Flávio faz pedido de desculpas a Michelle em tentativa de pacificar crise no PL

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) - Foto: Reprodução/YouTube
Aliados dizem que vídeo de Flávio Bolsonaro foi condição imposta por Michelle Bolsonaro para iniciar reaproximação e reduzir crise no PL
O pedido público de desculpas feito pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro nesta quinta-feira fazia parte das condições impostas pela madrasta para iniciar uma reaproximação com o enteado, segundo aliados do senador.
Ciente de que o vídeo seria divulgado, Michelle Bolsonaro deu aval ao gesto como um primeiro passo para reduzir a crise que abalou o PL nos últimos dias. Após a publicação, a ex-primeira-dama também curtiu o vídeo do enteado no Instagram.
Nos bastidores, a campanha do senador avalia que o conflito havia deixado de ser um problema restrito à família e passado a ameaçar diretamente a construção da candidatura presidencial de Flávio ao Palácio do Planalto.
Desde que Michelle Bolsonaro tornou público o desentendimento entre os dois, a campanha tentava tratar o episódio como um problema pontual. Internamente, porém, integrantes do núcleo político admitem que a avaliação era outra: a crise passou a ser vista como um dos principais passivos da pré-campanha, por consumir espaço na agenda, alimentar a narrativa de divisão no bolsonarismo e desviar o foco das propostas que Flávio tentava apresentar.
Interlocutores do senador afirmam que, nos últimos dias, houve sucessivas tentativas de encontrar uma saída para reverter o desgaste e reconstruir a relação com Michelle Bolsonaro. A percepção era de que o conflito havia adquirido uma dimensão política difícil de controlar e que manter o impasse apenas ampliaria os danos.
Na avaliação de aliados, o custo político de prolongar a crise passou a ser maior do que o desgaste de um pedido público de desculpas.
A decisão de Michelle Bolsonaro de deixar o comando do PL Mulher e abrir mão da candidatura ao Senado foi recebida com preocupação dentro da legenda, onde ela consolidou espaço próprio nos últimos anos.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, passou os últimos dias tentando convencê-la a permanecer no projeto nacional, fazendo elogios frequentes ao seu trabalho e ressaltando sua capacidade de mobilização. Foi Valdemar, inclusive, quem mediou o conflito desde o primeiro dia, agindo como "bombeiro" entre madrasta e enteado.
A preocupação não se limitava ao PL. Integrantes da campanha também passaram a enxergar riscos eleitorais em manter o conflito aberto.
Michelle Bolsonaro é considerada uma das principais lideranças do eleitorado evangélico no bolsonarismo e mantém influência sobre pastores, igrejas e movimentos religiosos que estiveram ao lado de Jair Bolsonaro nas últimas eleições.
Foi nesse contexto que Flávio gravou o vídeo divulgado nesta quinta-feira, em que faz um aceno direto à ex-primeira-dama, reconhece que causou "desconforto", pede desculpas e afirma que nunca teve a intenção de desrespeitá-la.
— O momento é difícil para todo mundo. Ninguém é perfeito, eu não sou perfeito, e mais uma vez peço desculpas por alguns momentos que causaram desconforto. Como somos pessoas públicas, isso acaba sendo explorado pelos nossos opositores. Nunca foi minha intenção desrespeitar ninguém, ainda mais a esposa do meu pai — afirmou.
Bolsonaro como elemento de união
Aliados também avaliam que o vídeo revela uma tentativa de recolocar Jair Bolsonaro no centro da narrativa da campanha. Em vez de concentrar o discurso apenas no pedido de desculpas, Flávio faz sucessivas referências ao pai para justificar a necessidade de pacificação.
O senador destaca o trabalho de Michelle Bolsonaro nos cuidados com o ex-presidente, lembra que os próprios filhos seguem impedidos de visitá-lo e afirma que ela "precisa ser reconhecida e respeitada". Em seguida, faz um apelo para que apoiadores abandonem os ataques internos.
— Não vamos transformar essa situação em mais motivos de ataques que podem e serão explorados contra nós mesmos. Vamos evitar qualquer divisão. O momento exige união.
Ao final, Flávio renova o convite para que Michelle Bolsonaro participe da campanha e afirma que ambos compartilham o mesmo objetivo de defender o legado do ex-presidente.
Nos bastidores, aliados do senador afirmam que o gesto também tem um objetivo prático: com as restrições impostas a Jair Bolsonaro que impedem Flávio de visitá-lo, Michelle Bolsonaro passou a ser vista como a principal interlocutora entre pai e filho, já que acompanha o ex-presidente diariamente.
Além disso, ela é tratada como um dos principais ativos políticos do bolsonarismo. Além da influência sobre o eleitorado feminino, Michelle Bolsonaro é considerada peça central na interlocução com os evangélicos, segmento estratégico para a campanha presidencial e no qual mantém forte capacidade de mobilização.
A expectativa no entorno de Flávio é que, após o vídeo, Michelle Bolsonaro volte a fazer ao menos alguns acenos públicos ao enteado e ajude a reduzir a temperatura da crise.
Mesmo assim, aliados admitem que continua baixa a possibilidade de que a ex-primeira-dama participe da convenção nacional do PL, marcada para este sábado, em São Paulo, quando Flávio será oficializado candidato à Presidência da República.
Reservadamente, integrantes da campanha classificam o vídeo como a "última cartada" de Flávio para reconstruir a relação com Michelle Bolsonaro.
A avaliação é que o senador fez o gesto público mais amplo possível ao reconhecer erros, pedir desculpas e convidá-la para caminhar ao seu lado. A partir de agora, dizem aliados, uma eventual reaproximação dependerá dos próximos movimentos da ex-primeira-dama.