IPCA desacelera em junho mas supera meta do BC

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Inflação oficial sobe 0,16% em junho e acumula 4,64% em 12 meses, ainda acima do teto de 4,50% do Banco Central
O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), índice oficial de inflação no Brasil, registrou alta de 0,16% em junho, desacelerando em relação aos 0,58% de maio. No acumulado de 12 meses, o índice ficou em 4,64%, abaixo dos 4,72% registrados até maio. Apesar do alívio, o indicador ainda supera o teto da meta do Banco Central, fixada em 4,50%. No acumulado dos seis primeiros meses do ano, o IPCA atingiu 3,36%, o maior resultado para o período desde 2022, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O índice segue acima da margem de tolerância de 1,5 ponto percentual estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), que define a meta em 3%, com intervalo entre 1,5% e 4,5%.
O grupo de habitação variou 0,63% em junho, abaixo do 1,22% registrado em maio. O recuo foi impulsionado pela desaceleração da energia elétrica residencial, que passou de 3,67% para 1,53%, ainda sendo o principal impacto individual no resultado do mês, com contribuição de 0,06 ponto percentual. Alimentação e bebidas apresentou variação negativa de 0,24% no mês, revertendo a alta de 1,33% de maio. A alimentação no domicílio recuou 0,39%, com quedas no café moído (-3,72%), nas frutas (-1,58%) e nas carnes (-0,64%). Em sentido contrário, o feijão-carioca subiu 8,31% e a batata-inglesa avançou 3,57%. "O principal destaque positivo veio da alimentação.
O grupo de alimentação no domicílio recuou 13 pontos percentuais, enquanto os itens in natura caíram 7 pontos percentuais, mostrando uma clara melhora no comportamento desse componente da inflação. Os núcleos também surpreenderam para baixo, e o índice qualitativo, de forma geral, veio bem melhor do que se esperava", afirmou Paulo Gala, professor de Economia da FGV-SP. O grupo de transportes variou 0,17% em junho, pressionado pela alta de 7,12% nas passagens aéreas. O movimento foi parcialmente compensado pelo recuo de 0,48% nos combustíveis, com quedas no etanol (-3,09%), no óleo diesel (-1,19%), no gás veicular (-0,19%) e na gasolina (-0,12%).
Apesar da melhora do índice cheio, os serviços subjacentes — que excluem itens mais voláteis, como passagens aéreas — permaneceram em níveis elevados, acumulando alta de 5,0% nos 12 meses até junho. "Os serviços subjacentes permanecem em níveis elevados. Essa diferença entre o índice cheio e os núcleos da inflação ajuda a ilustrar a dificuldade em trazer o IPCA para a meta", destacou Claudia Moreno, economista do C6 Bank. Na mesma linha, Caio Megale, economista-chefe da XP, ponderou: "Embora o resultado de junho tenha sido melhor do que o esperado, a inflação de serviços segue heterogênea. Por um lado, as medidas mais amplas e subjacentes de serviços melhoraram de forma relevante na margem.
Por outro, os serviços intensivos em mão de obra permaneceram elevados, sugerindo que a demanda doméstica e as condições ainda apertadas do mercado de trabalho continuam pressionando os componentes mais inerciais da cesta. Em nossa visão, esse segue sendo um ponto importante de atenção à frente."
Para analistas de mercado, a desaceleração do IPCA em junho pode abrir espaço para que o Banco Central mantenha o ciclo de afrouxamento monetário. A taxa Selic está atualmente em 14,25% ao ano. "Por ora, o processo inflacionário dá sinais de que o aperto monetário empreendido nos últimos anos tem surtido efeito, o que, na nossa visão, permitiria o Copom a continuar o atual ciclo de calibração. Projetamos cortes de 0,25 ponto percentual em todas as reuniões restantes desse ano, levando a Selic a 13,25% em dezembro de 2026", disse André Valério, economista sênior do Inter. Gustavo Danilo Guimarães, especialista de renda fixa da Manchester Investimentos, também avaliou positivamente o resultado: "O IPCA de junho traz leitura positiva, mostrando alívios na inflação, trazendo conforto para o Banco Central e para uma perspectiva de corte, para o mês de agosto, novamente, de 0,25 ponto percentual na taxa Selic."
O conflito no Irã, iniciado no final de fevereiro, resultou no fechamento do Estreito de Hormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. A decisão fez o preço do petróleo disparar mais de 62%, com impacto direto na cadeia de combustíveis e efeito cascata sobre a distribuição mundial de produtos. "O principal canal de transmissão [da inflação neste ano] foi o petróleo, já que a escalada das tensões e as restrições ao tráfego no Estreito de Hormuz elevaram rapidamente as cotações internacionais do petróleo Brent, pressionando diesel, gasolina, fretes e diversos custos logísticos", explicou Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.