Testemunhas relatam ameaças em caso do tenente acusado de matar esposa soldado

Tenente-coronel e soldado Gisele | Reprodução
Quinze das 19 testemunhas de acusação no caso Gisele pediram para depor sem a presença do tenente-coronel Rosa Neto, réu por feminicídio
Testemunhas de acusação relataram medo e assédio durante as audiências realizadas nesta semana no Fórum Criminal da Barra Funda, em São Paulo, referentes ao feminicídio da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana. O réu é o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, que nega o crime e sustenta a tese de suicídio da esposa. Das 19 testemunhas de acusação, 15 pediram para depor sem a presença de Rosa Neto, por temor ou constrangimento — direito previsto pelo Código de Processo Penal. Entre as que recusaram falar diante dele estavam um capitão, um tenente, um sargento e duas testemunhas protegidas.
Apenas três aceitaram sua presença na sala. Uma outra testemunha não compareceu às audiências. Rosa Neto está preso desde 18 de março no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo, e responde por feminicídio e fraude processual, além de enfrentar um processo de exclusão na PM, aberto na Corregedoria. Seu interrogatório foi remarcado para 28 de agosto, a pedido da defesa, que contesta o laudo do Instituto de Criminalística. "Quando a pessoa é inocente, o espírito fica tranquilo", disse Eugênio Malavasi, advogado do réu. A remarcação ocorreu após a defesa solicitar complementos ao laudo pericial antes do interrogatório. "Não concordo com a conclusão do Instituto de Criminalística. A perícia não pode chegar a uma conclusão partindo de premissas equivocadas", afirmou Malavasi.
José Miguel da Silva Júnior, advogado da família de Gisele, disse que irá aguardar o trâmite do processo. "A ampla defesa é sagrada. Ele está tendo o direito que não permitiu à Gisele." Durante as audiências, uma das testemunhas de acusação relatou ter sido assediada pelo tenente-coronel. "Ela tem pavor dele e chorou muito durante o depoimento", disse Silva Júnior. Por não ceder às investidas, a testemunha teria sido transferida como punição.
Segundo o advogado, ela não registrou boletim de ocorrência por ele "ser uma pessoa muito poderosa". Procurada pela reportagem, a defesa do réu alegou que não há registro formal da acusação. Lucas de Souza Lopes, delegado que investigou o caso, depôs na segunda-feira por vídeo. Segundo ele, Rosa Neto começou a gesticular de maneira enfática durante a audiência. "Eu estava concentrado, então não chegou a atrapalhar meu depoimento", disse à reportagem.
De acordo com o advogado da família de Gisele, as interrupções teriam se repetido durante outros depoimentos. Outros policiais de patentes inferiores, arrolados como testemunhas de acusação, disseram ter se sentido coagidos no dia do crime. Para eles, Rosa Neto usou sua posição hierárquica superior para interferir no apartamento onde a soldado foi encontrada morta. A defesa nega, argumentando que ele agiu como testemunha e não como autoridade na ocasião. Os pais de Gisele também exigiram depor sem a presença do réu.
A mãe da soldado, Marinalva Santana, descreveu o genro como um homem violento, abusivo e ciumento, que controlava a rotina da filha, proibindo Gisele de usar batom, salto alto e perfume, além de exigir que ela realizasse tarefas domésticas. Segundo Marinalva, ele teria tratado Gisele mal na frente da família. Questionado sobre o comportamento de Rosa Neto com a esposa, o advogado do réu disse que ambos "tinham discussões normais de casais" e que "os dois" eram ciumentos. A filha de Gisele, de 7 anos, foi ouvida por psicólogos durante as audiências e relatou ter presenciado brigas do casal e sentir medo do tenente-coronel. A menina sofre com crises de choro e passa por acompanhamento psicológico constante, segundo os avós.
"Houve um feminicídio", afirmou o delegado Lucas de Souza Lopes, do 8º Distrito Policial (Brás). Segundo ele, desde que o socorrista chegou ao apartamento e se deparou com a posição do corpo, houve uma "sensação de estranheza". "São policiais experientes de atendimentos a locais de suicídio. Chamou a atenção a posição da arma e o fato de que mulheres não costumam ceifar a vida com arma de fogo", disse ao UOL. A investigação encontrou "indícios claros de violência doméstica e patrimonial". "Por meio do conteúdo dos celulares apreendidos, chegamos à conclusão que ele tinha uma posição misógina e ela ficava numa posição mais submissa a ele", afirma Lopes. Para o delegado, o caso contribui para evitar a normalização da violência doméstica e para a conscientização dos homens.
A polícia traçou um perfil de Rosa Neto com base em análise de mensagens, imagens de câmeras e interrogatório. Segundo o delegado Lopes, ele demonstrou ser uma pessoa culta, inteligente e detalhista. "Ele demonstrava firmeza, afinal era uma pessoa que já havia comandado tropas, e muito detalhista." A quantidade de detalhes, segundo o delegado, levou a polícia a apontar contradições em seu depoimento. Além das contradições, o delegado afirma que a cápsula da arma que atingiu Gisele não foi encontrada no imóvel — indício claro, segundo ele, de manipulação da cena do crime. "Por isso ele foi indiciado por fraude processual", afirma Lopes.
"A sociedade não espera esse tipo de comportamento de um policial militar." Gisele foi atingida por um tiro na cabeça no apartamento onde morava com o marido, no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro. Levada ao Hospital das Clínicas, morreu às 12h04 do mesmo dia. O marido foi ouvido no mesmo dia e contou ter tido uma conversa sobre separação com Gisele. Segundo ele, após a declaração, a esposa mandou que ele saísse do quarto e bateu a porta. Ele alega ter pegado uma toalha para tomar banho e, minutos depois, ouvido um barulho.
Em seguida, teria saído do banho e visto a mulher caída, com um ferimento na cabeça e segurando um revólver. O caso foi registrado inicialmente como suicídio consumado, mas a Polícia Civil alterou o registro para "morte suspeita" após ouvir a mãe da vítima em depoimento. O corpo de Gisele foi exumado e passou por nova perícia, que identificou "lesões contundentes" na face e na região cervical provocadas por pontas de dedos e escoriações compatíveis com pressão de unhas. Um novo laudo do IML (Instituto Médico Legal) concluiu que as marcas foram provocadas por um adulto durante uma agressão. Mensagens extraídas do celular de Rosa Neto revelaram episódios de ofensas, humilhações e violência física praticadas por ele contra Gisele.
Em um dos textos, Rosa Neto descreveu o que considerava um relacionamento ideal, se autoelogiou e afirmou tratar a companheira como "todo macho alfa trata a sua esposa". Com base nas provas reunidas, Rosa Neto virou réu por feminicídio. "As provas periciais e médico-legais, analisadas pela Polícia Técnico-Científica, indicam a inviabilidade da hipótese de suicídio, além de apontarem indícios de alteração do local do crime", disse a Polícia Civil.
Denúncias de violência doméstica podem ser feitas pelo telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher, que funciona 24 horas por dia, inclusive no exterior, de forma gratuita. O serviço recebe denúncias, oferece orientação especializada e encaminha vítimas para serviços de proteção e atendimento psicológico. Também é possível entrar em contato pelo WhatsApp (61) 99656-5008, pelo Disque 100, pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil ou pela página da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (ONDH). Caso esteja em situação de risco, a vítima pode solicitar medidas protetivas de urgência, previstas na Lei Maria da Penha.