Christopher Nolan critica análises amadoras sobre "A odisseia"

Foto: Divulgação
Diretor de "A Odisseia" afirma que identificar recursos narrativos de um filme não invalida seu valor artístico
O cineasta Christopher Nolan, de 56 anos, defendeu o valor artístico dos filmes mesmo quando o público consegue identificar os recursos narrativos utilizados. Em entrevista ao podcaster Zhong Shu, o diretor comentou a repercussão de "A Odisseia", sua adaptação do poema épico de Homero, que vem dividindo opiniões desde o lançamento e já se aproxima de US$ 1 bilhão em arrecadação mundial após três semanas em cartaz. Na conversa, Christopher Nolan abordou uma crítica recorrente feita por parte do público: a de que certos filmes constroem personagens de forma calculada para provocar emoções específicas no espectador.
Para o vencedor do Oscar, reconhecer esse mecanismo não o torna inválido. "A crítica que costuma ser feita aos filmes em geral é: "Ah, o personagem precisa ser construído de uma forma que gere empatia, então ele é manipulado de diferentes maneiras ou alterado de determinadas formas". E essa é, de certa forma, uma falha fundamental da crítica cinematográfica ou da crítica de narrativa. Porque ser capaz de identificar o mecanismo não invalida o mecanismo." O diretor deixou claro que sua crítica se dirige principalmente a análises feitas por espectadores sem formação específica em cinema.
Para Christopher Nolan, há uma diferença entre identificar um recurso narrativo e compreender sua função dentro da obra. "Estou falando mais da crítica amadora, porque essas pessoas sentem que identificaram o mecanismo e acreditam que isso o invalida. Isso pode ser verdade em relação a alguns elementos, e a gramática do cinema, a linguagem cinematográfica, evolui com isso. Então, quando um recurso narrativo se torna familiar demais para o público, ele precisa ser modificado."
Christopher Nolan também destacou que os cineastas trabalham a partir de uma linguagem compartilhada com o público, construída ao longo de décadas de história do cinema. "Mas nós, como cineastas, fazemos uso dessa linguagem comum. Construímos a partir desse entendimento. Nosso público assistiu a muitos filmes e compreende essa linguagem." Enquanto o filme avança nas bilheterias, "A Odisseia" também enfrenta críticas contundentes. A tradutora da versão em inglês do poema original, Emily Wilson, publicou uma avaliação negativa na London Review of Books, apontando diversas deficiências na adaptação. "A Odisseia de Nolan carece de muitos dos elementos que tornam o poema grandioso. Não tem nada de convincente a dizer sobre tempo, memória, história, guerra ou sobre a relação entre o retorno glorioso de um guerreiro e as vidas de sua família, adversários, companheiros, amigos e vizinhos", escreveu ela.
Emily Wilson foi ainda mais direta ao detalhar suas objeções: "Falta profundidade psicológica, emocional, política e ética. Sua estrutura narrativa é artificial. A escrita é péssima. Nenhum dos personagens tem uma motivação convincente para suas ações ou palavras. Não há cenas de sexo, e toda a comida parece horrível". Assim, Christopher Nolan se vê no centro de um debate que opõe o sucesso comercial de "A Odisseia" às críticas de especialistas e do público em geral, enquanto defende sua visão sobre os limites da análise cinematográfica amadora.