Brasil reduz em 86% número de crianças sem vacina, mas sarampo preocupa, diz OMS

Relatório da OMS e Unicef mostra queda de 86% no número de crianças sem vacina DTP no Brasil entre 2023 e 2025
O Brasil registrou uma redução expressiva no número de crianças zero-dose, ou seja, aquelas que não receberam a primeira dose da vacina com componente DTP. No país, essa vacina é representada pela pentavalente, que protege contra difteria, tétano, coqueluche, hepatite B e infecções causadas pelo Haemophilus influenzae tipo b (Hib), bactéria responsável por meningite e pneumonia.
Os números revelam uma queda de 360 mil crianças sem vacinação em 2023 para 255 mil em 2024 e apenas 50 mil em 2025, o que representa uma diminuição de 86,1% na comparação entre 2023 e 2025.
Os dados constam do relatório de estimativas de Cobertura Vacinal Nacional (WUENIC), divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na última terça-feira (14). O estudo consolidou dados anuais de imunização referentes ao período de 2000 a 2025, cruzando registros oficiais reportados pelos 195 países Estados-Membros da OMS e do Unicef, informações de literatura científica e estimativas populacionais da ONU.
A melhora nos indicadores brasileiros é atribuída tanto ao aumento da cobertura vacinal quanto aos aprimoramentos no sistema público de registro e divulgação sobre vacinação. A DTP é o principal parâmetro do levantamento por medir a capacidade do sistema de saúde de fornecer o esquema completo de imunização.
Cobertura vacinal no Brasil e no mundo
Conforme o levantamento, em 2025, 90% dos bebês no mundo receberam pelo menos uma dose da vacina DTP, avanço de apenas um ponto percentual em relação aos três anos anteriores. No mesmo período, 85% completaram o esquema com três doses, média mantida desde 2022.
No Brasil, a cobertura da primeira dose da DTP em 2025 chegou a 98%, a maior desde 2015, enquanto a proteção completa com três doses atingiu 86%, queda de quatro pontos percentuais em relação a 2024, quando havia alcançado 90%.
No que diz respeito à vacina contra o sarampo, os dados globais mostram coberturas bem abaixo da meta de 95% necessária para a imunização coletiva, o que abre precedente para novos surtos. Desde 2000, os indicadores mundiais não ultrapassaram 86%. No Brasil, entre 2024 e 2025, houve queda de seis pontos percentuais na primeira dose (de 96% para 90%) e de cinco pontos na segunda (de 81% para 76%). A OMS e o Unicef adotam o termo genérico "vacina com o componente contra o sarampo" para manter a padronização global.
Desafios para manter o esquema vacinal completo
O abandono do esquema vacinal antes de completar as doses recomendadas é uma tendência global, segundo Luciana Phebo, chefe de Saúde do Unicef no Brasil. Para a especialista, o acesso às vacinas representa o maior desafio para melhorar as coberturas no país. Sem a continuidade da vacinação a partir da primeira dose, as crianças permanecem desprotegidas.
Diversos fatores dificultam esse acesso no Brasil. A dinâmica familiar é um deles: à medida que as crianças crescem, a atenção dos responsáveis tende a se fragmentar entre os demais filhos. O esquema vacinal brasileiro é um dos mais completos do mundo, composto por inúmeros imunobiológicos aplicados em diferentes idades, o que exige atenção redobrada de pais e profissionais de saúde, tornando a Caderneta da Criança um instrumento indispensável.
A rotina também pesa contra a adesão. Com o fim da licença-maternidade e o retorno da mãe ao trabalho, o tempo disponível para ir ao posto de saúde se torna escasso. Diante disso, a oferta de unidades com horários estendidos, como atendimento noturno ou aos finais de semana, torna-se um diferencial decisivo para ampliar a cobertura.
As mudanças climáticas e a violência urbana também criam barreiras logísticas e sociais. Na Amazônia, secas extremas dificultam o transporte de vacinas, medicamentos e insumos para comunidades isoladas. Nas grandes cidades, conflitos armados chegam a paralisar serviços de saúde. Um estudo do Unicef no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, apontou que nos dias de operação policial a vacinação das crianças é diretamente afetada.
"A Estratégia de Saúde da Família e os agentes comunitários são ativos fundamentais do SUS, atuando na busca ativa de não vacinados. No entanto, em um país de dimensões continentais, o acesso à imunização vai muito além da saúde pública. Ele esbarra em múltiplos fatores de vulnerabilidade, como segurança pública, mudanças climáticas, condições trabalhistas e transporte", afirma Luciana.
Para enfrentar esses obstáculos, o Ministério da Saúde e o Unicef incentivam a vacinação nas escolas. "Se o acesso é um problema, vamos levar a vacina até as crianças nas escolas. A educação infantil é um local também onde se promove a saúde. Se tivessem mais unidades de educação infantil, certamente o PSE, o Programa de Saúde nas Escolas, chegaria a mais crianças", comenta Luciana.
Recomendações do relatório
O estudo da OMS e do Unicef aponta caminhos para fortalecer a imunização global:
Fortalecer a imunização em contextos frágeis afetados por conflitos;
Combater informações falsas sobre saúde e vacinação;
Aumentar e sustentar o financiamento doméstico e internacional para programas de imunização;
Investir em sistemas mais robustos de dados de vigilância epidemiológica.
O avanço do Brasil na redução de crianças zero-dose é um resultado expressivo, mas os desafios persistentes — das barreiras de acesso às desigualdades regionais — indicam que ainda há um longo caminho a percorrer para garantir a proteção plena de todas as crianças brasileiras.