Tarifaço dos EUA eleva Brasil ao 2º país mais taxado

Com tarifas de 25% em vigor, Brasil supera 11 países no ranking de mais taxados pelos EUA, ficando atrás apenas da China
Os Estados Unidos passaram a cobrar tarifas de 25% sobre produtos brasileiros nesta terça-feira (22), data prevista pelo governo americano para a entrada em vigor da medida. A alíquota foi confirmada na noite de 15 de julho e é resultado de uma investigação conduzida pelo USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, iniciada em julho de 2025.
Com o tarifaço, o Brasil passa a ser o segundo país mais tarifado pelos Estados Unidos no mundo, atrás apenas da China, segundo dados da iniciativa Global Trade Alert citados pela BBC News. Antes desta rodada, o país ocupava a 13ª posição nesse ranking. Em junho, o governo brasileiro estimou que as tarifas afetarão 21% das exportações nacionais para os americanos.
A investigação que culminou nas tarifas foi aberta em julho de 2025, quando o presidente Donald Trump reagiu ao que chamou de "caça às bruxas" contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O relatório do USTR aponta que políticas brasileiras sobre comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, processamento de patentes e pirataria, etanol e desmatamento ilegal geram insegurança jurídica e competição desleal a empresas americanas. Entre os alvos centrais da investigação estão o Pix e o mercado de etanol. O relatório acusa o Banco Central brasileiro de favorecer o Pix de forma injusta em relação a outros meios de pagamento. No caso do etanol, o USTR sustenta que o Brasil restringiu o acesso do produto americano ao mercado nacional ao encerrar, em 2017, um tratamento tarifário considerado equilibrado entre os dois países. O documento ainda cita decisões do Supremo Tribunal Federal sobre big techs e a Lava Jato, além de mencionar a Rua 25 de Março, centro de comércio popular de São Paulo.
A tarifa global de 10% imposta por Trump em fevereiro de 2026 sobre todos os países permanece em vigor, o que elevaria o total cobrado sobre produtos brasileiros a 35%. Essa primeira alíquota, no entanto, expira ainda em julho, tornando improvável o acúmulo das duas taxas. O cenário pode se agravar. Em conclusões preliminares de outra investigação, também em curso no USTR, o órgão propôs uma alíquota adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros supostamente fabricados com trabalho forçado. Se aplicada, a tarifa sobre o Brasil subiria para 37,5%. Os documentos não esclarecem se as penalidades seriam somadas, e a decisão final cabe ao presidente americano. O governo brasileiro aguarda a definição sobre essa nova taxação, prevista para a terça-feira (28), antes de concluir os ajustes no programa Brasil Soberano. A lista de isenções anunciada junto ao tarifaço ultrapassa 2.100 itens.
Ficaram de fora produtos que, na avaliação americana, poderiam causar desabastecimento interno ou perturbações econômicas se taxados, além de itens que não podem ser produzidos em quantidade suficiente nos EUA. Entre as isenções estão carne, café, laranja e peças para fabricação de aviões. O anúncio de 15 de julho acrescentou novos itens à lista, após a análise de comentários recebidos pelo USTR: café solúvel sem sabor, roupas usadas, determinados produtos de madeira, sucata e resíduos de ferro e aço, couros de animais, ferro-gusa e hidróxido de alumínio.
Antes da confirmação oficial do tarifaço, empresas de grande porte enviaram comentários ao USTR pedindo que a tarifa de 25% não fosse implementada. Coca-Cola, Nestlé, Tesla, Faber-Castell, eBay e Siemens Energy alertaram para riscos às cadeias de suprimentos e para possíveis consequências negativas à economia americana, incluindo aumento de preços. Entidades empresariais brasileiras e americanas também participaram de audiências públicas com o mesmo pleito, argumentando que as tarifas encareceriam alimentos, medicamentos e insumos agrícolas para consumidores nos EUA. Em nota divulgada após a confirmação das tarifas, o governo brasileiro informou que 63 das 78 intervenções feitas por representantes do setor privado brasileiro e norte-americano nas audiências foram contrárias ao tarifaço.
As negociações entre os dois países não chegaram a um acordo. Enquanto funcionários americanos reclamaram do engajamento do Brasil nas tratativas, negociadores brasileiros classificaram as demandas de Washington como "muito ruins e desvantajosas" para a indústria e a agricultura nacionais. O processo chegou a travar por falta de clareza dos EUA sobre pedidos específicos ao Brasil. Autoridades brasileiras consideraram o Pix e o etanol inegociáveis, o que impediu o avanço de um entendimento.