Flávio Bolsonaro mantém Alfredo Gaspar como vice apesar de reação no PL

Alfredo Gaspar e Flávio Bolsonaro - Foto: Vittor Sales/Divulgação
Cúpula do PL sustenta Alfredo Gaspar na chapa e tenta contornar acusações antes do início da propaganda eleitoral
A cúpula do PL não trabalha, ao menos por enquanto, com a possibilidade de retirar Alfredo Gaspar da chapa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O deputado foi anunciado como candidato a vice-presidente na quarta-feira (5/8), mas a escolha gerou contrariedade entre aliados que esperavam uma mulher para ocupar a vaga. A reação foi mais intensa entre integrantes da ala feminina do partido.
Durante a pré-campanha, o próprio Flávio havia sinalizado preferência por uma mulher, com a intenção de ampliar a candidatura e aproximar o senador de eleitoras que ainda demonstram resistência ao bolsonarismo.
A definição de Alfredo Gaspar trouxe para o centro da campanha dois assuntos que envolvem o deputado: uma acusação de estupro de vulnerável, que ele nega, e questionamentos sobre uma emenda Pix de aproximadamente R$ 6,2 milhões destinada ao município de São José da Laje (AL).
Aliados de Flávio afirmam que as duas questões eram conhecidas antes da escolha e que o grupo responsável pela candidatura decidiu seguir com Gaspar por ter confiança no deputado.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), têm descartado qualquer mudança na composição da chapa.
Segundo um dirigente da legenda, ouvido sob reserva, uma substituição só ocorreria se o próprio Alfredo Gaspar desistisse da candidatura.
A acusação de estupro
A acusação de estupro é a principal preocupação da campanha.
O caso foi levado à Polícia Federal em março pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) e pela senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), durante a fase final da CPMI do INSS, que tinha Alfredo Gaspar como relator.
Os dois parlamentares pediram a investigação da suspeita de que o deputado tivesse mantido relação sexual com uma adolescente de 13 anos, que posteriormente teria engravidado.
A PF pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) autorização para abrir um inquérito, que tramita sob sigilo e está sob relatoria do ministro Gilmar Mendes. Até o momento, o STF não autorizou a abertura da investigação.
Alfredo Gaspar contesta a acusação. Segundo ele, os fatos apresentados pelos parlamentares dizem respeito a seu primo, e não a ele.
O deputado afirma que o parente, quando menor de idade, teve uma relação consensual com outra menor, que engravidou.
Na quinta-feira (6/8), Gaspar recorreu ao STF para tentar acelerar a realização de um exame genético.
A defesa pediu a coleta de material para um teste de DNA, com o objetivo de verificar se o deputado é o pai da criança citada na acusação.
A equipe jurídica da campanha do PL também passou a monitorar o caso.
A questão das emendas
A segunda questão envolve recursos públicos.
O TCU analisou uma "emenda Pix" de cerca de R$ 6,2 milhões indicada por Alfredo Gaspar para São José da Laje. Segundo a auditoria, houve problemas que dificultaram o acompanhamento da execução da verba.
O ministro Flávio Dino, do STF, determinou que a Polícia Federal analise possíveis irregularidades relacionadas a essa e a outras emendas.
Gaspar nega qualquer ilícito. Em nota, ele afirmou que o assunto voltou a ser discutido por causa de um "momento de evidente acirramento político, logo após sua oficialização como candidato à vice-presidência da República pelo PL".
O deputado também disse que a Procuradoria-Geral da República (PGR) analisou os recursos e arquivou o caso. "Não tendo sido identificados elementos que justificassem o prosseguimento", declarou.
A campanha agora tenta aparar as arestas que surgiram em torno do vice antes do início da propaganda eleitoral, em 16 de agosto.
A preocupação é que os episódios sejam usados pelos adversários para atingir Flávio e acabem ocupando espaço maior do que a própria apresentação da chapa.
Como Gaspar foi escolhido
A escolha de Alfredo Gaspar ocorreu depois que a campanha não conseguiu viabilizar uma mulher de outro partido.
Flávio chegou a avaliar nomes como Tereza Cristina (PP-MS), Daniella Marques (Republicanos) e Renata Abreu (Podemos-SP), mas as três possibilidades dependiam de partidos que decidiram não apoiar oficialmente nenhuma candidatura presidencial.
Sem essas alianças, a discussão passou para nomes do próprio PL, e Gaspar acabou escolhido.
A decisão foi tomada em uma articulação restrita a Flávio, Valdemar e Marinho, segundo pessoas próximas ao senador.
Flávio Bolsonaro afirmou, em transmissão ao vivo na quinta-feira, que a definição ocorreu no fim das negociações. De acordo com o senador, Marinho apresentou o nome de Alfredo Gaspar, e ele aprovou a sugestão.
A justificativa pública para a escolha está ligada à trajetória do deputado: antes de chegar à Câmara, Gaspar foi promotor de Justiça e secretário de Segurança Pública de Alagoas.
Na CPMI do INSS, como relator, apresentou pedido de indiciamento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O fato de ser alagoano também foi levado em conta pela campanha, que vê no vice uma possibilidade de ampliar sua presença no eleitorado nordestino.
A escolha, porém, não convenceu todos os integrantes do entorno do candidato.
Há aliados que consideram que Alfredo Gaspar tem pouca capacidade de acrescentar votos e de levar a candidatura para fora do eleitorado já identificado com o bolsonarismo.
A ausência de uma mulher na chapa também gerou críticas entre integrantes do PL que defendiam essa estratégia.
Mesmo sem a vice feminina, Flávio pretende continuar buscando aproximação com as mulheres.
O próximo movimento será neste sábado (8/8), em Itapetininga (SP), onde o senador participará do "Café Entre Elas", encontro organizado pela deputada federal Simone Marquetto (PP-SP).
Simone esteve entre os nomes avaliados para a vice e foi citada por Flávio no discurso que antecedeu o anúncio de Alfredo Gaspar.
O encontro terá discussão sobre políticas públicas para mulheres, e a campanha já apresentou um programa voltado especificamente para esse eleitorado.
Simone Marquetto afirmou que a reunião não foi criada em resposta à reação à escolha do vice.
Segundo a parlamentar, o compromisso havia sido marcado anteriormente, e Flávio confirmou que participaria na noite de segunda-feira (3/8), antes da definição de Alfredo Gaspar e da repercussão em torno do anúncio.