Venezuela busca por 30 mil desaparecidos 2 semanas após terremotos

Foto: X/Reprodução
Duas semanas após os terremotos, a Venezuela registra mais de 30 mil desaparecidos e equipes de resgate focam na localização de corpos
Os fortes terremotos que sacudiram a Venezuela no fim de junho completam duas semanas nesta quarta-feira (7/7), enquanto o país segue enfrentando a árdua busca por desaparecidos entre os escombros, com chances quase nulas de encontrar sobreviventes. O site Desaparecidos Terremoto Venezuela, criado pela sociedade civil, registra mais de 30 mil pessoas com paradeiro desconhecido, sem que o governo tenha divulgado uma estimativa oficial sobre esse número. O balanço mais recente do governo venezuelano aponta ao menos 3.685 mortos e 17.907 pessoas afetadas diretamente pelos abalos. Além disso, 86.794 famílias receberam assistência e 856 edifícios sofreram danos, dos quais 190 desabaram completamente. Os tremores foram os mais intensos a atingirem o país desde 1900.
A dor e a raiva em La Guaira
Em La Guaira, estado mais afetado pelos tremores, a esperança de encontrar familiares ou amigos com vida tem diminuído com o passar dos dias. O jornalista venezuelano Marco David Valverde acompanhou de perto a situação na região e descreveu como o sentimento da população foi se transformando ao longo dos dias. "Entre o domingo e terça, e todos os dias depois em que estive [em La Guaira], eu tenho uma percepção: No domingo ainda havia muita gente esperançada. Obviamente, estavam pensando que poderiam encontrar com vida seus familiares. Já durante a semana, em relação ao domingo, já começou a haver resignação. E com a resignação, muita raiva. Muita raiva pela inação do Estado", afirmou Valverde.
Apesar do cenário devastador, os venezuelanos tentam manter uma rotina dentro do possível. Segundo Valverde, a população busca preservar alguma normalidade em meio ao caos. "Tratam de fazer uma jornada e levar uma vida normal dentro dessa complexidade anormal. Cozinhar, organizar-se para limpar. Aos filhos oferecem entretenimento, filmes, jogos, campo, etc. Também transmitem os jogos da Copa do Mundo em alguns albergues. Então, com isso, é como sobreviver em meio à dor", comentou o jornalista.
Valverde também aponta que, com o tempo, as autoridades venezuelanas passaram a demonstrar "favoritismo" nas operações de resgate, priorizando a busca por desaparecidos com vínculos militares ou ligados ao governo. O jornalista ainda critica a falta de preparo do país ao longo das últimas décadas para enfrentar desastres naturais dessa magnitude. "Como se nesses 27 anos de chavismo [período dos ex-presidentes Hugo Chaves e Nicolás Maduro à frente da Venezuela] não tivessem tido a oportunidade, e sobretudo dinheiro, os fundos petroleiros, para poder fazer algo melhor, e ter a infraestrutura necessária, o pessoal humano e os equipamentos para enfrentar uma contingência como essa", comentou.
Equipes de resgate focadas na localização de corpos
Segundo o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, 6.462 pessoas foram resgatadas e 86 mil famílias atendidas até o momento. Mais de 4.300 resgatistas internacionais trabalham no país ao lado de outros 27 mil voluntários. Com o passar dos dias, no entanto, as equipes de resgate já não atuam com a perspectiva de encontrar sobreviventes, mas sim de localizar corpos.
O tenente-coronel Rafael Cosendey, que lidera a equipe enviada à Venezuela pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG), detalhou os principais obstáculos enfrentados nas buscas: o peso dos escombros sobre os corpos, a profundidade das áreas de busca e o forte calor, com temperaturas entre 30 e 35º Celsius nos últimos dias. A equipe mineira, composta por 31 profissionais, já localizou 19 mortos.
"As chances de sobreviventes é quase nula, quase zero", explicou o militar. "Os trabalhos estão focados agora na localização e retirada de corpos, que também é difícil". Cosendey acrescentou que as buscas seguem padrões rigorosos de segurança para proteger as próprias equipes diante do risco de novos tremores.
Apesar do cenário de destruição, o militar brasileiro destacou o envolvimento da população local nas operações. "Existe um envolvimento muito intenso de civis e ex-moradores das áreas afetadas. Eles se envolvem diretamente nas buscas, com coordenações realizadas por profissionais, para evitar possíveis novas vítimas. Muitos deles perderam famílias inteiras, amigos, e desejam encontra-los", revelou Cosendey. "Esse é um sentimento de humanidade que dificilmente vemos em outros cenários."
Duas semanas após os terremotos, a Venezuela segue diante de um cenário de destruição e luto, com mais de 30 mil desaparecidos, milhares de famílias desabrigadas e equipes de resgate nacionais e internacionais trabalhando ininterruptamente para recuperar corpos entre os escombros.