Flávio Bolsonaro admite erros e evita propostas concretas em entrevista à Globo

Flávio Bolsonaro (PL) na bancada para ser entrevistado por Renata Vasconcellos e César Tralli - Foto: Globo/ Manoella Mello
Flávio Bolsonaro admitiu erros sobre urnas, negou irregularidades no caso Vorcaro e atacou Lula em entrevista à TV Globo
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) concedeu entrevista à TV Globo na noite de sexta-feira (28/8) e foi questionado sobre temas centrais de sua campanha e de polêmicas recentes.
Entre os assuntos abordados, estiveram a relação com o banqueiro Daniel Vorcaro e o financiamento de R$ 61 milhões ao filme "Dark Horse", erros em declarações sobre urnas eletrônicas, críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a negação do aquecimento global.
Ao longo da entrevista, Flávio Bolsonaro defendeu posições já conhecidas, admitiu equívocos pontuais e atacou o adversário político em diversas respostas, sem apresentar propostas econômicas concretas.
Relação com Vorcaro e o filme "Dark Horse"
Flávio Bolsonaro minimizou sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro e negou qualquer irregularidade no patrocínio à cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
"Não tem absolutamente nada de errado em buscar financiamento para o filme do próprio pai. Não teve nenhuma contrapartida, nada de irregular. Foi um patrocínio", declarou.
Ao prometer apresentar a prestação de contas dos valores envolvidos, Flávio afirmou que o contrato entre o banqueiro e a produtora já seria público. "Já está apresentado", disse.
No entanto, quando contestado sobre a ausência do documento, contradisse-se e afirmou que apenas concedeu autorização para uso de sua imagem. "O contrato não cabe a mim", pontuou.
O escândalo envolvendo Vorcaro dominou os primeiros minutos da entrevista, com Flávio Bolsonaro repetindo posições anteriores sobre o assunto.
"A relação que eu tinha com ele era sobre um filme", declarou. "É importante separar a relação privada", reforçou.
"Não recebi dinheiro nenhum. Foi para o filme. Eu pedi patrocínio para o filme".
Críticas a Lula
O presidente Lula, primeiro colocado nas intenções de voto e candidato à reeleição, foi citado em diversas respostas por Flávio Bolsonaro.
Em um dos movimentos mais marcantes da entrevista, o candidato do PL tentou associar o petista ao escândalo do Banco Master, afirmando que é Lula quem deve explicações sobre a reunião realizada no Palácio do Planalto com Vorcaro em 4 de dezembro de 2024.
As menções a Lula também apareceram quando Flávio Bolsonaro criticou o Supremo Tribunal Federal (STF).
"Quem foi que julgou ele (Bolsonaro)? Alexandre de Moraes, um inimigo declarado. Flávio Dino, outro ministro indicado por Lula, que tem inclusive processo criminal contra o Bolsonaro e que disse que o Bolsonaro é o demônio na Terra. E o Zanin, indicado pelo Lula, que até ontem era advogado do Lula... Você acha que foi um julgamento justo?", questionou, em referência ao processo que resultou na condenação de Bolsonaro por golpe de Estado.
O adversário também foi alvo de críticas quando o tema foi a situação fiscal do país.
Dívida pública e propostas econômicas
Flávio Bolsonaro demonstrou hesitação ao ser questionado sobre propostas para conter a dívida pública e não apresentou medidas práticas para o setor econômico.
Ele não confirmou se manterá a atual política de ganho real do salário mínimo, mas garantiu que não fará "economia com o povo mais sofrido".
Ao ser pressionado sobre o endividamento público, optou por direcionar críticas a Lula.
"Se o Brasil não tiver um ajuste fiscal forte, está fadado a ir à falência, uma quebradeira generalizada", afirmou, sem especificar medidas.
"Quando um governo gasta demais, aumenta os impostos de forma alucinada. São mais de 30 impostos criados ou aumentados só nesse atual governo para arrecadar mais", completou.
Flávio Bolsonaro também defendeu que sua eleição levaria a uma queda praticamente imediata da taxa Selic.
"Só com o anúncio da eleição de Flávio Bolsonaro como presidente da República e com a equipe de técnicos, com pessoas sérias, por um projeto de Brasil, a taxa de juros já vai cair na reunião seguinte do Copom do Banco Central. E, cada 1% de taxa de juros a menos, são R$ 90 bilhões que abrem no orçamento", disse, em postura semelhante à adotada pelo candidato Ronaldo Caiado (PSD) na terça-feira (25/8), também em entrevista à Globo.
Erro sobre urnas eletrônicas
Questionado sobre declarações feitas a diplomatas estrangeiros durante reunião em São Paulo, Flávio Bolsonaro admitiu ter errado e prometeu respeitar o resultado das eleições de outubro, independentemente do desfecho.
"Eu não estava questionando as urnas. Falei errado sobre a empresa. Ela não fabricou as urnas. Jamais questionei o processo eleitoral e vou ser eleito com essas regras", disse.
"Vou respeitar o resultado das eleições", acrescentou.
O equívoco ocorreu em julho, quando Flávio Bolsonaro sugeriu, em encontro com diplomatas, que as urnas eletrônicas usadas no Brasil pertenciam à Smartmatic, fabricante associada a suspeitas de fraudes eleitorais na Venezuela.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desmentiu o candidato e esclareceu que a informação apresentada era falsa.
Eduardo Bolsonaro e o Pix
As declarações do deputado cassado Eduardo Bolsonaro, feitas a partir dos Estados Unidos, também foram abordadas na entrevista.
Flávio Bolsonaro defendeu o irmão, embora tenha ressaltado discordâncias pontuais.
Sobre a comemoração de Eduardo nas redes sociais após o primeiro tarifaço do presidente americano Donald Trump, Flávio afirmou que a decisão sobre os produtos brasileiros não partiu do irmão.
"Acho que ele errou ao agradecer com relação às tarifas, mas o trabalho que ele fez lá foi para conscientizar. A decisão de tarifar, quem tomou foi o governo americano, não foi o Eduardo Bolsonaro. Ele não tem absolutamente nada a ver", disse.
Sobre a declaração de Eduardo a respeito do sistema Zelle, lida como sugestão para substituir o Pix pelo modelo de pagamento norte-americano, Flávio foi enfático.
"O que o Eduardo falou, na verdade, foi distorcido. O Pix é um meio de pagamento criado no governo Bolsonaro e não tem nem como sofrer sanção americana", justificou.
"Estou sendo (enfático) aqui: o Pix é inegociável. E ele não quis dizer que o Pix entraria na mesa de negociação", completou.
Mudanças climáticas
Ao ser questionado sobre desastres climáticos, Flávio Bolsonaro não reconheceu a existência do aquecimento global nem apresentou propostas específicas para o tema.
"Acho que tem eventos climáticos extremos. Tem épocas e épocas, cíclicas, né, que fazem mais calor, épocas que fazem mais frio, que chove mais... E eu não acho que isso tem a ver diretamente só com a influência do ser humano no meio ambiente", respondeu, contrariando o consenso científico sobre o assunto.
A entrevista de Flávio Bolsonaro à TV Globo reuniu os principais temas que cercam sua candidatura, desde polêmicas sobre financiamento de filme e declarações sobre urnas até críticas ao governo Lula e posições sobre economia e meio ambiente.
O candidato admitiu erros pontuais, mas manteve suas posições centrais ao longo de toda a conversa.