Leonardo Luz: ''Como fechar a conta dos planos de saúde?''

Leonardo Luz: ''Como fechar a conta dos planos de saúde?''
Envelhecimento da população, avanço das tecnologias, judicialização e aumento dos custos desafiam a sustentabilidade da saúde suplementar e colocam em xeque o futuro dos planos de saúde no Brasil
O Brasil vive um paradoxo em seu sistema de saúde. O país possui um sistema público universal que atende praticamente toda a população em algum momento da vida e, simultaneamente, abriga um dos maiores mercados privados de assistência médica do mundo. A saúde suplementar brasileira alcançou uma dimensão econômica comparável à de importantes setores industriais, mas enfrenta hoje uma crise que vai muito além de dificuldades conjunturais. O problema central é estrutural e resulta da conjugação de diversos fatores: o envelhecimento populacional, a incorporação acelerada de novas tecnologias médicas, a crescente judicialização, a forte regulação estatal e a transformação do modelo de negócios das operadoras, processo que vem reformulando a própria natureza do mercado de seguros de saúde.
De acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), o Brasil possuía cerca de 53 milhões de beneficiários de planos médico-hospitalares em março de 2026, além de mais de 35 milhões de usuários de planos exclusivamente odontológicos. O segmento médico-hospitalar incorporou mais de um milhão de beneficiários nos doze meses anteriores, refletindo a recuperação do emprego formal e da renda após os anos mais difíceis da pandemia. Ainda assim, o crescimento do número de usuários não eliminou a principal preocupação das seguradoras, a saber, o descompasso entre as velocidades de aumento dos custos assistenciais e de envelhecimento da população.
O cenário atual é substancialmente distinto daquele que marcou os primórdios da saúde suplementar brasileira. O setor surgiu em um contexto de intenso crescimento demográfico, expressiva elevação da renda per capita e acelerado processo de industrialização do país. Nas décadas de 1960 e 1970, grandes empresas passaram a oferecer assistência médica como benefício trabalhista, estimulando o surgimento de cooperativas médicas, seguradoras e empresas de medicina de grupo. O mercado expandiu-se rapidamente, mas permaneceu durante muitos anos sob reduzido grau de regulação, apoiado em contratos pouco transparentes, frequentes exclusões de cobertura e ausência de exigências mais rigorosas de solvência financeira das operadoras.
Com a promulgação da Constituição Federal de 1988, esse arranjo institucional foi profundamente alterado. Ao estabelecer a saúde como direito de todos e dever do Estado, por meio da criação do Sistema Único de Saúde (SUS), a Constituição inaugurou um novo paradigma para a organização dos serviços de saúde, fundamentado nos princípios da universalidade, da integralidade e da equidade. Ao mesmo tempo, preservou a atuação da iniciativa privada como participante complementar e suplementar ao sistema público, conferindo-lhe respaldo constitucional. Essa convivência entre um sistema público universal e um robusto mercado privado de planos de saúde constitui uma singularidade brasileira. Se, por um lado, o SUS ampliou significativamente o acesso da população aos serviços de saúde, por outro, a expansão da saúde suplementar continuou sendo impulsionada pela demanda de empresas e famílias por maior agilidade no atendimento, maior liberdade de escolha e acesso a redes privadas de prestadores. Formou-se, assim, um modelo híbrido, no qual os setores público e privado coexistem de maneira interdependente, compartilhando infraestrutura, profissionais e, frequentemente, os próprios pacientes, embora submetidos a incentivos econômicos bastante distintos.
O marco regulatório da saúde suplementar foi consolidado com a Lei nº 9.656, de 1998, que disciplinou os planos privados de assistência à saúde. Dois anos depois, a Lei nº 9.961 criou a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), responsável pela regulação, fiscalização e supervisão do setor. A nova estrutura regulatória elevou as exigências de capitalização das companhias, ampliou os direitos dos consumidores e definiu coberturas mínimas obrigatórias. O impacto econômico foi imediato, de modo que diversas operadoras de pequeno porte deixaram o mercado ou foram incorporadas por grupos maiores. Ao longo das duas décadas seguintes — movimento intensificado nos últimos anos — consolidou-se um expressivo processo de concentração de mercado.
Essa consolidação ocorreu paralelamente ao encolhimento do mercado de planos individuais, pressionado pela dificuldade de repassar integralmente aos consumidores o aumento dos custos assistenciais, uma vez que seus reajustes dependem de autorização anual da ANS. Em contrapartida, os planos coletivos dispõem de maior flexibilidade na negociação de reajustes. Como consequência, as operadoras migraram progressivamente para o segmento corporativo. Atualmente, mais de 80% dos beneficiários estão vinculados a planos coletivos empresariais, tornando o setor muito mais dependente do desempenho do mercado de trabalho formal e dos ciclos da economia. Ao mesmo tempo, os planos individuais tornaram-se cada vez mais escassos e caros, restringindo o acesso de parte importante da população à saúde suplementar.
O verdadeiro ponto de inflexão, contudo, ocorreu quando o mercado percebeu que o modelo tradicional de seguros começava a perder capacidade para absorver o crescimento contínuo dos custos médicos. Em um seguro convencional, o risco é relativamente previsível. Na saúde suplementar, entretanto, três fenômenos passaram a reduzir significativamente essa previsibilidade.
O primeiro é de natureza demográfica e, por isso mesmo, pouco suscetível a intervenções de curto prazo. Segundo o IBGE, a proporção de brasileiros com 60 anos ou mais praticamente dobrou entre 2000 e 2023, passando de 8,7% para 15,6% da população. As projeções indicam que o país deixará de crescer demograficamente por volta de 2041 e poderá ter quase 38% de sua população composta por idosos em 2070 — envelhecimento que o Brasil realizará em cerca de duas décadas, percurso que a França levou aproximadamente um século para completar. O contingente de pessoas com 60 anos ou mais deverá saltar de cerca de 34 milhões em 2024 para quase 69 milhões em meados da década de 2050.
O impacto econômico dessa transformação é imediato. Beneficiários idosos utilizam, em média, mais consultas, exames, medicamentos e internações do que indivíduos jovens, pressionando continuamente os custos das seguradoras. Soma-se a isso a transição epidemiológica, que deslocou o perfil das doenças predominantes das enfermidades infecciosas para condições crônicas, como diabetes, hipertensão, câncer e doenças cardiovasculares. Diferentemente das doenças agudas, essas enfermidades exigem acompanhamento permanente, tratamento continuado e utilização recorrente de recursos médicos, tornando o custo assistencial estruturalmente mais elevado.
O segundo fenômeno é tecnológico. A medicina contemporânea tornou-se extraordinariamente mais eficaz do que a de vinte anos atrás, mas também significativamente mais cara. Terapias biológicas, imunoterapias oncológicas, cirurgias robóticas, exames genéticos e medicamentos de alta complexidade ampliaram substancialmente as possibilidades terapêuticas, mas elevaram, na mesma proporção, as despesas das operadoras. Nos Estados Unidos, os gastos com saúde já superam 17% do Produto Interno Bruto (PIB). Na média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), as despesas médicas crescem sistematicamente acima do restante da economia.
O Brasil apresenta uma peculiaridade relevante. O gasto total em saúde corresponde a aproximadamente 9,7% do PIB, proporção semelhante — e, em alguns anos, até superior — à média da OCDE. Entretanto, cerca de 60% desse montante é financiado por recursos privados, seja por meio dos planos de saúde, seja diretamente pelas famílias. Em outras palavras, o país gasta relativamente muito em saúde para o seu nível de renda, mas com forte participação do financiamento privado e com um gasto per capita bastante inferior ao observado nas economias desenvolvidas. Em 2022, o gasto per capita brasileiro foi estimado em aproximadamente US$ 1700, menos de um terço da média da OCDE, que orbita em torno de US$ 5000.
O terceiro fenômeno é institucional e decorre da crescente judicialização da saúde. Segundo o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), havia mais de 880 mil processos relacionados à saúde em tramitação em 2025, após o ingresso de cerca de 454 mil novas ações apenas nos oito primeiros meses do ano. Na saúde suplementar, essas demandas envolvem, com frequência, a cobertura de medicamentos de alto custo, tratamentos experimentais, procedimentos não previstos no rol da ANS e controvérsias envolvendo reajustes contratuais.
Sob a ótica econômica, a judicialização produz um efeito semelhante ao de uma alteração retroativa das condições originalmente pactuadas em contrato. O cálculo atuarial das seguradoras é elaborado com base em probabilidades de utilização e coberturas previamente definidas. Quando decisões judiciais ampliam obrigações que não foram originalmente precificadas, a previsibilidade dos custos diminui significativamente, comprometendo o equilíbrio atuarial do sistema. Não por acaso, estudos do próprio CNJ apontam elevada taxa de procedência das ações relacionadas à saúde e reduzidos índices de conciliação, fatores que contribuem para ampliar a percepção de insegurança jurídica no setor.
A confluência desses três fatores estruturais levou o mercado a responder por meio de um intenso processo de verticalização. Tradicionalmente, as empresas atuavam como intermediárias financeiras, arrecadando mensalidades e remunerando hospitais, laboratórios, clínicas e demais prestadores independentes. Nos últimos anos, entretanto, os grandes grupos passaram a controlar diretamente parcelas cada vez mais relevantes da rede assistencial, integrando a atividade securitária à prestação dos serviços de saúde. Operadoras passaram a adquirir hospitais, laboratórios, clínicas e centros de diagnóstico, ao mesmo tempo em que grupos hospitalares ingressaram no mercado de planos de saúde. Em consequência, consolidou-se um modelo de negócios em que um mesmo grupo econômico administra praticamente toda a jornada do beneficiário, desde a contratação do plano até a realização dos procedimentos médicos.
A lógica econômica desse movimento é direta. Se o principal desafio consiste no crescimento contínuo dos custos assistenciais, torna-se racional buscar maior controle sobre os fatores que os determinam. Ao operar hospitais e clínicas próprios, as empresas conseguem padronizar protocolos clínicos, reduzir desperdícios, ampliar o poder de negociação junto a fornecedores, integrar informações médicas e coordenar de forma mais eficiente o cuidado do paciente. Sob a perspectiva econômica, trata-se de uma estratégia de internalização de custos e de redução de problemas típicos de assimetria de informação e de incentivos desalinhados entre financiadores e prestadores dos serviços.
Diversos movimentos empresariais ilustram essa transformação. O caso mais emblemático foi a fusão entre Hapvida e NotreDame Intermédica, concluída em 2022, que deu origem à maior operadora verticalizada do país, reunindo uma extensa rede própria de hospitais, clínicas, prontos-socorros, unidades de diagnóstico e centros de oncologia. Essa operação foi precedida, ao longo da década anterior, por dezenas de aquisições regionais que permitiram a construção de uma rede integrada em diferentes estados. No mesmo ano, a Rede D'Or São Luiz adquiriu o controle da SulAmérica, aproximando uma das maiores redes hospitalares do país de uma das principais seguradoras de saúde e fortalecendo um modelo que combina financiamento e prestação direta de serviços. A própria Unimed, embora organizada sob a forma de cooperativas independentes, também vem ampliando de maneira sistemática seus investimentos em hospitais próprios, centros de diagnóstico e unidades de atenção primária, buscando maior coordenação da assistência e ganhos de eficiência operacional.
O Brasil, contudo, não está isolado nessa tendência. Nos Estados Unidos, conglomerados como UnitedHealth, CVS Health e Kaiser Permanente expandiram significativamente seus modelos de integração vertical, combinando seguros, hospitais, clínicas, farmácias e serviços de atenção primária. Na Holanda, as seguradoras exercem forte coordenação sobre as redes assistenciais, utilizando mecanismos sofisticados de remuneração por desempenho e gestão de riscos. Na Alemanha, embora o sistema permaneça mais fragmentado, observa-se crescente integração entre seguradoras e prestadores de serviços. A diferença fundamental é que, no Brasil, esse movimento ocorre em um ambiente de elevada concentração regional e forte dependência do financiamento privado, circunstâncias que potencializam tanto os ganhos de eficiência quanto os riscos concorrenciais.
Essa transformação modifica profundamente a dinâmica competitiva do setor. Durante décadas, as operadoras disputavam mercado principalmente por meio do preço, da abrangência geográfica e da qualidade da rede credenciada. Atualmente, a vantagem competitiva está cada vez mais associada à capacidade de gerir a assistência de forma integrada. O ativo estratégico deixa de ser apenas a carteira de beneficiários e passa a incluir hospitais próprios, bases de dados clínicos, sistemas de informação, plataformas digitais, protocolos assistenciais e programas estruturados de prevenção e acompanhamento de doenças crônicas.
Entretanto, a verticalização também impõe desafios regulatórios relevantes. Embora a integração entre financiamento e prestação de serviços possa gerar ganhos expressivos de eficiência, ela também amplia o poder de mercado dos grandes grupos econômicos. Em regiões onde existem poucas alternativas de atendimento, a concentração pode reduzir a concorrência, dificultar a entrada de novos participantes e limitar as opções disponíveis para consumidores e empresas. Caberá aos órgãos reguladores encontrar um equilíbrio entre os ganhos decorrentes da integração vertical e a preservação de um ambiente concorrencial saudável.
Outro desafio relevante diz respeito à sustentabilidade dos reajustes. A ANS autorizou reajuste máximo de 5,11% para os planos individuais no ciclo 2026/2027. Contudo, esse segmento representa parcela cada vez menor do mercado. Nos planos coletivos, cujos reajustes são livremente negociados entre seguradoras e contratantes, os aumentos frequentemente refletem a intensidade da inflação médica e da elevação dos custos assistenciais. Como consequência, os planos de saúde passaram a representar uma das despesas que mais pressionam o orçamento das famílias de classe média, justamente em um contexto marcado por crescimento econômico modesto, perda do poder de compra e compressão da renda disponível.
Em última análise, a crise da saúde suplementar brasileira não pode ser interpretada apenas como um problema de preços, reajustes ou concentração de mercado. Trata-se, sobretudo, de um problema de produtividade. A demanda por serviços de saúde cresce continuamente, impulsionada pelo envelhecimento populacional, pela incorporação de novas tecnologias, pelo aumento das doenças crônicas e pelas crescentes expectativas da sociedade em relação à qualidade da assistência. A oferta, por sua vez, depende de profissionais altamente qualificados, hospitais, equipamentos sofisticados e investimentos intensivos em capital, em um setor caracterizado por baixa produtividade do trabalho e elevado custo de expansão, além de altíssimo custo de capital em uma economia sob taxas de juros exorbitantes.
Essa realidade não é exclusiva do Brasil. Em praticamente todas as economias desenvolvidas, a saúde tornou-se um dos segmentos mais intensivos em gastos públicos e privados, pressionado sobretudo pela transição demográfica. A diferença é que esses países envelheceram depois de alcançarem elevados níveis de renda e produtividade. O Brasil percorre o caminho inverso, envelhecendo rapidamente antes de completar seu processo de desenvolvimento econômico, permanecendo preso à chamada armadilha da renda média. Esse contexto torna ainda mais difícil compatibilizar o crescimento da demanda por cuidados médicos com a capacidade de financiamento das famílias, das empresas e do próprio Estado.
Nesse cenário, torna-se evidente que o principal desafio das próximas décadas não será simplesmente ampliar os recursos destinados à saúde, mas utilizá-los de maneira mais eficiente. A expansão da atenção primária, o fortalecimento da medicina preventiva, a adoção de modelos de remuneração baseados em valor (value-based healthcare), o uso crescente da inteligência artificial para apoio ao diagnóstico e à gestão clínica e a integração das informações assistenciais representam caminhos promissores para elevar a produtividade do sistema. Nenhuma dessas iniciativas, entretanto, será capaz de eliminar completamente a tendência estrutural de crescimento da demanda por serviços de saúde.
A transformação em curso revela que as operadoras estão deixando de ser simples intermediárias financeiras para assumir o papel de gestoras integradas do risco em saúde. A verticalização, as fusões, a consolidação empresarial e os investimentos em tecnologia não constituem fenômenos isolados, mas respostas econômicas a um ambiente em que controlar a produção do cuidado tornou-se tão importante quanto financiar seu consumo. Em última instância, o futuro da saúde suplementar brasileira dependerá menos da capacidade de reajustar mensalidades e mais da capacidade de elevar a produtividade da assistência, coordenar o cuidado dos pacientes e utilizar a inovação tecnológica para reduzir desperdícios sem comprometer a qualidade. Em um país que envelhece em velocidade inédita para seu nível de desenvolvimento, esse talvez seja o maior desafio econômico e institucional do setor de saúde nas próximas décadas.