Milei apoia Flávio Bolsonaro em convenção no Brasil

Foto: World Economic Forum/Flickr
O presidente argentino visita o Brasil para endossar a candidatura de Flávio Bolsonaro em meio a escândalos e queda nas pesquisas
O presidente da Argentina, Javier Milei, viaja ao Brasil nesta sexta-feira para declarar apoio à candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro durante a convenção do Partido Liberal. A visita representa um raro endosso de um chefe de Estado estrangeiro em um evento de lançamento de candidatura, e ocorre em um momento em que a campanha de Flávio Bolsonaro enfrenta meses de escândalos e disputas internas, com perda de terreno para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas. O apoio de Milei chega em um contexto de crescimento da direita na América Latina, e a presença do líder argentino na convenção pode oferecer novo fôlego à campanha do senador. "Ter o Milei na convenção ajuda a motivar, mobilizar essa base mais ideológica", disse Silvio Cascione, diretor da Eurasia Group para o Brasil, destacando o alinhamento com recentes vitórias da direita na Colômbia, Peru e Chile.
A campanha de Flávio Bolsonaro acumula dificuldades desde o início do ano. Em maio, o senador confirmou reportagens segundo as quais o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, posteriormente preso em uma grande investigação de fraude e suborno, financiou a produção de um filme sobre a carreira política de seu pai. O caso ganhou nova relevância esta semana, após a Polícia Federal receber autorização para investigar o financiamento. No mês passado, uma disputa pública com sua madrasta Michelle Bolsonaro ameaçou prejudicar sua imagem junto ao eleitorado feminino. Nesta semana, as novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros voltaram a colocar em foco os resultados mistos dos esforços de sua família para buscar apoio do presidente norte-americano Donald Trump. Pesquisas da Quaest mostram Flávio Bolsonaro agora 8 pontos percentuais atrás de Lula em um eventual segundo turno, depois de ter registrado, em abril, uma pequena vantagem, ainda que dentro da margem de erro. "A campanha de Flávio está sofrendo um desgaste interno", disse o analista político Rafael Favetti. Jair Bolsonaro, que ainda não deu sinais de estar deixando a política de forma definitiva, continua exercendo influência por meio de sua esposa, Michelle, e de outros aliados, enfraquecendo a posição de Flávio como herdeiro natural da marca Bolsonaro, acrescentou o analista.
O apoio de Milei, cuja vitória na Argentina em 2023 deu início a uma sequência de quase uma dúzia de eleições latino-americanas vencidas por candidatos alinhados a Trump, relembra os ventos favoráveis mais amplos que ainda dão a Flávio uma chance na disputa. Em toda a região, preocupações com a criminalidade e a estagnação econômica fortaleceram candidatos conservadores com uma agenda amplamente compartilhada de "ordem primeiro, mercado depois e uma relação mais próxima com Washington", afirmou o JPMorgan em nota a clientes esta semana. Após a visita ao Brasil, Milei seguirá para o Peru, para a posse de Keiko Fujimori em 28 de julho; visitará também o Equador, onde se reunirá com o presidente conservador Daniel Noboa; e a Colômbia, para a posse de Abelardo de la Espriella, de direita, em 7 de agosto. A agenda de Flávio Bolsonaro tem muitos pontos em comum com as plataformas vitoriosas focadas em lei e ordem. Na área de segurança pública, ele propôs reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos e construir novos presídios de segurança máxima, inspirado no modelo adotado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Na economia, promete cortes de impostos e privatizações para enxugar o Estado, ao mesmo tempo em que critica Lula pela inflação dos alimentos.
A grande questão que paira sobre a campanha de Flávio Bolsonaro é como herdar o apoio fervoroso dado a seu pai e, ao mesmo tempo, ampliar seu apelo entre brasileiros cansados de uma década de política intensamente polarizada. Em dezembro, após receber o apoio do pai, o senador tentou se apresentar como uma figura mais moderada. "Eu me considero, de verdade, um Bolsonaro mais centrado", disse à Reuters em entrevista concedida em seu gabinete em Brasília. Com viagens à Europa, ao Oriente Médio e a Washington, onde se reuniu com Trump e com o secretário de Estado Marco Rubio, ele procurou reforçar a ideia de uma aliança conservadora global em ascensão.
No entanto, tropeços domésticos deixaram potenciais aliados à margem e fortaleceram concorrentes conservadores que ainda aparecem com percentuais modestos nas pesquisas. Analistas continuam projetando um segundo turno disputado entre Lula e Flávio em outubro, mas, por enquanto, o impulso político mudou de lado e favorece o atual presidente. "Essas eleições dependem de Lula escorregar numa casca de banana", afirmou Favetti, de Brasília.