Brasil e EUA retomam diálogo sobre tarifas em meio a tensões comerciais

Navio porta contêineres atracado em um porto brasileiro © Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Após telefonema com Trump, Lula afirma que Brasil e EUA retomarão negociações sobre tarifas comerciais consideradas "infundadas"
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (21) que Brasil e Estados Unidos vão retomar o diálogo sobre as tarifas comerciais após uma conversa telefônica com o presidente americano Donald Trump.
O telefonema ocorre em um momento de tensão comercial entre os dois países, depois que Washington impôs duas novas rodadas de tarifas sobre produtos brasileiros no mês passado. Os Estados Unidos justificaram as medidas alegando falhas do Brasil em áreas como desmatamento, propriedade intelectual e combate à corrupção.
Durante a ligação, que durou uma hora e vinte minutos e foi descrita pela Presidência brasileira como "amistosa" e "cordial", Lula disse a Trump que as tarifas são "infundadas" e que manter as negociações é "a melhor opção para os dois países".
Durante um ato de campanha em Minas Gerais, Lula relatou que Trump pediu ao seu representante comercial que telefonasse para o ministro brasileiro do Comércio Exterior, e que os dois já marcaram uma reunião. O presidente acrescentou que Trump "reconheceu" seus argumentos de que as tarifas contra o Brasil foram baseadas "na mentira".
Uma fonte do governo brasileiro informou que a questão eleitoral não foi mencionada diretamente na conversa, embora Lula tenha afirmado a Trump que o sistema eleitoral brasileiro é confiável, em resposta a uma pergunta genérica do presidente americano sobre a disputa.
Lula havia acusado recentemente os Estados Unidos de tentar interferir nas eleições de outubro, nas quais enfrentará seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado de Trump.
Em um eventual segundo turno, Lula teria 47% das intenções de voto, contra 43% de Flávio Bolsonaro, segundo pesquisa do Datafolha divulgada nesta sexta-feira.
Outro ponto de atrito entre os dois governos foi abordado durante o telefonema. Lula reiterou sua recusa em designar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, classificação que Washington atribuiu a ambos os grupos em maio.
O comunicado da Presidência brasileira afirmou que esses "grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre as populações mais carentes, mas não se confundem com organizações terroristas".
Lula defendeu outros métodos para combater essas facções, como asfixiá-las financeiramente. "Eu falei: 'Ô, Trump, se você quer combater o crime organizado (...) nós queremos trabalhar juntos. O que não queremos é interferência no Brasil'", relatou Lula durante o ato em Minas Gerais.
O senador Flávio Bolsonaro, por sua vez, defende a importação do modelo de linha dura do presidente salvadorenho Nayib Bukele e afirma ter pedido pessoalmente a Trump que designasse o PCC e o CV como terroristas dias antes de os Estados Unidos tomarem essa decisão.
Lula vinha defendendo nas últimas semanas sua determinação em dialogar com Trump, especialmente para tratar das tarifas, que prejudicam a economia brasileira e geram insatisfação entre líderes empresariais.
A retomada do diálogo comercial, com a reunião prevista entre os representantes dos dois países, é apresentada pelo governo brasileiro como um avanço nas relações bilaterais.