Homem é resgatado após sobreviver 8 dias soterrado na Venezuela

Foto: X/Reprodução
Hernán Gil foi resgatado após oito dias sob escombros na Venezuela; especialistas explicam os limites do corpo humano em soterramentos
Quais são os limites do corpo humano diante de uma grande catástrofe? O resgate de Hernán Gil, vigilante venezuelano de 43 anos, que sobreviveu oito dias soterrado sob escombros após dois terremotos que devastaram a Venezuela, reacendeu a dúvida sobre por quanto tempo uma pessoa pode sobreviver nessas condições. Hernán Gil estava preso desde o dia 24 de junho e foi resgatado na quinta-feira (2/7). Especialistas consultados apontam que não existe uma resposta exata para essa questão e que diversos fatores podem ser decisivos para a sobrevivência.
Último Libânio da Costa, presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica - Regional Minas Gerais, explica que, de forma geral, há consenso de que uma pessoa pode sobreviver mais de duas semanas sem comida e cerca de uma semana sem água. No entanto, esse dado não é absoluto. "Tudo vai depender do tipo de soterramento e das lesões que aquela pessoa sofreu. Nesse tipo de ocorrência, pode haver esmagamento dos membros, iniciando um processo de grande liberação de enzimas musculares e potássio na corrente sanguínea por conta da destruição muscular", aponta o especialista.
Assim, quanto mais grave o esmagamento, maiores são as chances de complicações. "A liberação de enzimas musculares pode causar uma insuficiência renal e o excesso de potássio pode causar arritmia cardíaca, podendo levar a pessoa a óbito", diz Costa. A situação também pode ser agravada pela hipovolemia, que é a redução do volume sanguíneo causada pela desidratação. "A insuficiência renal associada à hipovolemia pode desencadear um processo que chamamos de acidose metabólica (o sangue fica ácido), que agrava ainda mais as condições clínicas", esclarece. [
Ricardo Braga, médico hospitalista do Hospital Orizonti, complementa dizendo que traumas mais graves reduzem significativamente as chances de sobrevivência. "Pessoas com machucados mais sérios ou com alguma hemorragia importante sobrevivem durante pouquíssimo tempo, de minutos a horas, se não receberem ajuda", diz.
Outro fator que pode complicar o quadro é a ocorrência de fraturas em partes do corpo, como pernas e braços. Isso porque as gotículas de gordura da medula óssea entram na corrente sanguínea após fraturas graves. "É o que chamamos de embolia gordurosa. Essas gotículas podem ir para o sistema circulatório pulmonar, causando insuficiência respiratória. Podem ocorrer a formação de coágulos devido à imobilidade, causando tromboses e embolias. Êmbolos podem migrar para os pulmões. Sem conseguir respirar adequadamente, a pessoa vem a óbito", aponta Costa. Lesões na cabeça também podem comprometer o quadro, dependendo da intensidade. "Traumas muito fortes podem comprimir zonas mais nobres do cérebro. Felizmente, essas áreas ficam na parte mais interna do cérebro, que são menos fáceis de serem atingidas. Caso o trauma seja leve, e localizado em regiões periféricas do cérebro, o risco de comprometimento das atividades pode ser menor. Já os traumatismos cranianos muito intensos podem levar à morte imediata", alerta Costa.
Os fatores ambientais também entram como variáveis importantes nessa equação, segundo Braga. "No calor intenso, o risco de desidratação é maior. No frio extremo, dependendo da condição ambiental, pode acontecer morte por hipotermia, principalmente em crianças pequenas e idosos", esclarece o especialista do Hospital Orizonti. Doenças crônicas seguem a mesma lógica. "Há maior risco se a pessoa já tiver algum órgão ou sistema que não funcione bem. Problemas comuns, como insuficiência cardíaca, insuficiência renal e diabetes, limitam a tolerância da pessoa a situações extremas. Isso aumenta o risco de falecimento ou faz com que ela sobreviva por menos tempo", garante Braga.