostariam de tomar crédito não conseguem porque estão com o nome sujo. Essa diferença entre expectativa e realidade é simbolizada pela marcha lenta do programa Move Brasil. A iniciativa, que prevê R$ 30 bilhões em crédito para a compra de carros por motoristas de aplicativo e taxistas, entrou no segundo mês com apenas R$ 2 bilhões liberados. A razão é que boa parte dos interessados está com nome sujo ou não consegue cumprir as exigências dos bancos. Isso talvez explique a obsessão do atual governo com iniciativas para renegociar dívidas, como o Desenrola, que cresceu e alcança agora até quem está adimplente.
O Ministério da Fazenda nega que haja uma concentração de medidas econômicas com objetivo eleitoral e afirma que a equipe busca o equilíbrio das contas públicas. Segundo a pasta, há uma "busca incessante do equilíbrio fiscal, em especial com a meta de alcançar superávits primários em curtíssimo prazo". Em nota à GloboNews, o Ministério afirma que, desde o início do governo Lula, foram aprovadas "cerca de 70 políticas públicas" na área econômica pelo Congresso Nacional. "Ou seja, este governo trabalha desde seu início para resolver questões econômicas, estruturais e conjunturais", cita a nota.
A Fazenda menciona como exemplo o "Novo Desenrola Brasil", considerado uma política de longo prazo. "O endividamento das famílias é um problema persistente desde a pandemia, que o governo se esforça para mitigar", cita o texto. Sobre o novo Imposto de Renda, que prevê isenção para quem ganha até R$ 5 mil, o Ministério afirma que a iniciativa "endereça a baixa progressividade do IRPF, que constituía um problema econômico amplamente diagnosticado no Brasil". "A reforma buscou enfrentar essa distorção com o propósito de ampliar a justiça tributária e contribuir para a redução da desigualdade socioeconômica em um dos países mais desiguais do mundo", diz o texto.
Sobre os juros cobrados nos empréstimos e incidentes sobre a dívida pública, o Ministério afirma que eles refletem uma combinação de fatores. "Como os prêmios de risco fiscal, inflacionário, cambial, o diferencial entre os juros domésticos e internacionais, a distância da inflação à meta e a política de juro básico da autoridade monetária para a convergência da inflação efetiva à meta", cita o texto. O Ministério acrescenta ainda que "desde setembro de 2023, o juro médio americano, principal referência global de juro, muito influente sobre o juro brasileiro, tem estado em máximas de 20 anos. Ou seja, para além dos riscos, por exemplo, fiscais e cambiais, a conjuntura global de juros tem contribuído para a resistência à queda da curva de juros no Brasil, o que onera o custo de rolagem da dívida pública".
A pasta nega que não haja esforço para o equilíbrio das contas públicas. "A política fiscal tem buscado contribuir com a redução das taxas de juros e, por consequência, do pagamento de juros nominais, via busca incessante do equilíbrio fiscal, em especial com a meta de alcançar superávits primários em curtíssimo prazo. Assim, reduz-se a precificação do risco fiscal, reduzem-se os cupons cambiais e ajuda-se a estabilizar mais rapidamente a dívida pública", conclui a nota.