Medo, estrutura e desigualdade elevam taxas de cesárea no país, aponta Unicef

Mulher grávida | cesárea | parto - Foto: Pixabay
Pesquisa do Unicef aponta fatores psicológicos, sociais e estruturais por trás das altas taxas de cesariana no Brasil
O que leva tantas gestantes brasileiras a optarem pela cesariana em vez do parto normal? Segundo pesquisa divulgada pelo Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), a resposta não está em uma escolha individual isolada, mas em uma combinação de fatores psicológicos, sociais e estruturais que moldam a decisão ao longo da gestação.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que até 15% dos nascimentos ocorram por cesariana, procedimento que salva vidas em emergências, mas que também envolve riscos por ser uma cirurgia extensa e complexa. No Brasil, no entanto, a proporção ultrapassa 60%, chegando a quase 90% na rede privada de saúde, segundo dados oficiais. O país figura entre os três com as maiores taxas de cesárea no mundo.
O estudo partiu de uma pesquisa divulgada em 2014 pela Fiocruz, segundo a qual sete em cada dez gestantes desejavam ter um parto normal no início da gravidez. O objetivo foi entender o que acontece durante a gestação ou o parto para que boa parte dessas mulheres acabe passando por uma cesariana.
Intitulada "Já decidiu sobre o parto? Influências e barreiras na decisão da via de nascimento entre gestantes", a pesquisa ouviu 94 gestantes e puérperas e 37 profissionais de saúde em São Paulo (SP) e Belém (PA), tanto na rede pública quanto na privada.
Na capital paulista, em 2024, 56,19% dos nascimentos foram por cesariana, chegando a 71,05% nos hospitais privados. Em Belém, a taxa sobe para 69,28% dos nascimentos em geral e alcança 80,41% na rede particular. Ambas as cidades possuem leis que garantem à gestante o direito de solicitar a cirurgia no momento do parto.
O Unicef identificou influências positivas e barreiras que favorecem ou dificultam a escolha pelo parto normal. "Embora o desejo de protagonismo e de uma experiência positiva esteja presente, outras condições sociais e estruturais também são determinantes na forma como cada gestante vivencia e constrói sua decisão", conclui o estudo.
Fatores psicológicos e sociais
No plano psicológico, as participantes relataram que a recuperação mais rápida favorece a escolha pelo parto normal, enquanto o medo da dor pesa a favor da cesariana. Essas crenças estão diretamente ligadas ao plano social, já que as gestantes são fortemente influenciadas pelas experiências de outras mulheres, especialmente mães, avós e demais familiares.
Segundo a especialista em Saúde e Nutrição do Unicef no Brasil Stephanie Amaral, essas histórias contribuem para a construção social do parto normal como uma experiência de grande sofrimento. Mas, na realidade, muitas dessas situações configuram violência obstétrica e não deveriam ter ocorrido. "Relatos de parto altamente desrespeitosos, com episiotomia presente, com vários procedimentos e intervenções que não eram necessárias, com indução de parto sem necessidade... Todas essas violências estão muito presentes no imaginário das pessoas e na vivência de outras", complementa Stephanie.
Entre as usuárias do SUS, as experiências familiares tendem a valorizar mais o parto normal, em razão das dificuldades enfrentadas após a cirurgia. Contudo, de acordo com Stephanie, isso reflete uma faceta cruel da desigualdade social. "Essa escolha pelo parto normal está muito relacionada à necessidade de ter uma recuperação rápida, por não ter uma rede de apoio para cuidar do bebê e até de outros filhos e da casa", afirma a especialista do Unicef.
Já entre as usuárias do setor privado, a ausência de rede de apoio como desvantagem da cesárea sequer foi mencionada. "No setor privado, as mulheres que escolhem o parto normal fazem isso porque entendem os benefícios para a mãe e para o bebê. Então, elas se preparam e muitas vezes têm condição de contratar uma equipe própria para ter realmente uma experiência positiva de parto", explica Stephanie.
Outra barreira identificada exclusivamente entre usuárias do SUS é o desejo de realizar laqueadura, o que leva algumas gestantes a optarem pela cesariana mesmo reconhecendo os riscos e o desconforto do pós-operatório. Segundo Stephanie, isso evidencia a falta de orientação sobre outros métodos contraceptivos de longa duração disponíveis no SUS, como o implante subdérmico e o DIU, ou mesmo sobre a possibilidade de realizar a laqueadura após o parto normal.
Fatores estruturais e diferenças entre as redes
Entre os fatores estruturais, a atuação das equipes de saúde aparece tanto como facilitador quanto como barreira. As equipes de pré-natal mantêm maior autoridade frente ao volume de conteúdo das redes sociais, e iniciativas institucionais de incentivo ao parto normal fazem diferença. Por outro lado, as gestantes relatam receber informações superficiais sobre o trabalho de parto durante o pré-natal e desconhecer a possibilidade de elaborar um plano de parto, especialmente no SUS.
A pesquisa também identificou baixa adesão às atividades de orientação, início tardio do pré-natal e acolhimento inadequado de adolescentes. As gestantes e puérperas do setor privado demonstraram maior preparo por iniciativa própria, chegando a trocar de profissional diversas vezes diante da recusa em realizar o parto vaginal.
No SUS, o cenário é diferente. "No setor público, elas falam assim: "Ah, não adianta me preparar. Eu não quero ter expectativa sobre o parto porque na verdade quem vai decidir vai ser o médico". Então, tem esse sentimento de impotência. Para que eu vou criar um monte de expectativa, sendo que, lá, vai acontecer o que a equipe médica quer fazer, dependendo se o médico vai com a minha cara ou não?", relata Stephanie Amaral.
Outro ponto de diferença entre as duas redes é o acesso à analgesia, amplamente disponível na rede privada e restrita a poucos hospitais de referência no SUS. "O parto é um momento muito imprevisível. A gente não sabe quanto tempo ele vai durar, qual o nível de dor que essa mulher vai tolerar, se ela vai precisar ou não de analgesia para não entrar em sofrimento. Então, ter analgesia disponível é uma questão de dignidade", defende a especialista do Unicef.
Recomendações do Unicef
A ampliação da oferta de analgesia e de métodos não farmacológicos para alívio da dor é uma das principais recomendações do Unicef para gestores públicos e privados. Entre as demais recomendações estão:
Qualificar o pré-natal com informações claras sobre fases do trabalho de parto, manejo da dor, Plano de Parto, direitos e planejamento reprodutivo, incluindo orientação sobre laqueadura após parto vaginal e métodos contraceptivos reversíveis de longa duração.
Incluir parceiros e acompanhantes no pré-natal e nas orientações sobre trabalho de parto, além de reconhecer e ampliar a atuação de doulas como apoio físico, emocional e informacional.
Mobilizar mães, avós, sogras, parteiras e referências locais como aliadas do cuidado, reconhecendo saberes tradicionais em territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos, e fortalecendo conteúdos confiáveis nos espaços digitais.
Ampliar políticas públicas de apoio às mães antes, durante e depois do parto, incluindo busca ativa para adesão precoce ao pré-natal, garantia do Plano de Parto nas maternidades, ampliação de Centros de Parto Normal e expansão do acesso à analgesia e à laqueadura após parto vaginal.
Revisar modelos que favorecem a cesariana sem indicação médica, fortalecer a segurança jurídica das equipes para decisões baseadas em evidências e criar modelos de financiamento que não incentivem cesarianas sem indicação clínica.
O Unicef também lançou a campanha "Parto normal. Uma escolha que merece respeito", que convida gestantes, famílias, redes de apoio e profissionais de saúde a refletirem sobre como opiniões externas podem pressionar as mulheres, contrariando seus desejos e as melhores recomendações de saúde.
"A OMS traz esse conceito de experiência positiva de parto. Então, não é um parto qualquer, só para as crianças nascerem e continuarem saudáveis e vivas. A gente tá falando de uma experiência que realmente deve ser respeitosa, que fique como algo importante para a mulher", afirma Stephanie.
"A gente teve pessoas que falaram assim: "Deus me livre ter outro filho!", porque a experiência foi tão ruim que ela não quer passar por isso de novo. Mas o parto não precisa ser traumático. Ele é uma experiência intensa, mas que pode ser positiva e transformadora", conclui Stephanie Amaral.
O estudo do Unicef reforça que reduzir as taxas de cesariana no Brasil exige mudanças estruturais profundas, que vão desde a qualificação do pré-natal até a garantia de acesso igualitário à analgesia e ao respeito à autonomia das gestantes em ambas as redes de saúde.