Um milhão de mulheres perdem assistência por cortes no financiamento, diz ONU

Marcha das Mulheres Negras em Brasília
Relatório da ONU Mulheres aponta que 1 milhão de mulheres perderam acesso a serviços essenciais após cortes no financiamento global
Um novo relatório da ONU Mulheres, divulgado nesta sexta-feira em Genebra, revela que pelo menos um milhão de mulheres e meninas perderam acesso a apoio essencial à sobrevivência no último ano. A causa apontada são os cortes significativos no financiamento de doadores globais, que comprometem diretamente a capacidade das organizações de atender às populações mais vulneráveis.
Segundo o levantamento, quase nove em cada dez organizações de mulheres já não conseguem mais atender às necessidades locais, mesmo diante de um aumento expressivo na demanda por serviços desde janeiro de 2025, período que coincide com a maior queda já registrada no financiamento da ajuda humanitária.
O governo Trump cortou bilhões de dólares em ajuda externa ao longo deste ano, e outros grandes doadores internacionais também reduziram seus orçamentos em razão de pressões fiscais e do aumento dos gastos com defesa. Os Estados Unidos eram, até então, o maior doador de ajuda humanitária do mundo, e sua retirada gerou um impacto profundo nas operações de organizações ao redor do globo.
Cerca de 120 milhões de mulheres e meninas precisam de assistência humanitária e proteção em todo o mundo. O relatório da ONU Mulheres ouviu 855 organizações em países como Afeganistão, República Democrática do Congo e Haiti, e constatou que 40% delas correm o risco de encerrar suas atividades — temporária ou permanentemente — no próximo ano devido à escassez de recursos.
A maioria das organizações pesquisadas afirmou não conseguir mais atender aos níveis atuais de necessidade. Sessenta por cento declararam estar alcançando menos mulheres e meninas do que antes de janeiro de 2025, mesmo com o aumento na demanda por seus serviços.
Essa redução está criando lacunas críticas na cobertura humanitária, uma vez que essas organizações são, em muitos casos, os únicos atores capazes de chegar até mulheres e meninas em situação de vulnerabilidade.
"Cada dólar retirado das organizações de mulheres é um dólar retirado das sobreviventes de violência sexual relacionada a conflitos, de mães deslocadas, de meninas forçadas a abandonar a escola e de comunidades que lutam para sobreviver", disse Sofia Calltorp, chefe de Ação Humanitária da ONU Mulheres.
O cenário interno dessas organizações também é preocupante. Sessenta e cinco por cento das entidades lideradas por mulheres relataram que seus funcionários estão trabalhando sem remuneração para manter os serviços em funcionamento. Metade delas introduziu listas de espera ou está sendo obrigada a recusar atendimento a mulheres e meninas, e mais de três quartos afirmam ter reduzido o número de cargos disponíveis.
O relatório da ONU Mulheres reforça o alerta de que a combinação entre aumento da demanda e queda no financiamento está colocando em risco a estrutura de proteção humanitária construída ao longo de anos, especialmente para as populações femininas em zonas de conflito e crise.