Michelle é alvo de campanha nas redes após vídeo que cita Flavio

© Marcelo Camargo/Agência Brasil
Campanha coordenada de difamação nas redes contra Michelle Bolsonaro confirma exatamente o que ela havia denunciado sobre desrespeito e assédio
Michelle Bolsonaro colocou o movimento criado pelo marido diante de uma escolha ao publicar o vídeo em que se declarou "apunhalada" e "humilhada" pelo enteado Flávio Bolsonaro. Diante da conhecida dificuldade do bolsonarismo com o eleitorado feminino, havia a possibilidade de reverter a crise por meio de uma reconciliação familiar pública e afetiva. Flávio, torcedor do Vasco, clube conhecido pela torcida como "time da virada", poderia tentar transformar o gol contra em recuperação épica. Não foi o que aconteceu. Entre a reconciliação e o assédio, o bolsonarismo escolhou a infâmia.
A guerra virtual desenhada para calar Michelle Bolsonaro acabou provando exatamente o ponto que ela havia levantado. A reação ao vídeo foi uma escalada de agressões virtuais e deboche conduzida por influenciadores, jagunços digitais e fontes anônimas de bastidor, todos alinhados no mesmo recado: cale a boca e volte a fritar bananinha para o marido. Os difamadores trataram o desabafo da esposa de Jair Bolsonaro, mãe de sua filha e do PL Mulher, como se ela fosse uma insubordinada, indigna de voz, respeito, espaço e opinião. Reduziram Michelle Bolsonaro ao papel de quem só serve enquanto fica quieta, posando sorrindo em fotos. Cada ataque repetiu o que originou a crise, jogando mais lenha nessa fogueira de vaidades.
Michelle Bolsonaro relatou que, no telefonema em que discordou da aliança do PL no Ceará, foi tratada com aspereza e ouviu que "havia chegado ontem" e não entendia de política, que não deveria se meter. As eleitoras do país viram o vídeo e entenderam o que aconteceu. Em algum grau, todas se identificaram com o episódio, reconhecendo o tom paternalista, superior e arrogante que elas mesmas já enfrentaram em algum momento. Diante do assédio, Michelle Bolsonaro se recolheu. Robert Greene, em "As 48 Leis do Poder", chamaria isso de render-se para vencer.
Ao se voltar para a família, sem alarde, ela protegeu o marido e a filha, reforçando o arquétipo que a torna um personagem carismático e popular em seu nicho. Enquanto o bolsonarismo exigia submissão, Michelle Bolsonaro falava em princípios. Ela denunciou um "grupo de maledicência coordenada a partir de quem está no exterior", agindo há semanas com ataques coordenados nas redes. Enquanto os robôs e paus-mandados atacavam, os bastidores do PL abasteciam a imprensa com a versão de que ela havia "perdido" e teria sido "enquadrada".
Era exatamente o assédio que Michelle Bolsonaro havia denunciado, funcionando à luz do dia. Em vez de recuo, dobraram a aposta. A senadora Damares Alves levou o caso à tribuna do Senado, relatando ataques com imagens manipuladas por inteligência artificial contra ela, contra Michelle Bolsonaro e contra a própria filha dela com Jair Bolsonaro, sobre quem os chamados picaretas virtuais lançam dúvidas até sobre a paternidade da menina. "Se vocês silenciam diante do ataque à violência política contra a mulher, vocês são coniventes", cobrou Damares.
A denúncia já não é só de Michelle Bolsonaro: um grupo de mulheres conservadoras identificou o mesmo padrão de ataques coordenados e estuda acionar a Justiça dos Estados Unidos contra os responsáveis. Cada golpe virtual confirma a tese da vítima. Michelle Bolsonaro disse que era tratada com desrespeito. A resposta foi mais desrespeito, um crime reincidente aos olhos de todos. O dano causado pelo bolsonarismo no público feminino não aparece necessariamente nas primeiras reações ou pesquisas. O ressentimento não se mede no dia seguinte — muitas vezes, é uma reação silenciosa, profunda e muito real.
O caso lembra o episódio de Ciro Gomes em 2002, quando ele disse que o papel mais importante de Patrícia Pillar na sua campanha era "dormir" com ele. Pediu desculpas na hora, ela aceitou e o defendeu por anos, chegando a escrever "parem de falar por mim". Não adiantou. A frase sempre se volta contra ele. Em disputas eleitorais apertadas, esse tipo de evento pode fazer a diferença, assim como o caso de Carla Zambelli, que perseguiu armada o jornalista Luan Araújo em plena luz do dia, num endereço nobre de São Paulo, na véspera da eleição. Michelle Bolsonaro agora volta para onde nunca saiu, deixando o bolsonarismo exposto. Depois da Copa, com o provável retorno do escândalo Master, a previsão do tempo segue favorável a Lula.