Palestina marca primeiras eleições legislativas em quase duas décadas

O porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, ao lado do diretor do governo de Gaza, Ismail Al-Thawabta, em coletiva de imprensa | Reprodução
Grupo anuncia fim do órgão que controlou Gaza por quase 20 anos e abre caminho para comitê tecnocrático palestino assumir o território
O grupo terrorista Hamas anunciou a dissolução do órgão que governou a Faixa de Gaza por quase duas décadas, abrindo caminho para que um comitê tecnocrático palestino implemente o governo civil no território. A medida foi acompanhada pela assinatura, pelo presidente palestino Mahmoud Abbas, de um decreto convocando eleições legislativas para 28 de novembro, as primeiras do tipo em quase 20 anos, caso sejam efetivamente realizadas. O decreto presidencial, divulgado pela agência oficial de notícias Wafa, "conclama o povo palestino em Jerusalém, na Cisjordânia e na Faixa de Gaza a participar de eleições legislativas livres e diretas para escolher os membros do Conselho Legislativo Palestino na data estabelecida".
O chefe do governo ligado ao Hamas, Mohammed al-Farra, renunciou ao cargo na manhã desta segunda-feira, segundo Ismail Thawabta, diretor-geral do escritório de mídia administrado pelo grupo em Gaza, durante uma coletiva de imprensa. A Faixa de Gaza é administrada pelo Hamas desde 2007, quando o grupo assumiu o poder após confrontos com o Fatah, partido do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, sediado em Ramallah, na Cisjordânia ocupada.
De acordo com Thawabta, somente os funcionários técnicos devem permanecer nos cargos para evitar um vácuo administrativo. A medida foi tomada "para aliviar o sofrimento resultante da guerra em curso, o atraso na reconstrução, o cerco contínuo, o fechamento das passagens de fronteira e a recusa do Exército israelense em se retirar", afirmou ele. Thawabta também pediu que as partes envolvidas agilizem os trâmites para que o Comitê Nacional para a Administração de Gaza assuma suas funções administrativas definitivamente.
Em comunicado separado, o porta-voz do Hamas, Hazem Qassem, disse que a medida visa eliminar pretextos para a interferência israelense e reafirmou o compromisso do grupo em transferir todas as responsabilidades de governança em Gaza.
Contexto do cessar-fogo e negociações
Em meados de junho, facções palestinas reuniram-se com mediadores no Cairo e apresentaram sua proposta para a segunda fase do acordo de cessar-fogo em Gaza. O roteiro, apresentado pelo "Conselho de Paz" liderado pelos EUA, inclui mecanismos para o futuro de Gaza, abrangendo reconstrução, desarmamento, retirada israelense e implantação de uma força internacional de paz.
Apesar do acordo de cessar-fogo que entrou em vigor em 10 de outubro de 2025, cinco palestinos foram mortos e pelo menos 18 ficaram feridos em ataques israelenses distintos contra pessoas deslocadas e áreas residenciais no sul de Gaza e na Cidade de Gaza, segundo Mahmoud Basal, porta-voz da Defesa Civil em Gaza. O Hamas e Israel continuaram a trocar acusações de violação da trégua. Autoridades de saúde em Gaza informaram que o número de mortos desde o cessar-fogo chegou a 1.072, com 3.463 feridos. Ao todo, o número de mortos em Gaza desde o início do conflito, em outubro de 2023, é de 73.098, com 173.571 feridos.
Governo Trump endossa o anúncio
O Conselho de Paz do presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o comitê encarregado de governar Gaza deve controlar todas as armas em circulação no território. "O princípio fundamental continua sendo uma única autoridade, uma única lei e uma única arma. Isso significa a consolidação de todas as armas sob o controle do NCAG (Comitê Nacional para a Administração de Gaza)", afirmou o conselho em comunicado divulgado no X (ex-Twitter). O NCAG, atualmente sediado no Cairo, foi criado pelo Conselho de Paz, instituído por Trump durante as negociações por um cessar-fogo em Gaza, em outubro de 2025.
Decisão considerada "simbólica"
O cientista político Mkhaimar Abusada explicou à AFP que se trata, antes de tudo, de uma decisão "simbólica" por parte do Hamas. "O problema não é a dissolução do seu comitê governamental, e sim a aceitação de seu desarmamento (...) continua sendo o principal ponto de bloqueio", acrescentou.
A primeira fase do cessar-fogo permitiu a libertação dos últimos reféns israelenses mantidos pelo Hamas em troca de palestinos presos por Israel. A passagem para a segunda fase, que deveria prever o desarmamento do Hamas e uma retirada progressiva das forças israelenses de Gaza, está há meses estagnada, e Israel reforçou sua presença no território.
Israel descarta o retorno do Hamas ao poder, mas também se opõe, por enquanto, a que a Autoridade Palestina assuma o controle, enquanto os dois lados continuam a se acusar mutuamente de violar o cessar-fogo.