Plano de paz para Gaza trava com rejeição de Netanyahu ao desarmamento do Hamas
Enviado de Trump encontra premier israelense após conversar com Hamas no Egito sobre plano de paz para Gaza
O enviado especial dos Estados Unidos e genro do presidente Donald Trump, Jared Kushner, se reuniu nesta segunda-feira (17/8) com o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, após manter conversas com representantes do Hamas no Egito. O objetivo do encontro é impulsionar o plano de paz para Gaza promovido pela administração Trump, em meio a tensões crescentes entre Israel e o movimento islamista palestino.
O encontro ocorre em um momento delicado, com Washington tentando reduzir as divergências entre as partes sobre a implementação do plano de paz. No fim de julho, o Hamas aprovou um mapa do caminho proposto pelo governo americano para colocar em prática a segunda fase do acordo, que prevê o desarmamento do movimento islamista e a retirada das tropas israelenses do território palestino. Netanyahu, no entanto, rejeitou o texto e exigiu um "verdadeiro" desarmamento do Hamas.
No domingo, Kushner e integrantes da delegação do Hamas se reuniram no Egito. Durante o encontro, o emissário americano insistiu no desarmamento total do movimento palestino e em sua exclusão de qualquer papel no futuro governo de Gaza, de acordo com fontes próximas às negociações.
Um dirigente de alto escalão do Hamas afirmou que o grupo transmitiu a Kushner seu compromisso com o plano e o desejo de que Washington pressione Netanyahu a aceitá-lo. "O Hamas exige que a administração americana (...) pressione o governo de Netanyahu para que aceite o acordo do mapa do caminho e o aplique. O Hamas aguarda a resposta da administração americana sobre a posição de Israel em relação ao acordo", declarou a fonte à AFP.
Durante anos, Washington se recusou a manter contatos com o Hamas, classificado como organização terrorista e responsável pelo ataque de 7 de outubro de 2023 contra Israel, que desencadeou a guerra em Gaza. O governo Trump, porém, tem se mostrado cada vez mais disposto a estabelecer contatos diretos com o grupo, na esperança de encerrar o conflito. Foi sob essa postura que a administração negociou o acordo de cessar-fogo de outubro, que permitiu a libertação dos últimos reféns israelenses.
Retórica linha dura
Netanyahu deve se reunir a portas fechadas com Kushner, que mantém vínculos pessoais de longa data com o premier israelense, assim como com Nickolay Mladenov, alto representante para Gaza no "Conselho de Paz" de Trump e responsável por implementar o plano.
Com eleições acirradas previstas para outubro, Netanyahu tem adotado uma postura cada vez mais desafiadora em relação a Trump, cujo apoio ele destaca repetidamente em sua campanha. Após expressar críticas moderadas ao plano em um primeiro momento, Netanyahu anunciou na semana passada ao seu gabinete que rejeitava o texto e se comprometeu a não retirar as tropas do território palestino. A decisão veio mesmo após Mladenov ter assegurado que Israel não precisaria adotar essa medida antes do desarmamento completo do Hamas.
O tom belicoso também foi reforçado por Itamar Ben Gvir, ministro ultradireitista da Segurança Nacional do gabinete de Netanyahu, que incitou a realização de assassinatos em Gaza. "Eu acho que execuções direcionadas deveriam ser realizadas em Gaza todas as noites. Eliminem 30 ou 40", disse Ben-Gvir em um podcast com um ex-refém de Gaza. "Não apenas aqueles que representam uma ameaça atualmente. São pessoas que não deveriam estar vivas", acrescentou. "Estou fazendo um elogio ao chamá-los de humanos".
No domingo, oito países muçulmanos, incluindo Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, condenaram em comunicado conjunto a rejeição israelense ao plano de paz para Gaza.
Hamas e Israel continuam trocando acusações sobre violações do cessar-fogo alcançado em outubro de 2025, sob mediação americana. De acordo com dados do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas e considerados confiáveis pela ONU, pelo menos 1.262 palestinos morreram em operações israelenses desde que a trégua entrou em vigor. O Exército israelense registrou cinco mortes em suas fileiras no mesmo período.



