Analistas questionam impacto eleitoral de Milei no Brasil

Foto: World Economic Forum/Flickr
Presidente argentino discursou na convenção do PL em São Paulo e reforçou base ideológica da campanha de Flávio, mas analistas questionam impacto eleitoral
O Itamaraty convocou o embaixador argentino no Brasil para transmitir repúdio às declarações do presidente argentino Javier Milei, que subiu ao palco de uma convenção partidária brasileira e chamou o ministro do STF Alexandre de Moraes de "lixo careca". O senador Flávio Bolsonaro (PL) oficializou neste sábado (25/7) sua candidatura à Presidência em um evento no Pacaembu, em São Paulo, que contou com a presença do presidente argentino como principal atração internacional, mesmo sem alianças políticas consolidadas. Milei fez um discurso em espanhol que durou quase meia hora, ao som de rock, associando a candidatura de Flávio a uma "transformação política em curso" na América Latina. Segundo ele, países da região estão se alinhando à direita e abandonando a esquerda, movimento ao qual o Brasil poderia se juntar com a eventual eleição de Flávio Bolsonaro.
Antes de participar da convenção do PL no Pacaembu, Milei esteve no Palácio dos Bandeirantes, onde recebeu do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo Estado de São Paulo. As agendas de Flávio Bolsonaro e de Tarcísio, pré-candidato à reeleição, confirmavam a participação do presidente argentino em ao menos duas atividades no sábado na capital paulista. Esta é a terceira viagem de Milei ao Brasil desde que assumiu a Presidência da Argentina, em dezembro de 2023. Seu plano inicial incluía visitar Jair Bolsonaro (PL), que está em prisão domiciliar em Brasília, mas o ministro Alexandre de Moraes, do STF, negou o pedido, entendendo que Bolsonaro está proibido de receber visitas com finalidade político-eleitoral até o fim das eleições. A decisão ocorreu após Flávio divulgar uma carta escrita pelo pai em apoio à sua pré-candidatura. Os advogados de Bolsonaro recorreram, alegando que a negativa restringe a liberdade de pensamento do ex-presidente, segundo a Folha de São Paulo.
A visita ao Brasil faz parte de uma espécie de turnê pela América Latina. Após o Brasil, Milei seguirá para a posse de Keiko Fujimori no Peru e, em seguida, para o Equador, onde deve realizar conversas com o presidente conservador Daniel Noboa, segundo a Reuters. Na sequência, visitará a Colômbia para a posse de Abelardo de la Espriella, um outsider da direita radical que acaba de vencer as eleições presidenciais no país. Para Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especializada em América Latina, Milei busca consolidar sua liderança na região muito além de apoiar candidatos específicos. "Milei tem esse plano de se consolidar em países onde a direita está crescendo", afirma Bressan. "O interesse dele em estar no Brasil não é só pelo Brasil, é por ele também", completa. "Ele não tem poder para mobilizar tantos votos, mas busca consolidar-se como uma liderança intelectual e política da direita ocidental." Em relação ao impacto eleitoral da presença do argentino no palanque de Flávio, Bressan é cautelosa. "Eu não sei se o Milei vai, de fato, gerar mais transferências de votos, mas reforça a identidade ideológica", diz. "A presença dele energiza, consolida o núcleo duro do eleitorado de direita, mas, muito mais no sentido de um símbolo de coragem discursiva e de radicalismo econômico", prossegue. "Dificilmente a figura de um presidente estrangeiro poderá converter o eleitor de centro ou aquele mais pragmático, porque as preocupações imediatas orbitam em torno da economia doméstica e dos serviços públicos locais." Não é costumeira a visita de um chefe de Estado a uma convenção partidária, mas é condizente com a agenda de Milei em torno de encontros organizados pela direita radical. Em julho de 2024, ele esteve pela primeira vez no Brasil como presidente e participou da Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC), em Balneário Camboriú (SC).
Na ocasião, assim como agora, não realizou compromissos com o governo federal. Lula e Milei só se encontraram no Brasil durante a Cúpula do G20, no Rio de Janeiro, em novembro de 2024. O argentino também esteve em encontros de conservadores nos Estados Unidos e em convenções da legenda de direita radical VOX, na Espanha. Em uma dessas visitas, gerou uma crise diplomática ao chamar Begoña Gómez, esposa do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez, de corrupta, levando o governo espanhol a retirar definitivamente sua embaixadora de Buenos Aires.
Em um momento em que o partido de Flávio é considerado isolado politicamente, sem uma chapa nem apoios partidários definidos, a figura de Milei reforça a base ideológica da campanha do filho mais velho do ex-presidente. O senador enfrenta obstáculos relevantes neste início oficial de campanha: dificuldades para avançar entre as mulheres, que são a maioria do eleitorado, trocas públicas de farpas com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) e seu nome atrelado ao escândalo do Banco Master. Esses fatores levaram partidos do Centrão a declararem neutralidade, ao mesmo tempo em que o STF autorizou a abertura de uma investigação sobre os repasses que Flávio negociou com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção da cinebiografia de seu pai. Apesar das crises, Flávio Bolsonaro segue competitivo na corrida eleitoral. O senador continua em segundo lugar nas pesquisas para o primeiro turno, atrás do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e aparece como único candidato capaz de rivalizar com o petista pela liderança, segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil.
Se o segundo turno fosse hoje, ele teria 42% das intenções de voto ante 46% de Lula. Esse cenário se insere em um contexto mais amplo de avanço da direita radical na América Latina. Com as vitórias recentes no Peru e na Colômbia, o mapa político da região vem se alinhando ideologicamente ao presidente americano Donald Trump. Analistas afirmam que esse movimento pode ter impacto nas eleições brasileiras. "Os americanos estão fazendo um círculo de fogo em torno do Brasil, e isso já está pressionando o país", analisou Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, para a BBC News Brasil em junho. Nesta semana, começaram a valer as novas tarifas impostas por Trump contra o Brasil, algo que Flávio Bolsonaro afirma ter tentado impedir, sem sucesso.
A tentativa de se popularizar fora da Argentina ocorre em um momento de baixa popularidade dentro do país. Segundo pesquisa da AtlasIntel para a Bloomberg Linea, publicada no início de julho, 58% dos argentinos desaprovam o governo Milei. O percentual é ligeiramente mais baixo que o registrado em abril, quando a desaprovação estava em 63%, auge do chamado "escândalo Adorni". O ex-chefe de Gabinete de Milei, Manuel Adorni, foi acusado de envolvimento em um escândalo por suposto enriquecimento ilícito e ocultação de patrimônio no valor de R$ 500 mil (cerca de R$ 2,6 milhões). Após se contradizer e acabar por assumir que se tratava de economias não declaradas, Adorni renunciou ao cargo no fim de junho. Oitenta por cento dos argentinos consideram provável ou muito provável que ele tenha cometido irregularidades financeiras, segundo a mesma pesquisa.
O próprio Milei protagonizou um caso obscuro, hoje sob investigação da Justiça dos EUA, após promover uma criptomoeda cujo valor despencou em questão de segundos. Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência, foi citada em áudios vazados que sugeriam ela ter recebido parte de um suposto esquema de propina na Agência Nacional para a Deficiência (Andis). E o candidato do governo a deputado pela província de Buenos Aires, José Luis Espert, renunciou à candidatura depois que vieram a público seus vínculos com um empresário acusado de narcotráfico nos EUA. Todos negam ter agido de forma irregular. Apesar das sucessivas notícias negativas, Milei obteve uma sólida vitória nas eleições nacionais de meio de mandato em outubro passado.
A vitória ocorreu dias depois de um inédito resgate financeiro realizado pelos EUA para a Argentina e de um apoio explícito de Trump a Milei. "A eleição está próxima, e a vitória é muito importante, estamos aqui para apoiá-lo", afirmou Trump na época. Em março, a revista britânica The Economist elogiou as políticas austeras do presidente, chamando-as de "sensatas, ainda que duras". Meses depois, porém, a mesma publicação intitulou uma reportagem "Milei está em sérios apuros", afirmando que "os eleitores agora têm duas grandes queixas: escândalos de corrupção e uma economia em dificuldades". A inflação do país saiu de três dígitos no fim de 2024 para 33% em junho deste ano, dado amplamente divulgado por Milei. Seu governo também comemorou a redução da pobreza para 28%, atingindo seu nível mais baixo dos últimos sete anos, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec).
No entanto, analistas questionam esses números, que contrastam com indicadores de renda como salários reais e aposentadorias em queda, gerando o fenômeno dos "trabalhadores pobres", em que ter um emprego não é garantia para sair da pobreza. "Externamente, para quem olha de fora, Milei está conseguindo se consolidar como um reformador audaz, porque os índices macroeconômicos estão melhorando. Mas no plano doméstico, o país está empobrecendo", afirma Bressan. "O discurso para fora dá a entender que a inflação está controlada, que o PIB está melhorando, mas com um custo popular muito grande."