PF deflagra 10ª fase da Operação Compliance Zero e tem Thiago Miranda como alvo

O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o empresário Thiago Miranda, dono da Agência Mithi — Foto: Ana Paula Paiva/Valor e Reprodução
Publicitário ligado ao Banco Master é investigado por obter dados sigilosos de jornalistas e executivo para intimidação
A Polícia Federal realizou, nesta quinta-feira, uma operação para investigar o publicitário Thiago Miranda, apontado como figura central em um esquema de intimidação contra a jornalista Malu Gaspar, colunista do GLOBO, e outras pessoas consideradas "obstáculos" pelo grupo investigado.
A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que ressaltou o "grau de periculosidade da organização, conferindo-lhe contornos de máfia".
Segundo a investigação, Thiago Miranda atuou ao lado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para obter dados sigilosos da jornalista, incluindo informações sobre sua família, contas bancárias e endereço. A Procuradoria-Geral da República (PGR) endossou o pedido da PF pela realização da operação.
A apuração indica que os investigados utilizaram uma plataforma que oferece serviços de venda de dados não autorizados, inclusive financeiros, para levantar informações sobre Malu Gaspar. O objetivo, conforme a PF, era encontrar "elementos potencialmente desabonadores" contra a profissional.
O ministro André Mendonça destacou na decisão o papel central de Thiago Miranda no esquema:
"Os elementos analisados apontam que Thiago Miranda desempenhava papel central nessas iniciativas, sendo o principal responsável por realizar pesquisas e levantamentos acerca da vida privada da jornalista em questão. Ainda de acordo com as conversas analisadas, Thiago Miranda costumava informar o andamento das buscas, relatar sobre a análise de processos judiciais antigos e coordenar a mobilização de equipe dedicada a localizar informações que pudessem ser consideradas sensíveis ou comprometedoras para a jornalista".
Ao solicitar as medidas, a PF afirmou que Thiago Miranda e Vorcaro agiram para "proteger o núcleo dirigente da organização criminosa; manipular a opinião pública; coagir, intimidar e violar dados sigilosos de jornalistas, concorrentes e pessoas ligadas ao presidente do Banco Central".
A corporação também apontou "latente abuso ao buscar informações de cunho familiar para atingir os objetivos de intimidação e coação", fazendo referência ao crime de invasão de dispositivo informático, previsto no artigo 154-A do Código Penal.
O mesmo modus operandi teria sido empregado contra outras pessoas vistas como "obstáculos", entre elas o executivo Milton Maluhy, CEO do Itaú, banco concorrente do Master.
O inquérito revela ainda que Thiago Miranda usou recursos oriundos das "fraudes financeiras" do Master para promover uma "campanha de desinformação na mídia".
Os mandados de busca e apreensão autorizam a apreensão de celulares, equipamentos eletrônicos e documentos, além da extração de conversas contidas nos aparelhos, inclusive na nuvem.
As mensagens que revelam o esquema
Diálogos obtidos pela PF mostram que a insatisfação de Thiago Miranda e Vorcaro surgiu a partir de reportagens que abordavam investigações sobre o Banco Master, envolvendo operações fraudulentas e manipulação de preços.
Após reclamações do banqueiro, o publicitário afirmou que iria "revirar a vida" da jornalista e repassou a Vorcaro informações sobre familiares, contas bancárias e o endereço da profissional.
As mensagens extraídas do celular de Vorcaro, em posse da PF, são de março e abril de 2025, período em que o Master já enfrentava a crise financeira que culminaria, em novembro do mesmo ano, na decretação de sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central.
No diálogo, Vorcaro afirma que precisava "frear a Malu Gaspar", que "iria dar trabalho nos próximos dias" após ter tido uma entrevista "bem ruim" com ela.
Thiago Miranda concordou com o ex-banqueiro e encaminhou uma reportagem da jornalista sobre as suspeitas de fraude envolvendo o banco.
As mensagens foram divulgadas pelo site Fatos on-line e confirmadas pelo GLOBO com investigadores.
No dia seguinte, Thiago Miranda enviou a Vorcaro outra reportagem, na qual a colunista divulgou que as demonstrações financeiras do Master em 2024 mostravam que o banco não tinha disponibilidade de caixa para honrar todos os compromissos assumidos até o final de 2025. À época, o Master estava sendo negociado com o Banco de Brasília (BRB), processo que terminou sendo reprovado pelo BC.
"Ela não para", escreveu Thiago Miranda, que também enviou dados sobre as contas bancárias e o rendimento mensal de Malu.
"Realmente, meu amigo, não tem absolutamente nada", desabafou o publicitário, que em outro trecho da conversa afirma que precisava "arrumar uma forma de calar essa mulher".
Em mensagens posteriores, Vorcaro menciona a possibilidade de fazer uma "proposta milionária" para Malu e sugere que o próprio Thiago Miranda deveria tentar a contratação.
Sobre os fatos, O GLOBO publicou nota de repúdio:
"O GLOBO repudia a devassa ordenada pelo investigado na vida da colunista Malu Gaspar, uma das mais respeitadas jornalistas do país. A ação, como deixa claro a troca de mensagens, visava calar a voz da imprensa e revela um modus operandi do grupo criminoso, que já havia ameaçado de ato violento outro colunista do jornal. Os envolvidos nessa trama de perseguição devem ser investigados com rigor. O GLOBO e seus jornalistas não se intimidarão e seguirão acompanhando o caso e trazendo luz às informações de interesse público."
A Associação Nacional de Jornais (ANJ) também divulgou nota afirmando receber "com indignação" as informações sobre a tentativa de intimidação contra Malu Gaspar, classificando a atuação atribuída a Daniel Vorcaro e Thiago Miranda como "métodos mafiosos".
A entidade cobrou investigação imediata sobre o acesso aos dados pessoais da colunista e defendeu a proteção garantida pela LGPD.
A defesa de Thiago Miranda informou que não teve acesso às mensagens e arquivos citados e, por isso, não tem condição de se manifestar sobre o conteúdo. A defesa também repudiou o que classifica como "vazamento seletivo" da investigação.