Brasil prevê testes com órgãos de porcos em humanos a partir de 2030

O transplante de órgãos entre espécies diferentes é chamado de xenotransplante. Os casos mais comuns são de transplantes de órgãos e tecidos de porcos para humanos - Foto: Freepik
Do primeiro coração de porco implantado em humano aos ensaios clínicos aprovados pelo FDA, o xenotransplante ganha escala global
O primeiro porco clonado da América Latina para transplante de órgãos em seres humanos nasceu no Brasil em 24 de março deste ano. A estimativa é que os primeiros testes clínicos no país ocorram por volta de 2030, a depender dos resultados das próximas etapas e das aprovações regulatórias.
Enquanto isso, o cenário mundial já registra avanços concretos nessa área. O marco inicial do xenotransplante moderno ocorreu em janeiro de 2022, quando o americano David Bennett se tornou a primeira pessoa a receber um coração de porco geneticamente modificado, em cirurgia realizada pela Universidade de Maryland. Ele morreu dois meses depois, mas o procedimento demonstrou, pela primeira vez, a viabilidade do transplante entre as duas espécies.
Os avanços seguiram em ritmo acelerado nos anos seguintes:
Primeiro rim suíno em paciente vivo: Em março de 2024, o Massachusetts General Hospital (MGH) realizou o primeiro transplante de rim suíno geneticamente editado em um paciente vivo, Richard Slayman, que sobreviveu cerca de dois meses após o procedimento.
130 dias de funcionamento: Em novembro do mesmo ano, a NYU Langone transplantou um rim de porco em Towana Looney, que permaneceu com o órgão funcionando por 130 dias, ampliando o registro de sobrevida até então documentado.
Recorde de 271 dias: Em janeiro de 2025, o MGH realizou um segundo xenotransplante renal, desta vez com um rim de 69 edições genéticas, no paciente Tim Andrews, que permaneceu com o órgão por 271 dias — o registro de sobrevida mais longo até então documentado.
Esses casos isolados, autorizados por vias de uso compassivo ou acesso expandido da agência regulatória dos Estados Unidos (FDA), abriram caminho para que, em 2025, a própria FDA aprovasse os primeiros ensaios clínicos multicêntricos de xenotransplante renal.
Os estudos são conduzidos pelas empresas United Therapeutics e eGenesis, com previsão de incluir dezenas de pacientes em diferentes centros de transplante nos Estados Unidos.
No campo científico, achados publicados em periódicos como o New England Journal of Medicine e a Nature já documentam episódios de rejeição mediada por células T revertidos com intensificação da imunossupressão. Os dados mostram que a compatibilidade genética resolve parte, mas não a totalidade, dos desafios imunológicos do procedimento.
A China também avança nessa área. Pesquisadores do Hospital Xi"jing, na província de Shaanxi, relataram neste ano um xenotransplante renal suíno-humano com um enxerto de seis edições genéticas funcionando havia quase oito meses em uma paciente. O mesmo grupo já havia realizado o primeiro xenotransplante hepático do mundo, consolidando o país como um dos protagonistas dessa corrida científica.
O cenário global do xenotransplante aponta para uma transição gradual dos casos isolados para ensaios clínicos estruturados, com o Brasil se posicionando para integrar esse movimento a partir da próxima década.