Itamaraty alertou Argentina sobre "linha vermelha" cruzada por Milei contra Lula

O presidente da Argentina, Javier Milei, ao lado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), durante convenção partidária do PL em São Paulo (PL/Divulgação)
Diplomacia brasileira avisou à Casa Rosada que ataques a Lula gerariam crise antes do discurso de Milei no PL
O Ministério das Relações Exteriores brasileiro, o Itamaraty, havia alertado o governo argentino para evitar ataques pessoais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva antes mesmo do discurso de Javier Milei na convenção nacional do PL, realizada no último sábado (25). A diplomacia brasileira comunicou à Casa Rosada que ofensas direcionadas a Lula ou a outras autoridades brasileiras, especialmente em solo nacional, seriam consideradas uma "linha vermelha" e poderiam desencadear uma crise diplomática entre os dois países.
Segundo informações de bastidores, o governo brasileiro sinalizou, ao mesmo tempo, que discursos em defesa da liberdade de expressão, do livre mercado, críticas ao socialismo e manifestações de apoio à direita brasileira não seriam interpretados como um problema. Esses recados chegaram ao governo argentino por meio de interlocutores, às vésperas da edição de 2024 da CPAC, evento conservador realizado em Florianópolis. Na ocasião, Milei fez críticas ao socialismo, mas não citou Lula diretamente. O presidente argentino também se reuniu com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que, naquele momento, ainda não havia sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Na época, o Itamaraty avaliou que a estratégia havia evitado um agravamento da relação entre os dois países.
O embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, chegou a ser chamado para consultas em Brasília, mas retornou pouco tempo depois à capital argentina. Mesmo com o distanciamento político entre Lula e Milei, o governo brasileiro entendia que a relação comercial e econômica seguia preservada. Reuniões oficiais continuaram acontecendo, incluindo visitas dos ministros da Defesa, José Múcio Monteiro, e da Agricultura, André de Paula, à Argentina. A situação mudou de patamar após o discurso de Milei na convenção do PL que confirmou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.
Durante o evento, o presidente argentino chamou Lula de "presidiário" e se referiu ao ministro Alexandre de Moraes, do STF, como "lixo careca". As declarações ultrapassaram os limites que o Itamaraty havia sinalizado previamente e acenderam um alerta na diplomacia brasileira. Após as declarações, o embaixador Julio Bitelli foi convocado novamente a Brasília. Desta vez, porém, sem data prevista para retornar a Buenos Aires, o que foi interpretado pelo Itamaraty como um sinal da gravidade da crise diplomática instalada entre os dois países. O retorno do diplomata à Argentina deve ser discutido nesta quarta-feira (29), em reunião com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. O encontro também deve tratar das possíveis respostas do governo brasileiro caso Milei faça novos ataques. Apesar da tensão, integrantes do Itamaraty afirmam que o objetivo é preservar a relação institucional entre Brasil e Argentina, mantendo o diálogo com empresários, universidades, governos provinciais e outros setores considerados estratégicos para os dois países.