Lula relembra o passado e Flávio reforça vínculo com o pai no começo da campanha

Os dois candidatos à Presidência da República que lideram as pesquisas de intenção de voto, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), escolheram seus berços políticos para dar início às campanhas eleitorais. O presidente Lula foi a São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo, enquanto Flávio Bolsonaro discursou na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Em São Bernardo do Campo, Lula, candidato a um quarto mandato no Palácio do Planalto, apostou em seu passado político e evocou Deus em um discurso que durou mais de 30 minutos. O evento deu destaque às mulheres, com falas da primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, e de aliadas do presidente, como as ex-ministras Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), candidatas ao Senado em São Paulo. A ex-primeira-dama Marisa Letícia, falecida em 2017, foi lembrada tanto no discurso de Janja quanto no do próprio Lula.
O petista escolheu São Bernardo do Campo por ser o lugar onde construiu sua trajetória política como metalúrgico e onde se entregou para ser preso, em 2018. O partido perdeu força no ABC paulista nas últimas eleições — na disputa pela prefeitura local, o candidato do PT ficou em terceiro lugar, e a legenda venceu apenas em Mauá na região.
O presidente buscou a emoção com imagens do passado. Em um vídeo exibido no evento, o Lula de hoje "conversou com o Lula do passado", com imagens da greve de 79 na Vila Euclides. "Aguenta companheiro, que a democracia vai vencer", dizia o vídeo. "Aqui, em 2026, a gente reconstruiu o Brasil e quer mais". No palco, Lula estampou o slogan "O Brasil pronto para mais", sob o lema "Onde tudo começou". Ao seu lado estavam o candidato a vice, Geraldo Alckmin (PSB), o candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e a primeira-dama Janja, entre outros aliados.
Promessas e alfinetadas no discurso de Lula
Lula retomou a promessa de criar o Ministério da Segurança Pública, lembrando conversa recente com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e afirmando que, se a PEC da Segurança for aprovada, o ministério será criado — compromisso que já havia assumido em 2022. O presidente também fez uma alfinetada ao ministro do STF Dias Toffoli, ao relembrar dois momentos em que esteve preso: quando um delegado autorizou sua saída para o enterro da mãe, mesmo durante a ditadura, e quando Toffoli, ministro indicado por ele ao STF, não autorizou sua saída para o enterro do irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, em 2019.
A primeira-dama Janja foi uma das principais atrações do evento. Ela começou sua fala reclamando do microfone, fez uma homenagem à ex-esposa de Lula, Marisa Letícia, e depois chamou o cantor evangélico Kleber Lucas para, juntos, cantarem uma música em homenagem ao presidente. Janja surpreendeu ao reconhecer publicamente a importância de Marisa Letícia para o PT — nos bastidores, ela é conhecida por não gostar que aliados do presidente falassem da ex-esposa de Lula. "Essas mulheres foram de uma força importante e, sem a presença delas, essa história poderia ser diferente", afirmou a primeira-dama.
O tema da soberania nacional deu o tom dos discursos de Lula e de seus aliados, em meio à escalada de tensões diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos. A soberania é um dos principais motes da campanha de Lula, que tem enfrentado dificuldades na relação com o governo de Donald Trump.
Flávio Bolsonaro em Copacabana
Na praia de Copacabana, berço do bolsonarismo, o senador Flávio Bolsonaro, escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro — preso e inelegível — para ser o candidato do PL, defendeu o pai e centrou seu discurso no tema da segurança pública. Flávio associou soberania e segurança pública para criticar seu principal adversário, dizendo que o governo petista briga com um país a 10 mil quilômetros de distância, em referência aos EUA, mas que não briga com traficante.
O candidato do PL anunciou que vai classificar milícias como organizações terroristas. A sanção atual dos EUA contra o Brasil já classifica o PCC e o CV como organizações terroristas, resultado de pedidos feitos por Flávio a Donald Trump, ao vice-presidente JD Vance e ao secretário de Estado Marco Rubio, com quem ele se reuniu na Casa Branca. O governo Lula é contrário à designação das facções brasileiras, alegando riscos à soberania e potencial impacto na economia e no setor financeiro.
Flávio também defendeu seu candidato a vice, Alfredo Gaspar (PL), das acusações de estupro de vulnerável. O senador afirmou que Gaspar foi alvo da denúncia por causa de seu trabalho na CPMI do INSS, onde investigava o filho do presidente Lula. Gaspar nega as acusações, afirma ser inocente e alvo de uma armação, e se colocou à disposição das autoridades, inclusive para realizar teste de DNA.
A campanha de Flávio Bolsonaro tem o slogan "O Brasil vai vencer", evocando o discurso nacionalista que elegeu Jair Bolsonaro em 2018. Antes de Flávio discursar, membros do PL relembraram inúmeras vezes a figura do ex-presidente, citando sua prisão e reforçando que foi ele quem escolheu o filho mais velho para encabeçar a chapa presidencial. No Rio de Janeiro, o PL tenta eleger Douglas Ruas para o governo estadual e aposta em Carlos Jordy, Carlos Portinho e na reeleição de Sóstenes Cavalcante.
Simultaneamente, um segundo evento bolsonarista aconteceu em Brasília para o lançamento das candidaturas de Celina Leão ao governo do Distrito Federal e de Michelle Bolsonaro e Bia Kicis ao Senado. Em seu discurso, Michelle Bolsonaro citou apoio ao enteado Flávio Bolsonaro e reafirmou ser candidata do marido, o ex-presidente Jair Bolsonaro.