Youtuber Eduardo Razuk é preso após movimentar R$100 milhões com rifas de carros

Influenciador foi preso em operação contra lavagem de dinheiro e sorteios ilegais - Imagem: Reprodução
Eduardo Razuk foi preso na Operação Rodas da Sorte por rifas ilegais de carros de luxo e suspeita de lavagem de R$ 100 milhões
A Polícia Civil prendeu o influencer Eduardo Razuk, seu irmão Rafael Razuk e outros dois homens na Operação Rodas da Sorte, em Mato Grosso do Sul. O esquema investigado envolve mais de R$ 100 milhões movimentados em apenas seis meses por meio de rifas de carros de luxo consideradas ilegais, além de suspeita de lavagem de dinheiro por meio de empresas em outros estados.
Segundo o delegado Pedro Henrique Pilar Cunha, responsável pela investigação, Eduardo Razuk promovia desde 2019 uma modalidade de sorteio classificada pela polícia como loteria não autorizada. A defesa de Eduardo e Rafael afirma que os sorteios eram legais e respeitavam as regras específicas do setor, mas os advogados disseram que ainda não tiveram acesso à investigação nem à decisão judicial.
Por que a rifa é considerada ilegal?
Para entender o caso, é preciso distinguir entre uma rifa e uma promoção comercial autorizada.
Segundo o Ministério da Fazenda, rifas são proibidas no Brasil e são definidas como sorteios realizados por meio da venda de bilhetes numerados. A única exceção prevista envolve entidades beneficentes, dentro das condições estabelecidas pela legislação.
Já as promoções comerciais, que podem distribuir prêmios como estratégia de publicidade de produtos, serviços ou marcas, são reguladas pela Lei nº 5.768/1971 e dependem de autorização.
Atualmente, a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, é responsável por regular, autorizar e fiscalizar essas promoções no país, por meio do Sistema de Controle de Promoção Comercial (SCPC).
Nesse ponto entra a investigação contra Eduardo Razuk. Segundo Cunha, as cotas vendidas nas redes sociais faziam parte de uma modalidade de sorteio não permitida e sem autorização considerada válida pela polícia.
"Promovia o intermédio entre eles e uma outra empresa, no estado da Paraíba, para possibilitar uma autorização de uma entidade que não tem atribuição nem competência para tanto, e uma modalidade de sorteio que não é permitida no nosso ordenamento jurídico", afirmou o delegado.
Como o esquema ganhava aparência de legalidade?
A Polícia Civil identificou uma mudança na forma de atuação do grupo ao longo dos anos. De 2019 a 2025, segundo Cunha, as rifas e a suposta lavagem dos valores estavam concentradas em Campo Grande.
A mudança teria ocorrido em 2025, após operações policiais em diferentes estados passarem a atingir outros influenciadores envolvidos com rifas consideradas ilegais.
"Outros influenciadores que praticavam o mesmo ilícito passaram a buscar formas de sofisticar tanto a forma de lavagem quanto dar um ar de legalidade às rifas ilegais que praticavam", afirmou Cunha.
Foi nesse contexto que Eduardo Razuk teria se associado a uma empresa do Rio de Janeiro e outra da Paraíba. A empresa carioca funcionaria como intermediária entre influenciadores digitais e a empresa paraibana, apresentando uma suposta autorização para os sorteios.
"Formava-se esse engodo com vistas a dar um suposto ar de legalidade [...] à modalidade ilícita praticada pelos envolvidos", disse o delegado.
Na tese da polícia, eram duas frentes simultâneas: fazer a rifa ilegal parecer regular e sofisticar a lavagem do dinheiro obtido com ela.
"Eles propiciavam um ar de legalidade às rifas ilegais, um falso ar de legalidade, e, ao mesmo tempo, promoviam uma sofisticação da lavagem de dinheiro obtida com essas rifas ilegais", afirmou Cunha.
E onde entra a lavagem de dinheiro?
Segundo a investigação, como os recursos teriam sido obtidos por meio de uma atividade considerada ilícita, a tentativa de ocultar ou dissimular a origem desse dinheiro configura a suspeita de lavagem.
"Passou a realizar também a lavagem desse valor, que nada mais é do que ocultar e dissimular a origem ilícita desses valores [...] multimilionários, que ele angariava com essa prática ilegal", explicou Cunha.
A intenção, segundo o delegado, seria fazer com que os valores multimilionários arrecadados com os sorteios passassem pela estrutura e retornassem aos destinatários com aparência de origem lícita.
A investigação também apura associação criminosa, relacionada à atuação conjunta dos envolvidos na suposta lavagem.
A estrutura investigada ultrapassava Mato Grosso do Sul. Dos quatro mandados de prisão preventiva cumpridos na Operação Rodas da Sorte, dois foram em Campo Grande, um em João Pessoa (PB) e outro no Rio de Janeiro (RJ).
Além de Eduardo e Rafael, um homem de 43 anos foi preso em João Pessoa e outro de 46 anos foi preso no Rio.
A Polícia Civil afirma ainda ter encontrado indícios de que a empresa do Rio de Janeiro prestava supostas "soluções de sorteios" para outros influenciadores digitais investigados em casos de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas, embora a polícia não tenha afirmado que o dinheiro movimentado no caso de Eduardo Razuk tenha relação com o tráfico.
Os carros eram entregues aos vencedores?
Até o momento, a Polícia Civil afirma que não identificou fraude nos resultados dos sorteios.
Segundo a investigação, a ilegalidade apontada não depende de o carro ter sido ou não entregue ao vencedor. A suspeita está na modalidade do sorteio, na ausência de autorização válida e na suposta lavagem dos valores arrecadados.
Cunha ressalta que a falta de autorização também impede a fiscalização dos sorteios.
"A princípio não se levantou nenhuma fraude nesse sentido, mas também não tem como se levantar se não há uma fiscalização. Isso vai ser apurado no decorrer das investigações, se houve ou não algum tipo de fraude."
O delegado afirmou ainda que a ausência de fiscalização pode permitir que valores provenientes de outros crimes sejam misturados ao dinheiro movimentado pelas rifas e submetidos à lavagem, embora essa possibilidade ainda precise ser apurada com a análise do material apreendido.
Quanto a quem comprou cotas ou recebeu prêmios, o delegado afirmou que, a princípio, essas pessoas não serão responsabilizadas criminalmente.
"As pessoas que compram rifas, que participaram, a princípio, não."
A situação pode mudar caso a investigação encontre indícios de envolvimento efetivo dessas pessoas com os crimes apurados.
R$ 500 milhões bloqueados e 22 carros apreendidos
A Operação Rodas da Sorte cumpriu quatro mandados de prisão preventiva e 11 mandados de busca domiciliar, sendo quatro em Campo Grande, quatro na Paraíba e três no Rio de Janeiro.
Foram apreendidos 22 veículos de alto padrão e dois relógios de luxo. A Justiça determinou ainda a indisponibilidade de cinco imóveis e aproximadamente R$ 500 milhões em contas bancárias dos investigados.
Celulares e outros dispositivos também foram recolhidos e serão analisados pela Dercc para verificar a existência de outros possíveis envolvidos ou novas práticas ilícitas.
Os advogados Tiago Bunning e Heitor Matos, que representam Eduardo e Rafael Razuk, enviaram uma nota ao g1: "Ainda não temos acesso à investigação e a decisão judicial, mas podemos antecipar que os sorteios realizados são legais. A operação respeita todo o regramento específico do setor, não havendo qualquer irregularidade. Após ter acesso ao procedimento podemos prestar novos esclarecimentos."